A história do gari que virou prefeito

A trajetória fulminante de Roberto Venâncio: de gari a prefeito de Tapiramutá. (foto: PCdoB)

O fato foi notícia no Calila Notícias, no blog do Adenilton Pereira, no portal do Fram Marques e o Contraprosa vai replicar. É uma daquelas histórias de superação que podem até virar filme, mas, antes de mais nada, é um desafio para o ser humano. Trata-se da eleição de Roberto Venâncio dos Santos, prefeito eleito de Tapiramutá-BA, cidade de 17 mil habitantes do centro-norte, pelo PCdoB. Ele foi gari da cidade e agora assumirá como prefeito do município por um partido anticapitalista. A pergunta que fica é: Roberto virou prefeito para ser mais um ou para transformar uma realidade? 

 O drama fica ainda mais emocionante porque Roberto Venâncio foi achado no lixo por dona Nair Venâncio, sua mãe adotiva. Pior, a mulher que deu a ele vida e nome era portadora de diabetes e morreu num hospital em Salvador. Foi a irmã da finada Nair quem o educou até os 18 anos, quando esta também veio a falecer. Agora não dava mais para ser adotado. Tinha que tomar sua própria vida nas mãos. Passou todo o tipo de sofrimento. Chegou até a comer banana verde e dormir no chão, quando resolveu sair de Volta Grande, comunidade rural de Tapiramutá. Na cidade, conseguiu um emprego de gari, trabalhando até o ano de 2003.

Pensando em melhorar de vida, largou Tapiramutá e foi trabalhar no corte da cana e na colheita de café em Minas Gerais. Ao voltar a Tapiramutá, virou agente arrecadador no Sindicato dos Trabalhadores Rurais. A função permitiu a ele contatos com vários companheiros e, em 2010, virou presidente do mesmo sindicato. Sua trajetória política estava iniciada e, em 2012, foi eleito vereador com 267 votos. Quatro anos depois, veio a candidatura a prefeito e o sal da derrota. Ergueu a cabeça mais uma vez e seguiu a caminhada pelas comunidades, sempre em contato com o povo, fazendo o melhor que sabia: amizade. Agora, em 2020, foi eleito prefeito com 54,52% dos votos.

Roberto Venâncio chega ao cargo de prefeito de Tapiramutá com 41 anos, sempre filiado ao PCdoB, formado em História e ainda cursando Direito. Tem conhecimento e é fiel aos seus princípios. Não precisou lutar contra empresários e agiotas. Venceu pelo discurso a favor da melhoria da classe trabalhadora. A pergunta que não quer calar é se o hoje casado com Cristina Santos, pai de Henry Venâncio e Phyetro Venâncio, que superou todos os obstáculos, vai usar a conquista do poder para transformar uma realidade coletiva ou usar tal superação para ter uma vida mais confortável, manobrando as peças do jogo do poder de forma inescrupulosa? Se optar pela última ação, será apenas mais um. Aguardemos.

Tapiramutá tem cerca de 17 mil habitantes e fica na região do centro-norte baiano. (foto: Pinterest)

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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