A hora certa do adeus ou o nascimento da Fênix

O impasse no MDB pode colocar Zé do Sertão no ostracismo e Nilda Santana no estrelato (montagem: Contraprosa)

Um jogador de futebol, quando atinge idade a partir dos 36 anos, começa a pensar em parar. Se ele tem uma carreira repleta de títulos e, se por um milagre, sorte ou competência, conquista mais um, se for inteligente, pensará em parar. Interromper uma carreira no auge é deixar as pessoas com saudade. A vida inteira vão lembrar dos seus títulos e, normalmente, será sempre requisitado para comentar em emissoras, fazer palestras, abrir campeonatos ou dirigir times de futebol nos vários campeonatos por aí a fora. O político pode ter uma carreira mais longa que a de um jogador de futebol, mas também deve saber a hora exata de parar, permitindo vislumbrarem sua história com o que fez de bom e útil para o seu povo. O vice-prefeito Zé do Sertão não aprendeu ainda esta lição.

Se olharmos para o Zé do Sertão dos primeiros tempos, fica difícil imaginar o que hoje se vê. O homem que praticamente criou a escola pública do município, deu visibilidade à cidade com o São Pedro e foi, até aqui, o único a representar o município na Assembleia Legislativa, marcou a história da cidade. Se no passado, os benefícios feitos escondiam os defeitos de uma política clientelista e centralizadora, hoje é o vice-prefeito a encarnação mais real da política oportunista. Zé do Sertão se agarra a uma réstia de nome para se equilibrar e tentar sobreviver na política do pântano, da lama e da inércia. Poderia ter encerrado sua carreira no alto, quando se aproveitou dos atrasos de salário do ex-prefeito Aroaldo Barbosa e da falta de visão de Gama Neves. Sua eleição em 2004 foi uma espécie de última chance dada pelo eleitorado de Heliópolis. Ele devolveu a generosidade com uma péssima administração, temperada com fidalguia e ostentação. Perdeu em 2008 e entregou a prefeitura e um malversador. Entregou o galinheiro a uma raposa, e que me perdoem as raposas.

Ali terminava a história de um homem que foi amado e venerado pelo seu povo, mas que, movido pelo centralismo, pelo egocentrismo e outros ismos cheios de males, não soube devolver o que recebeu nem mesmo na mesma moeda. Na verdade, seu povo merecia o dobro. Não fosse as denúncias de Ana Dalva, a chegada de Ildinho, a disposição de Gama Neves, somados a um considerável número de homens e mulheres, crentes na possibilidade de um recomeço, Heliópolis hoje seria manchete constante nas páginas policiais, com presença quase rotineira da Polícia Federal. Depois de uma malograda campanha para vereador, onde seria o mais votado e, de fato, amargou uma primeira suplência, Zé do Sertão ocupa o legislativo municipal com a vaga deixada pela vereadora Ana Dalva, que foi convocada por Ildinho para a secretaria municipal de saúde.

Da Câmara de vereadores, articulou sua chegada à vice prefeitura, contando com o auxílio luxuoso dos vereadores Clóvis de Augusto e Valdelício de Gabriel. O encurralamento dos dois vereadores no seu partido, o PROS, colocou a faca na garganta do prefeito. Ou ele era o vice ou Ildinho perderia a eleição e dois vereadores. Zé do Sertão não pediu, não conquistou e ninguém lhe deu a vice. Ele a tomou de assalto. Além disso, perguntem ao prefeito atual o que é ter um companheiro de chapa como Zé do Sertão, principalmente quando ele deseja realizar a proeza de eleger sua filha vereadora. Ildinho ganhou a reeleição, mas pagou um preço muito alto, mesmo tendo uma administração inicial considerada muito boa.

Nesta manhã, da sua rádio nunca comunitária, mostrou que malandro demais se atrapalha. Encontrou pela frente Nilda Santana, que é presidente do MDB até dia 27 de junho. Sexta-feira Nilda chegará a Heliópolis e, caso esteja com a nova Comissão Provisória do partido debaixo do braço, será a pedra no sapato que Zé do Sertão nunca encontrou no grupo que ele próprio criou. Há uma torcida silenciosa a favor de Nilda Santana. Não importa aqui se o que Nilda faça seja certo ou errado. É verdade que a ação dela pode tirar o mandato de um vereador que presta um ótimo serviço ao seu povo, que é Claudivan Alves. Será sacrificado. Entretanto, qual o benefício que Heliópolis perderá se Zé do Sertão não for o vice de Mendonça? Melhor perguntando, qual o benefício que Heliópolis recebeu com Zé do Sertão como vice-prefeito? É apenas mais um estorvo para o município.

Não adianta o atual vice de Ildinho espernear em sua rádio. Ele encontrou uma mulher que bateu na mesa e disse o que ele fez muitas vezes: “Quem manda aqui sou eu!”. Se Nilda confirmar o seu controle sobre o MDB poderá ser a vice de Mendonça, talvez salvará Claudivan, colocará Zé do Sertão no ostracismo por pelo menos quatro anos e, sem querer, dará uma imensa ajuda a Thiago Andrade. Se aceitar Zé do Sertão para ser o vice de Mendonça também, sem querer, ajudará o candidato do PSD. Além de ser um estorvo para o município, Zé do Sertão é também um entrave para a oposição. Não sabemos qual será o resultado da eleição, mas Thiago Andrade será o mais beneficiado.

Por fim, de tanto não fazer nada na vida a não ser pensar em se dar bem na política, Zé do Sertão se enrolou e levou consigo Rocke professor e Claudivan Alves. De quebra, fez renascer das cinzas a Fênix Nilda Santana. Será ela a responsável pelo fim melancólico do nome Zé do Sertão. Ninguém se lembrará das boas práticas políticas do passado, mas da derrocada destes últimos capítulos. Mesmo que consiga ser o vice da chapa, continuará um estorvo, sem crédito e sempre visto como uma ameaça. Será isolado, esquecido, porque a política dá e a política tira. Por perder a humildade, se achando o centro da vontade popular, perdeu também o senso e se enrolou no seu próprio emaranhado. Está sendo encurralado, não por aqueles que sempre o ajudaram e receberam dele o desprezo e a arrogância, mas por uma mulher que, sem querer, hoje tem o vice na palma da mão.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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