A eleição, os candidatos, a ambição e a colheita

Ambição sem planejamento é querer safra sem se plantar (imagem: Partner Consulting)

Foi um escocês, mestre do Liberalismo, Adam Smith (1723-1790), quem afirmou ser a ambição universal dos homens algo que vive colhendo o que não se plantou. Uso o mestre escritor de A Riqueza das Nações para me reportar ao mundo político heliopolitano da atualidade, que não é ainda muito diferente desde quando se afastou de sua mãe Ribeira do Amparo. Aqui, e em vários lugares Brasil a fora, querem atingir objetivos sem que tenham pavimentado a estrada para chegar a tal fim. Minha análise nestas letras está longe de ser passional, por mais que alguns, por teimosia, não queiram enxergar.

Comecemos pelos nomes postos que disputam a cadeira de prefeito de Heliópolis. O que fizeram José Mendonça e Thiago Andrade para justificar vencer a próxima eleição? Thiago nunca exerceu cargo público algum, é professor, oficial de justiça e não se sabe, até aqui, seu nome envolvido em atos que denigram sua imagem. E Mendonça? Vereador por vários mandatos, secretário de saúde, presidente da Câmara Municipal de Heliópolis e perdeu a última eleição por menos de 200 votos para o prefeito Ildinho que, segundo o próprio Mendonça, jamais seria reeleito porque o povo de Heliópolis não gostava da reeleição. Sem querer aprofundar a questão, até porque não é o tema central deste artigo, qual a grande obra, o mérito, o êxito político do candidato do PL? Se Thiago Andrade não tem nada do passado que possa comprometer seu futuro, Mendonça tem um passado que coloca em dúvida sua atuação futura de gestor.

Claro que a decisão final é do povo, mas o candidato tem que contribuir com sua luta, sua história, seu pensar. Isso facilita uma escolha melhor. O diabo é quando você precisa escolher entre dois bons ou dois ruins! Eu sei que há outros fatores que influenciam. Não fosse assim, Sorria não estava eleito prefeito em Fátima. Mas o que quero aqui é chamar a atenção para o planejamento de uma eleição. E vou aqui centrar na chapa de vereadores mais uma vez. Se tratarei mais dos nomes de um lado, é porque é aquele que apresenta mais problemas. A chapa de vereadores ligada ao candidato Thiago Andrade está organizada e unida. Não quer dizer que não tenha problema, mas é o usual, que não afeta o processo como um todo. Se a chapa fizer a histórica quantidade de seis cadeiras, não causará surpresa porque a oposição comete erros e erros feios!

Peço perdão ao vereador Claudivan Alves, mas cair na lábia de Zé do Sertão, filiando-se ao MDB, foi uma ratada pior que a armadilha em que caiu o grupo do prefeito com a efetivação de José Emídio como vice-prefeito da chapa na última eleição (E ainda tem gente que defende até hoje). Claudivan está cercado de pessoas com alta quilometragem política: Fátima Nunes, Gaminha, Zé Mário, Daniel Almeida e o próprio Mendonça. Cometeram o mesmo erro de centrar as decisões num grupelho familiar, herança política desgraçada que não deixa a história de Heliópolis, sem sentar com apoiadores, comunidade, partidos e tomar decisões coletivas. Quando as decisões são do grupo e há erro, o barco afunda com todos; quando as decisões são centralizadas e há erro, o barco também afunda com todos, inclusive com os inocentes úteis.

Uma chapa com Claudivan, Naudinha, Professor Rocke e Nilda Santana (se resolver) é perigosíssima sem a efetivação de Zé do Sertão na vice de Mendonça. O vice lutaria pela esposa, o professor veria uma possibilidade concreta de ser o segundo nome e Nilda Santana teria o povoado Tijuco para, se desejar, colocá-la na câmara. Aí sim haveria possibilidades concretas de dois nomes eleitos. Mas levaram Zé do Sertão, que já é vice-prefeito, e ficam num dilema idiota procurando um nome para a chapa com Mendonça. É de um amadorismo tão terrível que, ainda esta semana, mandaram mensagem para Ana Dalva pedindo, quase de forma desesperadora, que ela aceitasse ser a vice do candidato do PL, e ainda soltaram a mentira aos quatro cantos divulgando a nova chapa. Nem Ana Dalva quer, nem poderia, mesmo que quisesse. Isso só revela falta de planejamento e desespero.

  Então, se tudo der errado, não há saída? Sempre há. Exemplo: quem não tem Claudivan caça com Raul de Ioiô. Certo? Pode ser, mas nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Digo isso porque o grande sonho do filho de seu Ioiô pode ser adiado mais uma vez. De novo, por causa da falta de planejamento coletivo. Raul só tinha uma pedra no meio do seu caminho: Dé Correia. Para isso, teria que providenciar votos em outras localidades, já que os dois, do povoado Cajazeiras, dividem votos que só elegem um. A votação que Raul obteve na eleição para conselheiro tutelar foi o combustível perfeito para cacifar sua carreira ao Legislativo Municipal. Com a possibilidade do desmanche da coligação do MDB, caso Zé do Sertão não seja o vice, uma estrada belíssima se abre à frente de Raul. Era só acelerar e chegar no tempo certo. Só que agora tem uma pedreira no meio do caminho: Elza de Waltinho. Raul e Elza dividem a mesma região. Se antes só dava para um, agora imaginem três. Para piorar, o núcleo familiar dos Mendonça/Rosário/Dantas precisa de um nome para continuarem vivos na política. Se quisessem Raul já o teriam feito. Entenderam?

Por fim, não sou marqueteiro da oposição, visionário ou conselheiro político. Apenas comento o que vejo. Como a política é dinâmica, pode ser que nada disse se confirme. Ocorre que é preciso ouvir o que se diz, ler o que se escreve e estudar os sinais. Quem não planeja colhe resultados diversos daquilo que desejou. Não basta ter ambição para colher aquilo que não plantou. É preciso plantar milho para colher milho. Também não adianta ficar desqualificando os críticos, como faz o vice-prefeito em sua rádio nunca comunitária. Fazer política só ouvindo puxa-sacos é um perigo. O opositor, muitas vezes, com sua crítica, ou o apoiador crítico, podem ser o adubo da semente que se plantou, se de fato foi plantada. Caso o projeto tenha sido pautado apenas no desejo ambicioso de se chegar a algum lugar, não se colhe a safra da semente não plantada.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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