A alta reprovação, o aluno e o dever de aprender

Há necessidade urgente de focar as atenções no ato de fazer o aluno buscar o conhecimento, ter gosto pelo saber. (foto: Revista Educação Pública)

Sei que poucos serão os leitores deste artigo, primeiro, por ser longo e, segundo, por se tratar do velho tema da educação. Mas peço um pouco de paciência e pergunto se o leitor ou leitora ouviu falar de algum tema relacionado ao assunto educação que tratou da questão da reprovação? Tenho a impressão de que este tema deixou de ser alvo das propostas de renovação da nossa escola pública, principalmente depois de contabilizados os resultados anuais. Antes das provas finais, há uma pressão para a necessidade da funcionalidade do Conselho de Classe, como se esse fosse o responsável para implementação de uma maquiagem que pudesse encobrir uma realidade que já grita e parece não encontrar ninguém que queira tentar resolver, de fato.

Desde o final do ano letivo de 2019, professores vão para as ruas, praças e assembleias gritar pela valorização do Piso Nacional, pela correção das tabelas salariais de governos estaduais e prefeituras. Vi dirigentes sindicais soltando pelas ilhargas seus gritos decorados contra a reforma do sistema previdenciário, professores nas redes sociais descendo o malho no governador, nos deputados, em ministros e em outros eleitos como carrascos dos servidores públicos. O que dizer daqueles estudantes que ocuparam a escola Odorico Tavares e soltaram os gritos de horror contra o fechamento de uma escola imensa, em pleno bairro de classe média alta de Salvador, que abrigava apenas 300 dos possíveis 3000 alunos? Os 30 ocupantes, membros de movimentos estudantis, estavam lá para impedir que o Estado da Bahia vendesse a área por mais de 50 milhões. O que são 50 milhões ante os 300 estudantes, mesmo que este dinheiro possa construir novas escolas? E o que dizer dos professores de Jeremoabo? Sem salários, sem dignidade, sem aumento, sem rumo? E os servidores de Fátima, que ainda não viram um sorriso pontual e corrigido nos seus vencimentos?

Em nenhum destes justos e necessários movimentos foi sussurrado sequer a questão do fracasso escolar da escola pública da Bahia. No geral, é possível identificar uma luta pelo direito de ter escola pública de qualidade, mas ninguém pronuncia a expressão relacionada ao dever de estudar. Estamos nos acostumando perigosamente com o grito de cobrança do nosso direito, mas estamos acomodados na não prática do dever. Não estamos fazendo a nossa parte. Exemplo claro aconteceu na minha escola. Um aluno veio fazer sua matrícula e percebi que já era o quinto ano que ele se matriculava na 1ª série. Indagado por que motivo não conseguia concluir o ano, sempre desistindo, ele disse que é porque era muito difícil. Para provocar, perguntei: e se a escola se negasse a matriculá-lo? A resposta veio na ponta da língua: “ – Vou à Justiça. É um direito meu!”.

Essa coisa de ter o direito apenas por ter, sem preocupação de como aproveitar-se adequadamente dele, virou febre na nossa sociedade. E parece que ainda não acordamos para isso. Não vimos nenhuma ação governamental focada no despertar para a necessidade de estudar. É preciso difundir a ideia de que nada cai do céu, que tudo necessita de sacrifício. Não basta frequentar a escola, respeitar o professor, cumprir as tarefas e achar que o seu certificado resolve tudo. Estamos numa sociedade capitalista, exploradora das nossas capacidades. Há uma disputa lá fora onde só os bons vão ter um lugar ao sol. É preciso entender que há duas camadas sociais que dependem dos que trabalham e lutam: os exploradores e os miseráveis. Os primeiros são poucos, mas são insaciáveis. Na outra ponta estão os que nada têm e que se contentam com pouco, mas são inúmeros. No meio estamos nós, que trabalhamos, pagamos impostos, sustentando as duas camadas de exploradores e miseráveis. Para levar tal fardo, é preciso inteligência, conhecimento e habilidade. A escola é o primeiro caminho para tal.

Como teremos uma classe produtora, de inteligência ampla, com a escola que temos? Quem vai descobrir a vacina para combater o Coronavírus? São os miseráveis, que se contentam com o seu benefício social? São os ricaços em seus iates singrando mares? Não! São os cientistas, os que perderam noites em desabalada busca pelo conhecimento. São eles que vão ajudar a manter todos nós vivos por mais alguns anos. Precisamos de escolas de qualidade para formar mais cientistas! Do jeito que a coisa anda, a escola não está formando pessoas necessárias a sustentar o mundo que está ao nosso derredor. Como conseguiremos essa façanha colocando um aluno no ensino médio sem saber fazer uma conta de dividir de um só número? Só conseguiremos aumentar o percentual de prováveis futuros miseráveis. E eles serão um dia tantos, mas tantos, que poderemos regredir ao tempo da velha luta entre o estômago e a pólvora.

Para não ficar nas palavras, vou aqui, sem citar o nome da escola, revelar o que resume a tragédia da educação no nosso país. Os dados são de uma escola pública do ano de 2019. A matrícula inicial no ensino médio foi de 708 alunos. No primeiro mês de aula, um levantamento mostrou que 123 simplesmente não compareceram na escola desde o primeiro dia de aula e não confirmaram a matrícula. Ao longo do ano, 140 abandonaram ou evadiram. No mesmo ano, 10 alunos pediram transferência. Ficaram, até o fim, bravos 435 alunos. Destes, 278 foram aprovados e 157 foram reprovados, num total de 36.09% de taxa de reprovação. Mas essa taxa foi apenas de 17.60% no 3º ano. No 1º ano, a taxa de reprovação chegou a estratosféricos 43.56%. No 2º ano também foi alta: 43.53%. O desempenho no Enem foi também sofrível: apenas três alunos passaram da casa dos 600 pontos, dentre os 125 que concluíram a etapa.

Esta mesma escola vem recebendo investimentos do governo do estado, inclusive com melhorias significativas na sua estrutura, e empossou novos professores concursados e coordenador pedagógico. O Conselho de Classe é atuante e há constante realização de reuniões com presença dos pais. Mesmo assim, não foi possível convencer uma boa parte dos alunos a transformar a busca do conhecimento num desafio. Há casos de professores que relatam estabelecer ponto extra para uma dada pesquisa simples e apenas dois ou três alunos se interessarem pela tarefa. É como se não houvesse mais esperança na educação como um norte transformador de uma sociedade. Acostumaram-se apenas no olhar para o que é de direito. O ônibus tem que passar na porta, a merenda tem que ter, o professor tem que ensinar, o livro tem que dispor. Dever? Nem de casa!

A primeira semana de fevereiro será dedicada à Jornada Pedagógica. Está na hora de mudar o foco. Todas estas teorias pedagógicas, que muitos insistem em difundir, não estão dando resultados! É hora de focar numa forma de fazer com que o aluno se interesse pelo estudo, pela pesquisa, pela busca do conhecimento. Não faltam ferramentas e ideias, falta vontade da busca! É hora de governo, professores, movimentos estudantis, sindicatos, pais e a sociedade como um todo adotarem esta causa. O aluno, por si só, jamais perceberá que se perdeu no labirinto. Por ter tantos direitos e tantas facilidades de aprender, está absorto sem saber que caminho seguir.  

                                                                                                      Landisvalth Lima

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

Deixe uma resposta