Crônica

Cabo Verde não é mais do mesmo!

Essa crônica não teria nenhum sentido se não fosse para dizer que a arrogância dos grandes tem data de validade e termina sempre quando encontra uma pessoa disposta a testar os limites daqueles que sempre são considerados bons, extraordinários, favoritos etc. Sim, a Argentina é uma seleção talentosa. Sim, Messi é um dos maiores jogadores da história do futebol mundial. Entretanto, ninguém pode se atribuir ao direito de ser superior o tempo todo, por todo o tempo.

Assisti ao jogo Argentina X Cabo Verde no Bar da Dalva, em Araguatins, no Tocantins. Sim, estou longe de casa e fui parar num bar com o nome de minha esposa. Foi puro acaso. Indicação de João Lenon, atendente do hotel Mogno, o mais antigo de Araguatins, criado pelo americano, descendente de polonês, Boleslaw Daroszewski. Estava disposto a tomar uma única cerveja para combater o cansaço. Mas veio a prorrogação e tive que tomar outra.

Cabo Verde só pegou pedreira pela frente. Espanha, Uruguai, Argentina… Parecia provocação ou aquele velho dito: os pequenos existem para fazer os grandes continuarem a triunfar. Não foi o que aconteceu. A primeira participação na Copa do Mundo consagrou a seleção de Cabo Verde. Mostrou que nada supera a vontade, nem mesmo os milhões.

Vimos uma luta desigual! Só o dinheiro que Messi recebe daria para comprar todos os jogadores da seleção de Cabo Verde, numa negociação simples. O que vimos foi uma seleção de craques consagrados, ricos e poderosos, buscar no fundo de cada existência um pouco de força para vencer a vontade e a raça de uma seleção que não tinha nada a perder.

Cabo Verde foi a grande atração dessa copa. Mostrou que há vida além do dinheiro e das certezas pregadas por comentaristas e especialistas em futebol. Esquecem que o motor movedor da raça humana é a força de vontade, a raça e o desejo de encontrar um espaço de valor na sociedade.

Amanhã, todos os jornais e revistas vão consagrar Vozinha e seus companheiros, mas voltarão a cravar favoritos. Seguirão a cartilha da fama e do dinheiro. Esquecerão do tempo e de Lulu Santos. “Nada do que foi será do jeito que já foi um dia.” Vozinha entrou nesta copa aos 40 anos e mostrou que tinha talento para estar bem antes. Por que não foi descoberto? Ora, bolas! Os olhos sempre estão voltados para a folha de pagamento e para as menções na mídia.

A fama é bolada fácil. Basta seguir o que está na onda. Sim, mas cadê Neymar?

Vozinha e seus companheiros deram uma surra no mundo. Parem de jogar lenha na fogueira, de tocar a música mais popular. É preciso ter um olhar para o talento. Tem muito craque aguardando um olhar. E isso é na vida de um modo geral. Cabo Verde disse ao mundo que talento e garra independem do peso de uma folha de pagamento ou das opiniões daqueles que preferem chover no molhado.

Viva Cabo Verde!

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