Ninguém percebeu isso nos candidatos?
As eleições presidenciais de 2026 no Brasil apresentam incoerências marcantes, que não estão sendo vistas pelos eleitores, sobretudo na formação das chapas e nas alianças partidárias. O cenário é dominado por candidaturas “puro-sangue”, com presidente e vice do mesmo partido, o que contrasta com discursos de união nacional e amplia a percepção de fragmentação política.
Vamos por partes, então. A principal incoerência é que 92% das candidaturas têm presidente e vice do mesmo partido, o maior índice desde 1989. Por incrível que pareça, apenas Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSB) formam uma chapa com coligação partidária. Isso contradiz discursos de “ampliação de diálogo” e “governo de união”, já que a maioria dos candidatos optou por não buscar alianças externas, ou por não encontrar oportunidade para tanto.
Se formos citar incoerências de forma individual, perceberemos contradições entre discurso e prática política. Exemplo é Flávio Bolsonaro (PL), que lançou candidatura com discurso de “amplo apoio da direita”, mas ficou isolado, sem alianças com Republicanos, União Brasil ou MDB, que preferiram a neutralidade. Isso expõe incoerência entre a retórica de unidade e a prática de isolamento.
Por outro lado, Lula (PT), que defende renovação e inclusão, disputa sua sétima eleição presidencial, o que gera críticas sobre coerência entre discurso de renovação e prática de continuidade. Não há um nome na esquerda, com amplitude nacional, com capacidade de substituir Lula em um eventual impedimento. Parece que o endeusamento de uma figura pública é suficiente à esquerda.
Mas não é só isso. Há perfis improváveis ou desalinhados. Por exemplo, Augusto Cury (Avante), escritor e psiquiatra, apresenta candidatura com discurso de “transformação emocional da política”, mas sem base partidária sólida ou experiência administrativa, o que gera dúvidas sobre viabilidade prática. Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) defendem “gestão técnica e pragmática”, mas optaram por chapas puro-sangue, contradizendo o discurso de abertura e diálogo com outras forças.
Há ainda uma incoerência jurídica vergonhosa quando um candidato, condenado e varrido por 8 anos de disputar uma eleição, consegue registrar uma candidatura, caso de Pablo Marçal (PRTB). Para aumentar, a direita está mais fragmentada que a esquerda, com múltiplas candidaturas (Flávio Bolsonaro, Zema, Caiado, Pablo Marçal). Um deles, Caiado, disse que anistiaria Jair Bolsonaro, que está preso, mas vive a criticar o filho, Flávio Bolsonaro.
Ou seja, as maiores incoerências nas candidaturas de 2026 estão na contradição entre discurso e prática política: candidatos que pregam união, mas se isolam; líderes que falam em renovação, mas insistem em continuidade; e perfis improváveis que não se alinham com suas próprias propostas. Isso reforça a percepção de que o sistema político brasileiro segue marcado por fragmentação e desalinhamento entre narrativa e realidade.
Foto destaque: todos os candidatos, pela ordem da foto:
Augusto Cury (Avante), Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB), Flávio Bolsonaro (PL), Hertz Dias (PSTU), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Pablo Marçal (PRTB), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Rui Costa Pimenta (PCO), Samara Martins (UP) e Wilson Grassi (Democrata).
