Conto

Promoção de fé

Não havia mais o que fazer. A ordem do bispo estava posta. O desejo de ter uma paróquia só sua estava configurado, mas não esperava que fosse enviado para o sertão da Bahia. Canaã era muito distante de Salvador, na divisa com Sergipe, uma paróquia pobre e a missão era fazê-la grande, próspera. Como disse mesmo o seu superior, era preciso fazer brotar nos campos áridos da fé os frutos da pregação do catolicismo, a fim de solidificar a palavra de Deus.

Canaã recebeu o padre Heraldo numa tarde de sol de janeiro. Um calor de cozinhar ovo sem precisar tocar fogo na lenha. Uma dúzia de fiéis o esperavam na casa paroquial, localizada aos fundos da Igreja dedicada a Santa Dulce dos Pobres, em pleno centro de Canaã. O pároco desce do carro e é recebido por uma salva de palmas comandada por Germinda, a mais fervorosa católica da cidade. Verdade seja dita, Germinda fazia o papel de padre quando a vacância se efetivava. Era ela quem tomava a frente de tudo. Só não fazia aquilo que era exclusivo dos padres e bispos. Morria alguém, lá estava ela com suas orações, encomendando a alma ao Deus-Todo-Poderoso. Nascia uma criança, Germinda orava para que ela tivesse uma caminhada mais suave aqui na terra, sob as bênçãos de Nosso Senhor e benevolência de Santa Dulce dos Pobres.

Logo ao chegar, padre Heraldo descobriu que Germinda era o caminho para conquistar os corações dos católicos. Soube que ela conseguiu mudar o padroeiro da cidade. Quando Canaã existia como um simples distrito, o padroeiro era o Sagrado Coração de Jesus. A luta de Germinda foi convencer a todos que o Sagrado Coração de Jesus passasse a ser padroeiro do povoado Andorinha, quase um bairro de Canaã, e a nova cidade adotasse a nova santa. Canaã foi a primeira cidade do interior da Bahia a ter uma igreja dedicada a Santa Dulce. As vontades de Germinda foram consolidadas. Com a morte do padre anterior, o catolicismo não perdeu espaço. Germinda virou a comandante da fé em Canaã.

Assim que se ambientou do lugar, padre Heraldo foi colocando as coisas do seu jeito. Na sua primeira missa, fez ver a todos que precisava terminar a reforma da igreja matriz.

– Foram cinco anos para reformar e ampliar o nosso santuário. Com a morte do padre Romão, ficamos parados estes cinco anos no tempo. Deus me orientou que poderemos terminar a obra em um ano.

E para cumprir com a determinação, padre Heraldo triplicou o valor de batizados, casamentos e crismas. Estabeleceu taxas a missas para mortos, com corpo presente ou ausente. Estabeleceu ainda valores novos para retirada de certidões de qualquer espécie. E mais, o Dízimo seria realmente de 10% e nenhuma oferta poderia ser inferior a 20 reais.

– Não é possível consolidar uma fé com os parcos recursos que temos na paróquia. Vejo fiéis gastando fortunas em telefones celulares de última geração, mas não conseguem ofertar mais que uma nota de 2 reais aos que pavimentam o verdadeiro caminho para o Paraíso.

A pregação do padre Heraldo era forte. Uma espécie de bronca nos que tinham fé, mas não queriam botar a mão no bolso para financiar a igreja de Deus.

Mas não ficou só nisso. Um dia, foi visitar o prefeito da cidade. Depois de conversas feitas para construir uma ponte segura entre os dois, Heraldo foi direto ao ponto.

– Sei que o prefeito quer continuar no cargo. Quero transferir meu título de Alagoinhas para cá. Vou ajudá-lo naquilo que for aceitável e permitido, mas preciso também de sua ajuda. Além do seu dízimo, quero tudo aquilo que a Prefeitura possa fornecer. No dia da festa da padroeira, poderíamos começar com uma banda para animar o povo e ajudar a arrecadar donativos.

O padre pediu muito, mas o prefeito percebeu que era o que faltava para garantir sua reeleição e aceitou de bom grado, inclusive passou a frequentar as missas com toda a família e aconselhou os aliados a fazerem o mesmo.

Entretanto, o público não estava tão feliz com o padre. Além do valor cobrado no dízimo, o pároco pegou no pé dos que estavam casados no civil, mas não no religioso, e também os que apenas foram morar juntos.

– Esse amancebamento de casais é inaceitável à luz de Deus. Precisamos acabar com isso!

E a coisa se espalhou a ponto de os católicos dedicados à igreja correrem à casa paroquial para providenciar o casamento religioso. Outros, que já não eram assim tão frequentadores, resolveram não mais participar das atividades religiosas. Certo é que, no fim das contas, o saldo foi positivo para o padre Heraldo. A arrecadação foi ao topo. Oito meses depois estava a Igreja Matriz de Santa Dulce dos Pobres ampliada e reformada. Virou o cartão postal da cidade e orgulho dos canaãnenses. As missas agora lotavam o ambiente religioso. Muitos frequentavam para postar fotos nas redes sociais. A igreja passou a ser uma espécie de ponto turístico. O público católico ativo, por essa razão, praticamente dobrou.

