A mentira que mata no Brasil, Kobani ou em Chernobyl

Stellan Skarsgard, Emily Watson e Jared Harris nos papeis principais de Chernobyl, série da HBO.

Resolvi passar o domingo lendo um livro da escritora britânica Jane Mitchell – Uma Travessia Perigosa. A narrativa é baseada em fatos reais e conta a fuga de uma família da cidade curda de Kobani, na Síria, atormentada pela guerra que parece não ter fim. Kobani chegou a ter 400 mil habitantes. Hoje, não chega a 40 mil sobreviventes. A tragédia da Síria me fez pensar numa palavra: Mentira. Da leitura do livro fui à HBO e findei a série Chernobyl. Os cinco capítulos de cerca de 1 hora revelam a face mais cruel do governo da URSS, a antiga União Soviética. Se ação política não é instintiva, se nós nos baseamos no outro ou importamos ideias, nossos políticos aprenderam com os camaradas de lá que governar é, acima de tudo, mentir.

Exatamente em 26 de abril de 1986, na Ucrânia, uma explosão seguida de um incêndio na Usina Nuclear de Chernobyl dizima imediatamente dezenas de pessoas e vira o maior desastre nuclear da história. Ao longo de anos, milhares de pessoas morreram como consequência do incidente. Uns falam em mais de 90 mil pessoas e, até hoje, os registros governamentais insistem em apenas 31 vítimas.  Na minissérie, o cientista Valery Legasov (Jared Harris), a física Ulana Khomyuk (Emily Watson) e o vice-presidente do Conselho de Ministros Boris Shcherbina (Stellan Skarsgård) tentam descobrir as causas do acidente. Os três intérpretes são impecáveis e conseguem nos levar ao cerne da questão: a essência dos governos é a mentira, mesmo que ela cause a morte.

Não por acaso, Chernobyl está sendo a mais bem avaliada série da nossa história. Extraordinariamente bem escrita, soa como a própria revitalização da verdade sobre o desastre nuclear e bate firme na mentira, usada pela URSS como escudo de defesa do estado. Está lá dito que “a verdade não se importa com o que queremos. Não se importa com os nossos governos, ideologias, religiões. Ela ficará à espera para sempre.”. A esquerda brasileira precisa ouvir isso. Sei que podem não entender, e se entenderem repetirão mil vezes que o problema é da direita. E a direita? Fará o mesmo invertendo os fatos. Os políticos brasileiros, com raras e honrosas exceções, estudaram na cartilha da KGB.

Certa feita, fui a um encontro de uma ala esquerdista do PT. Lá tocaram o hino da IV Internacional, de referencial trotskista, uma continuidade direta da esquerda socialista que existia antes da I Guerra Mundial, e da esquerda comunista democrática que existiu depois. Não tocaram o Hino Nacional Brasileiro. Hoje entendo o porquê. A ideologia está acima dos países. Está acima de todos. E é preciso mentir o tempo todo para manter acesa a chama da crença. É uma religião que nos faz arma contra o contra. Acreditar, por exemplo, que armando a todos teremos paz, é como acreditar que um homem que defende isso seja capaz de governar um povo. E Chernobyl nos ajuda a provar que “cada mentira que dissemos incorre uma dívida à verdade. Mais cedo ou mais tarde, essa dívida é paga.” A União Soviética pagou caro e nós pagaremos também.

Então, o que falta para vencer a mentira? A resposta está na minissérie: “Já temi o preço da verdade, mas agora apenas pergunto, qual é o preço das mentiras?”. Não precisa ir muito longe, Chernobyl responde: “Qual é o preço da mentira? Não é que podemos confundi-la com a verdade. O perigo real é que se ouvirmos mentiras o bastante não reconheceremos mais a verdade.”. Não consigo separar tal frase do comportamento de Lula e dos que acreditam no que ele diz. Esta campanha do Intercept contra Moro, e nitidamente a favor de um preso, julgado e condenado por ene juízes, não é a difusão da verdade. Esta é a única que não interessa porque há seguidores que acreditam no contrário. A verdade passa a ser uma ofensa. E Chernobyl, como se conhecesse a verdade da nossa falsa esquerda, diz que “quando a verdade ofende, mentimos até não nos lembrarmos mais dela. Mas ela continua lá.”. Fantástico!

A Siria está destruída pela busca do poder. Todos os lados mentem e os mais fracos, iludidos pelas mentiras se agridem, matam-se, eliminam-se. Outros tantos acordam e se arriscam numa travessia insana em busca de um outro mundo. E os homens bons? São tantos, embora minoria, por que não gritam, não fazem de suas vozes denúncia contra a mentira? Chenorbyl também tem a resposta: “Conheci homens corajosos que tiveram a oportunidade e não fizeram nada, porque quando é a sua vida e a vida dos que ama, a sua convicção moral não significa nada. Abandone-a.” Talvez alguns poucos queiram falar, mas estão ainda iludidos ou temerosos. Já há muitos que tentam fugir do Brasil.

Hoje, Chernobyl, Prypyat e lugarejos ao seu redor, que poderiam ser o lar de 300 mil pessoas, agora não passam de cidades fantasmas contaminadas pela radiação da explosão de 33 anos atrás. A Mentira está lá na narrativa e foi criada pelo estado soviético. Hoje, o Brasil sofre também com inverdades. Para não dizer que não citei algumas, a ideia da preservação ambiental como uma falácia, do estado como infalível pagador de direitos e privilégios, da salvação da escola pública com a simples modificação do currículo, da solução de todos os nossos problemas acreditando nos nossos políticos de esquerda ou de direita, de tomar aquele banho no Jorro ou Jorrinho jurando que tiraremos toda urucubaca do corpo, só para ficar em alguns. E sei que muitos acharão este artigo também uma mentira. Pode até ser ante a verdade de quem lê, mas ele não mata. E termino com essa: “É fácil confundir o que é, com o que deveria ser sobretudo quando o que é funciona a seu favor.” Chernobyl de novo? Não. É Game of Thrones!

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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