Crônica

A agonia como protagonista

Uma análise do livro do professor Marcos José sobre o curta de Lula Oliveira: Na Terra do Sol

Uma das cenas do filme Na Terra do Sol, de Lula Oliveira. (Foto: Reprodução)

Queria escrever um artigo dentro da lógica acadêmica. Bem que tentei, mas o cronista falou mais forte que o intelectual e minha missão vai regada pela simplicidade, até onde a criação permitir. Neste texto, o desafio é retratar o trabalho do livro Na Terra do Sol – Um canto agônico no cinema baiano, do meu colega Marcos José de Souza, editado pelo selo Bora Publicar, com 212 páginas, publicado em 2025.

O livro é um estudo e crítica sobre o curta Na Terra do Sol, filmado em 2005 em Canudos, na povoação de Canudos Velho, e lançado em 2006, dirigido por Lula Oliveira, com duração perto de 12 minutos. O formato é de 35mm. No elenco temos Agnaldo Lopes, Berto Filho, Carlos Petrovich, Dody Só, Pisit Mota e Rose Lima. A produção é de Adler Paz, produção executiva de Solange Lima, fotografia de Pedro Semanovischi, roteiro de Dênisson Padilha e Lula Oliveira, som direto de Nicholas Hallet, direção de arte de Henrique Dantas, montagem de Bau Carvalho, edição de som de Rodrigo Azuerta, música de Marcos Vaz e a produtora é a Docdoma Filmes.

Inspirado em Os Sertões, o filme mostra os últimos sobreviventes da Guerra de Canudos diante de um dilema extremo: morrer de sede ou arriscar atravessar as linhas inimigas para buscar água. A narrativa evidencia a agonia física e existencial dos sertanejos, transformando o episódio histórico em metáfora da resistência e da condição humana. Para quem ainda não assistiu ao filme, é só clicar AQUI.

É claro que fica fácil para sabermos hoje que os últimos sobreviventes de Canudos tinham morte certa, seja a matada ou a morrida. Mas é preciso mesmo, diante da agonia da morte, não ter ao menos a dádiva de matar a sede? É dupla agonia! E parece que reservaram tal angústia para o sertanejo: morrer matado, de fome, de sede e, se resistir, vem então a morte natural. E esta última não causa quase nenhuma agonia porque é forjada pelo destino natural das coisas.

O livro do professor Marcos é uma preciosidade para o cinema baiano. A apresentação é feita pelo historiador e mestre em cinema Onesino Elias Miranda Neto, da Universidade Federal de Sergipe. O prefácio é do professor titular do programa de pós graduação da UFS, Hamilcar Silveira Dantas Júnior. Logo após a introdução do livro, o autor inicia o 1º capítulo – Um olhar do Cinestória travessado pela Razão Poética – com uma introdução absolutamente necessária para delimitar o fazer do conteúdo e levantar os questionamentos.

Neste primeiro capítulo, Marcos José faz uma análise técnica. Além do fazer do livro, coloca o cinema como um retransmissor da realidade, abordando fatos históricos para revalorizar aquilo que se perdeu ou nunca foi percebido de fato. A função do curta analisado não é recontar a história da Guerra de Canudos, nem ser a favor disso ou daquilo, ou até ser contra x ou y. A partir das interrogações na página 28, o autor descreve didaticamente cada cena do filme, marcada numa linha temporal, recheada de detalhes técnicos e informações substanciais.

No capítulo 2, intitulado O primeiro plano e suas implicações estéticas, Marcos José opera sobre a diegese, ou seja, a narrativa, a história, o mundo fictício do curta. É o universo da ficção contido na fita, que passa pela antítese da objetividade x subjetividade. Faz um estudo detalhado das expressões faciais dos personagens e das tomadas representativas do foco da câmera. Cada frame é uma linguagem sem palavra, parte metafórica reveladora de uma agonia geral, conjunto do drama dos últimos defensores de Canudos.

Uma análise entre a cinefilia e a academia é o título do capítulo 3. Aqui o autor faz um detalhamento das cenas previamente selecionadas. Crava uma análise interpretativa de cenas e falas, mergulhando no pensar do sertanejo e nas ações do conflito trágico da Guerra de Canudos. Aqui o tom trágico e o sofrimento são acentuados em grito agônico, reverberando o absurdo da existência do conflito como algo sem explicação plausível, como um erro que só gerou morte, nada mais.

O capítulo 4 é intitulado A voz quem fez o filme. É a parte menos técnica e mais atraente da leitura, porque, apesar de o curta ser ainda o tema principal, todos os depoentes estão carregados de uma satisfação incomum de como cada um contribuiu para erguer o edifício. Apenas um dos depoentes não demonstrou orgulho com a obra, porque não a assistiu, pelo menos até a data da entrevista. Nos depoimentos, além de revelarem os bastidores da produção, os improvisos, um pouco da vida de cada um e as dificuldades de se fazer arte na Bahia, uma cena aparece repetidamente como uma agonia comum a todos: a queda da filmadora de 35 mm, durante a cena em que o menino sai correndo para levar a água colhida na cabaça e um tiro mortal interrompe a jornada, exatamente no momento da queda do corpo do ator Pisit Mota.

Na Terra do Sol é um curta dirigido por Lula Oliveira, inspirado em Os Sertões, de Euclides da Cunha, que também já foi objeto de outros trabalhos de pesquisa do professor Marcos José.  O filme revisita o episódio da Guerra de Canudos (1896–1897), quando milhares de sertanejos foram dizimados pelo Exército brasileiro, e foca somente nos quatro últimos sobreviventes, mostrando como é estar no momento do desfecho trágico e a dimensão humana da resistência, tanto para os que defendem Canudos como para os soldados que precisam matar.

Ao longo da análise, é possível perceber a relação com a agonia física: a sede, o calor e a exaustão corporal dos sobreviventes, que já não têm recursos para continuar. Também o livro nos leva a perceber a agonia existencial: o dilema entre duas formas de morrer — passivamente pela falta de água ou enfrentando ativamente o inimigo. A partir daí, vem a agonia coletiva, que simboliza a dor de um povo inteiro, os sertanejos de Canudos, esmagados pela lógica do poder e da violência estatal.

Após a leitura do livro, é quase que uma obrigação ver o filme novamente. E aí é possível perceber que Na Terra do Sol mostra que a agonia não é apenas individual, mas também histórica e política, e que a luta desigual revela a pequenez humana diante da terra e da natureza. A obra sugere que a guerra e a destruição de Canudos são reflexos da agonia social de um país marcado por desigualdade, exploração e violência.

Graças ao professor Marcos José, agora é possível entender por que o filme de Lula Oliveira transforma a agonia em tema central, não como mero sofrimento físico, mas como metáfora da condição humana diante da guerra, da sede e da morte inevitável. É uma obra que conecta o drama íntimo dos sertanejos à tragédia histórica de Canudos, fazendo da agonia um elo entre corpo, história e memória coletiva. Além disso, revela a agonia de se fazer cinema na Bahia, mesmo com a satisfação de transformar um tombo numa cena impecável.

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