A Noite das garrafadas e a Igreja do Diabo

O povo parece que perdeu a paciência com a democracia (foto: Café de Ideias)

Fui buscar na Literatura uma explicação para a Noite das garrafadas, fenômeno social e político acontecido em Ribeira do Pombal. Antes de emitir conceitos, vamos a Machado de Assis. O conto é A Igreja do Diabo. A certa altura da narrativa, o coisa ruim se queixa a Nosso Senhor e diz que as pessoas falam de amor ao próximo no horário das missas, mas, ao saírem da igreja, os olhares e ações se mostram carregados de ódio, inveja, rancor e outras desgraças. Esbraveja o diabo que a raça humana é incoerente e hipócrita. Resolve então, e comunica ao Senhor, que fará uma igreja verdadeira. Lá dentro, todos odiarão a todos e, quando de lá saírem, igualmente serão odiados. Nada mais coerente e racional. A igreja foi erguida e as pregações começaram. O pau comia lá dentro e o diabo festejava sua invenção. Lá fora, o rancor e todos os outros sentimentos negativos dominavam as ruas, praças e lares. Parecia o Gabinete do Ódio do Palácio do Planalto. O tempo, senhor que cicatriza sentimentos abstratos, passou. Com ele vieram o tédio, a mesmice e o conformismo. Começaram então a sentir falta de algo diferente. As pessoas, às escondidas, começaram a praticar atos benevolentes e pediam segredo. Mas não há segredos eternos e o diabo descobriu tudo. Ficou irado e foi se queixar ao Nosso Senhor. O Divino então mostrou a ele que a marca da raça humana é a dubiedade.

Então, chegamos ao cerne da questão. Moramos numa região que outrora foi dominada pelos coronéis. Liberdade, igualdade e fraternidade sempre foram sonhos de luxo, inalcançáveis. Quem ainda não sente o cheiro da escravidão, da Guerra de Canudos, da Revolta da Chibata, da Balaiada? Nossa vida sempre sempre foi marcada pela lei do “Um manda e os outros obedecem”. Até o ministro da saúde nos fez lembrar isso a semana passada. Vivemos bem recentemente uma ditadura militar e sentimos na pele o valor da liberdade e da democracia. Gritamos por uma educação para todos, e de qualidade. Lutamos para ter atendimento de saúde em todos os rincões deste país. Passamos a eleger até diretor de escola, conselheiro tutelar. Colocaram um país inteiro ao nosso dispor. Nosso trabalho é apenas, a cada dois anos, escolher aqueles que vão administrá-lo. Parece que a democracia tão sonhada está cansando o nosso povo.

Hoje temos tudo. O carro passa na porta da casa para pegar o aluno e levar à escola, mas a maioria não quer estudar. Temos vacinação em massa e até remédio de graça e, muitas vezes, não vamos ao médico. Temos o poder de escolher os melhores governantes e exigir deles o cumprimento das leis, mas lutamos para que eles fiquem no poder, se possível, para o resto da vida, mesmo que tenham comportamento antirrepublicano. Temos ódio à injustiça, mas, se o ladrão ou assassino for do nosso agrupamento, o culpado é o juiz. Pregamos o tempo todo que se deve fazer o certo, mas se é o adversário que o pratica, ignoramos. Bradamos aos quatro cantos contra o poder financeiro que atrapalha a democracia, mas exigimos grana do candidato. Afinal, tem que ter dinheiro para vencer uma eleição, ao mesmo tempo que exigimos dele zelo com os recursos públicos. Enfim, a ciência evoluiu para que muitos possam hoje negá-la e, embora a terra seja redonda, há os pregadores negacionistas inconformados com a verdade dos fatos.

A Noite das garrafadas de Ribeira do Pombal é o retrato da fadiga democrática. Vivemos, sim, numa democracia, mas falta paciência para que ela seja plena. Como os resultados são poucos ou a evolução é sacrificante, achamos que o passado é melhor. Esta rivalidade idiota entre grupos políticos é um retrato da medievalidade soterrada dentro de nós, regada pela água da decepção com a liberdade que temos. A democracia não está errada. Nós estamos impacientes com ela exatamente porque nós não damos a ela o combustível necessário para que seja plena. O combustível é a paciência! Nada se constrói do acaso ou de soslaio. Precisamos continuar insistindo, batendo na mesma tecla e escrevendo palavras como honra, decência, bom caratismo, liberdade, igualdade, fraternidade etc. Só assim a democracia se consolidará. Se Ribeira do Pombal, cidade de formação histórica invejável, ainda está agindo assim, o que esperar de seus vizinhos? Então, que tal Ribeira do Pombal dar o exemplo?

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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