A violência como espetáculo
Vi uma cena horrorosa ontem. Mandaram um vídeo onde dois homens brigam num bar na rua do Juá em Cícero Dantas, na Bahia, e um deles consegue quebrar uma garrafa e enfia na jugular do outro, que sangra até morrer. Várias pessoas estavam ao redor. Chegaram até a filmar a briga, mas só isso. Na mesma cidade, um homem morreu ao tentar apartar uma briga durante a Festa do Bom Conselho. Isso nos leva a perguntar: o que está acontecendo com o nosso povo?
O homem assassinado foi José Henrique dos Santos, de 34 anos. O bar fica localizado nas proximidades do Largo das Freiras, no centro de Cícero Dantas, na Bahia. O fato ocorreu por volta das 20h30 desta terça-feira (18). A confusão aconteceu dentro do estabelecimento, foi filmada, mas até agora não se sabe informações sobre o assassino.
Tudo isso é realmente perturbador. Infelizmente, episódios de violência em bares, festas e espaços públicos não são raros no Brasil. Há alguns fatores que ajudam a entender esse cenário. O primeiro deles é a cultura da violência. Em muitas regiões, conflitos cotidianos acabam sendo resolvidos pela força física. Isso se conecta a uma normalização da agressividade como forma de afirmar respeito.
É claro que a presença de álcool e drogas pesa na questão. Bares e festas são ambientes onde o consumo de álcool é alto, e isso reduz a capacidade de julgamento, aumenta impulsividade e facilita explosões de violência. Isso parece potencializar a desconfiança social. Pelo fato de ter havido alguém que morreu quando foi apartar uma briga, as imagens revelam que ninguém ajudou. Isso é uma espécie de medo generalizado. As pessoas evitam intervir porque sabem que podem se tornar vítimas.
Mas o principal é a ausência de mediação. A falta de segurança adequada em estabelecimentos e ausência de políticas de prevenção tornam esses espaços vulneráveis a conflitos fatais. Também, as pessoas vivem uma sensação de impunidade. Muitos acreditam que crimes não terão consequências sérias, o que alimenta a brutalidade.
O que está acontecendo com nosso povo é um reflexo de problemas sociais mais profundos: desigualdade, falta de educação para resolução pacífica de conflitos e uma cultura que ainda valoriza a violência como demonstração de poder. Isso não pode continuar para evitar a normalização da violência.
É verdade que há resistência aqui e ali. Há comunidades que se organizam para evitar o pior, com campanhas de conscientização e pessoas que defendem a paz mesmo em ambientes hostis. Mas o monstro do ódio ao outro parece estar devorando tudo. Até uma eleição, que deveria ser um momento de soma de esforços, virou um quase eterno nós contra eles.
Precisamos recusar a brutalidade como forma de relação social. A sociedade não pode aceitar a violência como normal. O desejo de eliminar o outro pela força física ou pelo uso de armas é típico de sociedades selvagens e desumanas. Até mesmo na Constituição do nosso país é inaceitável a eliminação da vida, mesmo de criminosos.
Imagem destacada: Dois homens brigam, um mata o outro e a violência vira espetáculo. Na imagem direita, a vítima: José Henrique dos Santos.
