A morte de João Gama, a ostentação e a realidade

Morte ocorrida na Festa de Santos Reis de Esplanada revela a face oculta do Estado e a prática comum da ocultação da violência

As notas oficiais da Prefeitura de Esplanada só fazem referência ao lado positivo da Festa de Santos Reis (foto: Facebook)

A morte de João Santana Gama, morador do município de Heliópolis, foi aquilo que podemos considerar como estranho. Não se sabe por ter as mortes violentas transformadas em banalidade, ou se é mesmo por negligência do aparato governamental. Somente ontem, no fim da tarde, os fatos começaram a ser parcialmente esclarecidos. Inicialmente, houve a divulgação da morte como sendo no município de Acajutiba. Na verdade, o trágico evento ocorreu na tradicional Festa de Santos Reis de Esplanada, realizada no bairro Timbó. As informações não foram divulgadas porque não havia interesse dos organizadores, liderados pelo prefeito Francisco da Cruz, do PRB, de manchar com sangue festa tão tradicional. O melhor seria jogar o lixo para debaixo do tapete.

João Santana Gama: a vítima oculta da violência (foto: Facebook)

A morte de João, ocorrida no sábado (04), não impediu que a festa continuasse. A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Esplanada divulgou nota em rede social nesta segunda-feira (06), enaltecendo o evento. Diz que “o espaço ficou pequeno e a festa bastante animada. Com os shows de Samba de Mesa, Kaelzinho Ferraz, Devinho Novaes, Kiko Chicabana e Nova Geração, a folia foi até o sol raiar!”. Mais adiante: “As festividades de Santos Reis é uma comemoração tradicional em Esplanada. O evento faz referência e comemora a visita dos três reis magos: Baltazar, Melquior e Gaspar, personagens da Bíblia Sagrada, que visitaram o Menino Jesus, recém-nascido, em Israel.”.

A nota também traz a fala do prefeito. “Para o Prefeito Municipal, Francisco da Cruz, a festividade de Santos Reis é um dos eventos mais aguardados pelos munícipes e atraiu, como em todos os anos, visitantes de várias cidades da região. “O Governo Por Amor a Esplanada está contente em realizar mais um festejo de Santos Reis. Um ponto importante é que muitos comerciantes da cidade ficaram satisfeitos com os lucros obtidos nas vendas de bebidas, lanches e outros produtos comercializados no evento”. Finalizou. Sobre a morte de João Santana Gama, nenhuma linha. Uma palavra sequer. Foi tudo maravilhoso! Um sucesso!

Maria da Silva: observadora crítica (foto: Facebook)

Mas tem sempre alguém de olho. Uma leitora da nota, de nome Maria da Silva, fez um comentário que merece destaque:” Nem uma linha sobre o funcionário que morreu quando prestava serviços para a produção da festa.” Maria, natural de Acajutiba, chamou a atenção do prefeito para o fato de que a festa teve morte e brigas e que o alcaide deveria ter, no mínimo, se solidarizado com a família da vítima. E completou: “ mas como ele não votava aqui e sua família também não, não vai ter nunca uma linha escrita por vocês se desculpando pela falha na segurança do evento.”. Na mosca!

Nem mesmo a nota disponibilizada pela Polícia Militar é precisa. Os portais Acajutiba News e Esplanada News reprisaram o boletim de ocorrência com detalhes sobre a ação policial que terminou com um latrocínio e perseguição ao acusado do crime no Timbó. Segundo a nota, o capitão Vasconcelos, lotado no 3º pelotão de Esplanada, se encontrava trabalhando na cidade durante os festejos de Reis, quando solicitado por populares para agirem mediante numa movimentação criminosa próxima a igreja de Santo Antônio, no Timbó, onde um indivíduo portando arma de fogo estava fazendo diversos roubos. O capitão estava acompanhado do soldado Diego e avistaram um assaltante dando coronhada com um revólver na cabeça de uma das vitimas, identificada por Clebson Pereira Moraes. A guarnição deu voz de prisão, mas o indivíduo efetuou um disparo e saiu correndo pulando um muro de uma residência onde tentou dispensar o revólver jogando no passeio da propriedade.

Portanto, pelo relato policial, a bala que matou João Santana Gama foi disparada pelo revólver do bandido. Segue o relato dizendo que, perseguido pelos policiais, o indivíduo, posteriormente identificado como Ramon dos Santos, foi cercado e, em posse de uma pistola 6.35, reagiu a ordem dos policiais. Mas o meliante não havia jogado a arma na calçada? Onde conseguiu outra arma? Como o bandido insistiu na resistência, foi alvejado na perna esquerda, na altura da coxa. De imediato, o mesmo foi socorrido ao hospital de Esplanada, na viatura onde permaneceu internado aguardando regulação.

Na nota, finalmente, foi feita uma referência à principal vítima. Os policiais que participaram da ação informaram ainda que um homem, vítima do assaltante, foi atingido por um disparo de arma de fogo, sendo o mesmo transferido para o hospital regional Dantas Bíão, em Alagoinhas, porém, de acordo com BO, não teria resistido ao ferimento e evoluiu a óbito. Ou seja, nem mesmo o nome foi divulgado. Talvez seja mais um caso a ser esquecido, ainda que a narrativa não tenha enredo preciso. João Santana Gama será mais um personagem vítima do acaso, que estava no lugar errado, na hora errada, numa história em que seu nome sequer foi citado, vítima de uma antagonista quase eterna, a violência, e de um protagonista que vive da ostentação e não quer flertar com a realidade, o Estado.

Landisvalth Lima

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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