Só que o padre era o mesmo. A parte financeira continuou como estava, mesmo após a construção da igreja. Quem imaginava que a fome de dinheiro do padre acabaria com a construção da matriz estava enganado. O pároco continuava com a mesma pregação e com a fome arrecadadora já conhecida. Começaram a questionar o comportamento do religioso nas conversas reservadas e as reclamações aumentavam.

O problema não afetou o padre porque Germinda estava ao seu lado. Para onde ele fosse, levava Germinda como se fosse sua própria vestimenta. Ele sabia que se perdesse o apoio dela estaria em maus lençóis. E não demorou muito para Germinda pedir uma solução para aquelas taxas.

– A igreja já está construída, mas o ano não está bom para os agricultores. Eles precisam de um alívio, Padre.

Heraldo não questionou. Não queria bater de frente com a devota mais prestimosa do lugar. Disse apenas que pensaria em algo. Ligou para os superiores que o alertaram:

– Você está cobrando valores muito altos para o porte da localidade. São quatro vezes mais que o município vizinho no estado de Sergipe. As queixas estão chegando aos montes.

– Monsenhor – dizia Heraldo – a passagem para o paraíso, para o céu, exige sacrifícios. Se custar algo barato acaba perdendo o valor. Vira coisa fácil e para todos. Esse povo tem dinheiro. Tem fiel que troca de carro a cada dois anos e contribui pouco para a igreja. Mas eu estou procurando uma solução.

E assim chegou o mês de abril daquele ano de eleição municipal. A disputa estava pau a pau. O candidato da oposição pregava melhor que o padre e a palavra de Deus tomava o lugar das propostas nos encontros políticos. Claramente havia uma predominância dos votos católicos para o opositor. Até mesmo Germinda se mostrava simpática ao candidato.

– Padre, ele prega versículos da bíblia nas reuniões. Seria um extraordinário sacerdote.

Heraldo ouviu aquilo e deu um estalo nas ideias. Foi procurar o prefeito.

– Sei que o senhor ainda não tem sua chapa completa. Sua atual vice não pode disputar novamente, de acordo com as regras eleitorais. Foi condenada num processo e está fora da disputa. Estou certo?

– Sim, Padre. Mas onde o senhor quer chegar?

– Tenho a solução para virar o jogo. No eleitorado católico o senhor vai levar uma surra. Mesmo que eu pregue a seu favor não será suficiente para reverter a parada. Mas tenho uma saída.

– Qual?

– Germinda.

Um silêncio tomou conta do gabinete do prefeito. Não se ouvia o zumbido de um inseto, exceto o som do aparelho de ar condicionado. Depois de meditar, o prefeito questionou.

– Mas Germinda nunca votou no nosso grupo desde a emancipação do município. Verdade que ela não se envolve na política e vive tão somente para a igreja, mas nunca escondeu votar nos meus opositores.

– Isso vai ficar ao meu encargo. Quero saber se ela será sua vice na chapa. Seria uma dupla imbatível!

Ficou então de o padre convencer a religiosa. No outro dia, véspera do fim do prazo eleitoral para filiação a partidos políticos para quem desejaria disputar mandatos, está Germinda em conversa sigilosa com o padre na casa paroquial. Heraldo detalhou a ideia e Germinda imediatamente refutou. Voltou a carga mostrando os benefícios que a candidatura traria para a igreja e para o povo católico. Germinda já não disse um não veemente. Foi mais comedida, mas ainda era um não. Foi aí que o padre lançou a proposta definitiva.

– Se você aceitar ser a vice do prefeito, eu darei um desconto de 50% em todas as taxas religiosas desta paróquia e direi ao povo que foi você que exigiu para sair candidata.

Germinda pensou mais fundo. Já passava dos cinquenta anos, mulher solteira, funcionária pública estadual da saúde, não devia nada a ninguém, professava sua fé com dedicação… O que a impedia de aceitar?

Topou.

Foi uma eleição fácil. O prefeito ganhou com mais de 500 votos de frente e ainda fez a maioria na Câmara de Vereadores. Logo após a posse dos eleitos, inclusive com missa celebrada pelo padre, quem procurava a casa paroquial via um enorme cartaz com os preços majorados. Uma religiosa procurou o padre para reclamar.

– Padre, os preços voltaram ao patamar de abril do ano passado.

– Isso mesmo, irmã – respondeu Heraldo. Ali era uma promoção. Os efeitos foram alcançados com sucesso. Agora precisamos olhar para frente. Vida que segue.

Imagem destacada: Gemini.

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