2 de Julho: Independência e morte na Bahia

Independência da Bahia

Em 2 de julho de 1823, chegou ao fim o movimento iniciado no ano anterior contra o governo português selando a independência da Bahia. Nesta data foram expulsos da província o almirante português Madeira de Melo e seus homens. A luta pela Independência na Bahia veio antes da brasileira e só se concretizou quase um ano depois do Sete de Setembro de 1822.

Conflitos em Salvador

Maria Quitéria

A Revolução do Porto (1820) teve enorme repercussão na Bahia, onde era grande o número de portugueses. Com o retorno de D. João VI a Portugal (abril de 1821), permanecendo no Rio de Janeiro, D. Pedro como príncipe-regente, aceleraram-se os conflitos entre brasileiros e portugueses.

Em novembro de 1821, soldados portugueses saíram pelas ruas de Salvador, atacando soldados brasileiros, num confronto corporal na Praça da Piedade, registrando-se mortos e feridos. A população, temerosa, afastou-se da capital buscando refúgio nos sítios do Recôncavo.

Madeira de Melo

Em 11 de fevereiro de 1822, chegou a notícia da nomeação do português Madeira de Melo como comandante das armas da província baiana. Ele substituiria o brigadeiro Manuel Pedro favorável aos brasileiros e tinha a missão de submeter o povo baiano às ordens de Portugal. O conflito estava armado. Uma jovem de nome Maria Quitéria juntou-se às tropas que lutavam contra os portugueses em 1822. Ela utilizou o nome de seu cunhado, ficando conhecida como soldado Medeiros, já que somente homens faziam parte do Exército.

As tropas portuguesas percorriam as ruas, fazendo provocações, inspecionando as fortificações, desafiando as guarnições de maioria nacional. Na madrugada do dia 19 tiros foram disparados do Forte de São Pedro para onde acorreram as tropas portuguesas. Salvador transformou-se numa praça de guerra, e confrontos violentos ocorreram nas Mercês, na Praça da Piedade e no Campo da Pólvora.

Joana Angélica

As tropas portuguesas tomaram o quartel, atacaram casas e invadiram o Convento da Lapa onde alguns revoltosos tinham se refugiado, vindo a assassinar a sua abadessa, Sóror Joana Angélica (19 de fevereiro de 1822).

Restava tomar o Forte de São Pedro. Madeira de Melo preparou-se para bombardear a fortificação — uma das poucas inteiramente em terra, no centro da cidade. No dia seguinte, o forte rendeu-se, evitando-se o derramamento de sangue. O brigadeiro Manuel Pedro foi preso e enviado a Lisboa.

As tensões continuaram. Os brasileiros ainda na capital reagiram com pedradas às ações militares de Madeira de Melo e, na procissão de São José (21 de março de 1822), os portugueses foram apedrejados.

Maria Felipa

Maria Felipa (Revista Raça)

O portal Revista Raça traz uma figura que pouco aparece nos livros de História: Maria Felipa. Descendentes de africanos sudaneses, Maria Felipa nasceu em Itaparica e fez história por sua grande coragem nos combates travados contra os portugueses. Conta-se que a baiana, praticante da capoeira, era extremamente atraente e de porte físico de chamar a atenção. Muito querida na ilha, ganhava a vida vendendo marisco. Sua participação na luta pela independência da Bahia foi bastante ativa, não se limitando a discursos inflamados, suas armas, no entanto, foram a inteligência, a coragem e a solidariedade.

Maria Felipa atuou na guerra como enfermeira e como uma eficiente informante, mas ganhou fama no episódio em que liderou um grupo de 40 outras corajosas mulheres contra soldados portugueses. Segundo historiadores, elas avistaram a esquadra de 42 embarcações lusitanas ancoradas nas imediações da Ilha de Itaparica aguardando a ordem para invadir Salvador e reprimir as ações pela independência baiana.

A cidade de Cachoeira rompe com Portugal

Cachoeira hoje (foto: Olá Bahia)

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o príncipe regente aproximava-se cada vez dos brasileiros em franca oposição às ordens de Portugal. Demitiu todos os portugueses que fazia parte de seu conselho de ministros e formou um novo conselho formado somente por brasileiros.

Em maio de 1822, foi instituído o chamado “Cumpra-se” que determinava que qualquer ordem vinda de Portugal só poderia ser cumprida com a aprovação prévia de D. Pedro.

Em junho de 1822, Dom Pedro resolveu compor uma Assembleia Constituinte que deveria formar um conjunto de leis básicas a serem aplicadas em todo território nacional.

Diante desses fatos, os deputados baianos nas Cortes de Lisboa consultaram por carta os seus distritos para saber qual deveria ser a relação da Bahia com a metrópole. As vilas de Cachoeira, Santo Amaro e São Francisco do Conde manifestaram-se favoráveis a que a província ficasse submetida à regência de D. Pedro.

Afrontado, o comandante Madeira de Melo mandou uma escuna militar para Cachoeira, a 120 km de Salvador. Os “brasileiros” reagiram e, a 25 de junho de 1822, Cachoeira proclamou que ficaria ao lado de D. Pedro e contra a coroa portuguesa.

Guerra pela Independência da Bahia (imagem: UOL)

Seguiu-se combate pela tomada da embarcação que, cercada por terra e água, resistiu até à captura e prisão dos sobreviventes, em 28 de junho. Outras vilas do Recôncavo aderiram à luta de Cachoeira. Enquanto isso, Salvador, tornou-se alvo de maiores opressões por parte de Madeira de Melo. O povo da capital fugiu, engrossando as hostes que se concentravam no Recôncavo.

Todos estes movimentos foram comunicados ao príncipe regente D. Pedro. Portugal enviou 750 soldados para a manutenção da ordem na Bahia. Os reforços portugueses chegaram em agosto.

A luta continua após o Sete de Setembro

Em outubro, logo a pós a proclamação da independência (Sete de Setembro), chegou do Rio de Janeiro o primeiro reforço aos patriotas baianos, sob o comando do francês general Pedro Labatut. Era uma tropa constituída quase toda por portugueses, já que ainda não existia um exército verdadeiramente nacional.

Pedro Labatut (imagem: Blog do Crato)

O seu desembarque foi impedido em Salvador, indo aportar em Maceió, Alagoas, de onde foi, por terra até Salvador. Ocorreram as batalhas de Cabrito, Pirajá e o bloqueio marítimo de Salvador.

Finalmente em 2 de julho de 1823, Madeira de Melo derrotado, mas sem se render formalmente, embarcou com o que restava de suas tropas de volta a Portugal. Por isso essa data é considerada como a da independência da Bahia.

Homenagem ao indígena

Importante participação nas lutas teve o elemento indígena, identificado simbolicamente como o “verdadeiro brasileiro”, o dono da terra, que somara seus esforços aos demais combatentes.

Desfile do Caboclo no 2 de Julho (foto: IPAC)

A Bahia rendeu-lhe homenagens sempre ostensivas e, em 1896 foi erguido na capital baiana um monumento à independência da Bahia tendo ao alto a figura do caboclo.

Na cidade de Caetité, que todos os anos festeja o Dois de Julho com grande pompa, a figura de uma cabocla surge num dos carros, matando o “Dragão da Tirania“, que representa o colonizador português vencido.

Texto de Joelza Ester Domingues – Blog: Ensinar História. Para ler mais textos deste blog, dê um CLIQUE AQUI. O trecho sobre Maria Felipa é do portal Revista Raça. Para ler o conteúdo completo, CLIQUE AQUI.  

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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