A segunda chance de Bolsonaro

Jair Bolsonaro demonstrou não gostar de pessoas (foto: Mídia News)

Qual o político que não gostaria de ter a chance de governar o seu país? E qual deles não aproveitaria tal chance para deixar sua marca histórica como legado benéfico à sociedade? Todo estadista pensaria nisso. Todos. Bolsonaro é diferente. Só numa democracia como a nossa, um capitão, com as qualidades de Bolsonaro, pode chegar à presidência da república. Seus 28 anos como deputado federal não tem nada que se aproveite para o bem do país. Seus discursos só envolvem polêmicas sem utilidades. Se elegeu num momento frágil da nossa democracia, quando a sociedade descobriu estar sendo enganada por suposta esquerda sedenta de poder e dinheiro. Com a mão de arminha apontada para gays, lésbicas, vagabundos, marginais e afins, culpou tais grupos pelas desgraças do país e colocou a esquerda como defensora desta suposta ralé social. Os discursos da esquerda e da direita reais e outros foram esquecidos. O país ficou divido entre os extremos insanos de falsos esquerdistas e falsos direitistas. Daí nasce o presidente Bolsonaro.

Era de se imaginar que este ineditismo ajudasse o país. Bolsonaro entrou com a força da mídia social, do povo aguerrido. Não entrou pela porta dos coronéis do Nordeste ou pela ajuda do Centrão. Seria um governo independente, forte, centrado na lei, sem o carimbo dos partidos. Não foi. Um ano de polêmicas. Um governo que mais se parecia com brigas de desocupados, e que me perdoem estes últimos. E olhem que foi aprovada a reforma da previdência, coisa que ninguém conseguiu com tantos avanços! Mas o governo Bolsonaro nunca chegou a ser um governo, no sentido exato da palavra. Bolsonaro nunca saiu do palanque, nunca deixou de tratar seus pupilos como aquele pai que fica brigando com o vizinho. Bolsonaro é tosco, quase medieval. Não passa seriedade, bom senso, honra. Chegamos a duvidar se ele é mentalmente normal. Alguns dizem ser ele parecido com Jânio Quadros. Perdoem-me, mas é muito inferior.

Mas, admito que é um homem de inegável sorte.

Depois de um pibinho de 1,1, após medidas impopulares na economia que prometiam um Brasil pujante, cheio de empregos, o governo Bolsonaro começara a sofrer ataques dos endinheirados, investidores, industriais e outros desejosos por grana. Precisava de um milagre para continuar com 2022 como um norte factível, provável. E o milagre chegou. Seu nome: Covid-19. Era sua segunda chance. Com os estados quebrados, Bolsonaro poderia chamar a todos e dizer uma coisa verdadeira: precisamos salvar o nosso povo. Vamos colocar a política de lado e formar uma parede de proteção contra o vírus. Lideraria o país contra uma doença que está dizimando populações inteiras e que não dá chance à teimosia. Melhor, teria infinitas possibilidades de abrandar as consequências do contágio e, no final, receber as glórias do sucesso. E se não fosse sucesso? Ficaria a história de um homem destemido, preocupado com o povo do seu país. Talvez até virasse herói.

Ontem (24.03.2020), em rede de tv, Bolsonaro destruiu sua segunda chance de virar um estadista, um presidente diferente, distante de todos os outros mortais comuns. Seguiu o discurso de um empresário, o dono da rede de restaurantes Madero, Junior Durski, que afirmou, com uma naturalidade de espantar, que o Brasil não podia parar por causa de 5 ou 7 mil mortes. Esquecem ambos que a economia já quebrou várias vezes. É possível recuperá-la sempre. As pessoas morrem e não há mais remédios. Bolsonaro mostrou-se inumano, egoísta, insano. Não pode ter mais chance alguma. Como está hoje sem vários aliados, ainda pode subir mais um degrau e se equiparar ao Jânio Quadros. Renuncie, Bolsonaro.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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