A educação resiste! Mas até quando?

Até quando nossa educação resistirá?

Entra governo e sai governo, o discurso é repetido que a educação é solução para melhorar nosso desenvolvimento tupiniquim, mas o que se vê constantemente são golpes diários desferidos no seio da nossa já combalida educação. Apesar de tudo, ela resiste bravamente, até chegar o dia em que será impossível fazer qualquer coisa para reanimá-la.

Infelizmente, não se pode dizer que há algo animador no estágio em que se encontra nossa educação. Existem muitos teóricos por aí reclamando. Ficamos o tempo todo discutindo o que é certo ou errado. Daí, o tempo passa, a discussão nunca termina e nos afundamos ainda mais na areia movediça da falta de atitude. Para dar um ar mais dramático ao debate infindável, aqui e ali aparecem os partidários ditos de direita ou esquerda. Com ideias estapafúrdias, utópicas, densamente povoadas de egocentrismo militante, os oradores inúteis dão sua contribuição para afundar o nosso já agonizante sistema educacional.

Alguém precisa acordar para o fato de que há 7,9 milhões de matrículas no ensino médio atualmente no país e temos 80 milhões de brasileiros, a partir de 15 anos, que não possuem o ensino médio completo. Dentre eles há os que não possuem sequer o fundamental completo. Isso é uma catástrofe para um país que quer liderar a América Latina e estar entre as cinco principais economias do mundo.  Temos apenas 68% dos brasileiros entre 15 e 17 anos, faixa etária do ensino médio, que estão na escola. Há outros números assustadores: 52,4% das matrículas da Educação de Jovens e Adultos – EJA – são alunos na faixa dos 15 aos 24 anos. Os números são desestimulantes e só representam a ponta do iceberg educacional.

Os alunos que abandonam o ensino médio descobriram o caminho mais fácil: A prova do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja). Interessado em diminuir a fila longa da aprovação, o governo lança mão de uma prova que beira o ridículo de tão fácil. O aluno só precisa do básico elementar, muito distante da complexidade de um curso completo do ensino médio. Mesmo assim, o número de aprovados é bem menor que o de reprovados. A ideia é abandonar a oferta de três anos das redes e escolas – até mesmo das privadas, fazer EJA, a prova do Encceja ou outros programas semelhantes, para ter o certificado do ensino médio em um ano, um ano e meio no máximo.

O governo se transformou num fornecedor de diplomas e certificados. Os adolescentes, os jovens ou adultos não reconhecem o custo-benefício educacional do ensino médio. Desmotivados, sem perspectivas de grandes conquistas, pregam a necessidade do imediatismo, como se fosse possível estudar em um ano todo conteúdo, por exemplo, de Língua Portuguesa. É um discurso falho que só contribui para afundar os nossos índices já negativos. Pior é saber que muitos desses alunos contam com a concordância dos pais. Não é raro encontrar muitos deles ostentando o título de universitário, mesmo sem saber o básico da média-aprendizagem.

Não seria exagero dizer que sofremos uma epidemia de ignorância no ensino público. Tal epidemia recebeu a generosa contribuição de muitos. Quem não se lembra de professores pregando na universidade o fim do ensino da gramática. Os adjetivos eram os mais generosos possíveis para aqueles que continuavam a fazer análise sintática e morfológica em sala de aula: conservadores, jurássicos, inibidores da capacidade criativa dos alunos e outros. Depois vieram os “ismos” e embarcaram em várias modas. Veio também a “Pedagogia do amor”. Depois condenaram o currículo e a necessidade de se mudar tudo! Havia até uma corrente que pregava insistentemente a necessidade de não se corrigir os erros dos alunos porque isso poderia constrangê-los, incapacitá-los a pensar e bloquear seus instintos criativos. Foi um festival de besteiras que assolou a nossa educação!

Não foram apenas estes equívocos os responsáveis pela nossa desgraça educacional. O Ministério da Educação e as Secretarias Estaduais de Educação também tiveram suas atitudes de porralouquices. Esta coisa de o ensino médio só servir para entrar numa faculdade foi uma delas. Ainda bem que está retornando o ensino técnico. Felizmente hoje se sabe que é possível formar bons profissionais nesta fase. Quem não se lembra do bom e velho 2º grau, formador de bons professores do ensino primário e de técnicos em contabilidade?  Este novo Ensino Médio vai devolver importância ao ensino técnico, consolidar as escolas em tempo integral, flexibilizar a mobilidade na distribuição e divisão das disciplinas tradicionais pelos três anos. Não é nada extraordinário, mas é um avanço enorme. O problema é que até isso corre perigo. Com aquele ministro da educação, que felizmente já foi demitido, não iríamos para lugar algum. Ele queria combater a ideologia na educação com outra ideologia. E o nosso problema jamais foi ideológico: é de gestão!

Como a coisa é problemática e enorme, não dá para expor todas as causas que nos levaram a este patamar perigoso. Duas delas, entretanto, estão bem visíveis: a falta de compromisso da classe dos professores e o desinteresse do aluno no processo de aprendizagem. Uma boa parte dos profissionais de educação perde muito tempo com questões que não ajudam a sairmos do lugar. Fazer constantes paralisações com o suposto propósito de lutar por uma previdência social mais justa, ficando na verdade em casa, quando deveria estar em sala até mesmo debatendo a questão, não ajuda em nada. Sindicatos da categoria deixaram de lado a bandeira pela boa educação e usam a classe para fins politiqueiros. Por outro lado, o aluno deixou de ir para a escola em busca do conhecimento. Virou obrigação, exercício social, diversão. Há muito tempo os alunos não veem a escola como uma academia de conhecimento.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

Deixe uma resposta