A Serrinha da minha memória nos seus 144 anos

O Coreto municipal e a Igreja Matriz de Nossa Senhora Santana, marcos dos 144 anos da história de Serrinha (foto: Diário Turismo)

A cidade e Serrinha completa hoje, dia 13 de junho, 144 anos de fundada. Foi a cidade em que nasci, na Rua da Estação, no raiar de uma manhã do dia em que renunciava à presidência da república um dos seres mais exóticos na nossa humanidade: Jânio Quadros. Da casa do futuro vereador José Felipe da Anunciação, o popular Zé de Sindé, e de minha tia Dejinha, ainda viva e lúcida, brotei para este mundo de meu Deus. Minha mãe, Dona Nita, exibia com entusiasmo o seu primeiro rebento. Meu pai, Dete de Evaristo, mais contido, começava a trilhar o caminho de chefe de família numerosa. Rogava ele pela necessidade do trabalho e da busca do pão. Minha mãe já sonhava com seu filho abarrotado de serviço por traz de um balcão do Banco do Brasil ou da Caixa Econômica Federal. Do meu pai ficou o afinco ao trabalho, mas decepcionei minha mãe: virei professor, escritor e quase jornalista.

Serrinha sempre foi levada comigo por onde quer que tenha andado. Os quatro sustentáculos da minha origem têm raízes profundas no município. Minha avó por parte de mãe, Minininha, tem origem, mesmo que distante, no fundador da cidade de Serrinha, Bernardo Teixeira da Silva. Meu avô, Arturzinho do Sapateiro, vindo do Pedrão e filho de escrava, construiu com Minininha a pequena fazenda de onde brotaram Nita, Belice, Dejinha, Deusdete, Arivaldo e Nadinho. Da parte de meu pai, meu avô, o velho Evaristo do Alto das Candeias, de origem portuguesa, da numerosa família Lima, casou-se com Aniceta, minha avó de fortes ligações com os Cariris. Daí nascem Nieta, Jaci, Coca, Dai, Bione, Dete, Dida, Chale, Pretinha e Lourinha. Minha família fez história, sem nunca ser da elite econômica ou política da cidade. Meus primos e irmãos hoje são professores, advogados, empresários, enfermeiros…Espalhados por este país afora.

Mas os nomes cravam fisionomias. Dos parentes e aderentes, aos amigos, vizinhos, colegas e outros, ficaram marcas. Da Rua Dois de Julho e adjacências: Dego, Urias, Beninha, Tó, Nego, Bile, Nelson, Vadelson, Adelson, Girlane, Lucinha, Dona Maricas, Seu Cabinho, Lomanto, Franga, Seu Hildebrando, Dona Teresa… Eram tantos e muitos começam a desaparecer da minha memória e da vida. E do Ginásio Rubem Nogueira: professora Nolay, Eloá. Os inesquecíveis Cleon Gonçalves Ferreira (tinha que dizer o nome completo, ele dizia que não era filho de p.) José Manoel e Padre Demócrito. Não posso me esquecer da minha colega mais inteligente: Salete, filha do empresário Tuíca. A memória também agora me leva ao Graciliano de Freitas e a minha primeira professora: Deusa. Vem agora os tempos da Escola Normal: o professor Félix, Waldir Cerqueira, Girlene… O TG 06-014 e o subtenente Milton, o cabo Anselmo. Também teve a Rádio Difusora de Serrinha: Nelson Lopes, Paulo Santana, Paulo Andrade e Lafaiete Coutinho. Puxa, como o tempo passa!

Também não posso me esquecer dos meus jornais, principalmente O Tabuleiro. Daí me vem os nomes de Genebaldo Queiroz e seus irmãos Gildásio e Gildardo. Bráulio Franco sempre aparece quando se fala em imprensa serrinhense. Tive o privilégio de conviver, no CSU Dalva Negreiros, com Fernando Peltier, ao lado de minha irmã Luze e do meu irmão Raimundo. Mas tinha também Murilo, Edvaldo, Mônica, Tica, verdadeiros guerreiros da permanência do teatro como arte naqueles tempos. Do Cine Marajó me vem o apreço pelos filmes e pelos grandes shows musicais. Da política me vem nomes como Mariano Santana, Plínio e Aluísio Carneiro, Ramalho da Farmácia e Zé Valdo. Fiz oposição a todos eles. A vida como repórter de rádio me levou a Ernesto Ferreira, o delegado linha dura.

E há lembranças de Serrinha que jamais posso esquecer. Lá nasceu meu filho, o segundo Landisvalth, fruto do meu casamento com Naná. Há os primos Rubem, Tide, Perolina, Iramá, Damásio, Brasília, Noel, Nete, Nara… Ah e o que dizer dos babas no campinho da rua Álvaro Augusto, das noites na Praça Rubem Nogueira, do trabalho na lanchonete de Antônio Sergipano, nas coberturas do futebol no Marianão, nas caminhadas para tomar banho no açude, nas jornadas de bicicleta até Lamarão ou até Candeal, na meia maratona de Teofilândia a Serrinha, nas inúmeras vitórias de Luís das Bicicletas, nos shows de Vicente Barreto, nas incontáveis vaquejadas de Valdete Carneiro, nas peças que montamos no Criarte, nas inúmeras notícias da cidade que redigi e mandei para Jornal da Bahia, A Tarde e Correio da Bahia, nos inúmeros programas que fiz na Difusora de Serrinha, entre eles o inesquecível Qual é a Música.

Os meus rastros em Serrinha ainda não desapareceram. O local onde vivi muito tempo, na rua Álvaro Augusto, ainda está lá sob os cuidados de minha irmã Leide. Foi nossa única casa verdadeiramente nossa. A casa da Rua Dois de Julho, que era do meu avô Evaristo, já foi há muito substituída. A fazenda Alto das Candeias ainda sobrevive nas mãos de algum herdeiro, mas o Sapateiro desapareceu. Sinto uma imensa necessidade de preservar toda essa memória, não como história. Penso manter estas memórias na literatura, uma das sete formas universais de arte. Escrevo um romance que já tem nome, formato, mas ainda carece de muitas páginas: Os Meninos da Rua Dois de Julho. Pretendo lançá-lo antes que Serrinha complete 150 anos. É ficção pura, mas quem nasceu e viveu em Serrinha, por menos tempo que seja, verá que é a alma de uma cidade que se projetará em nossa memória por tempos imemoriáveis.  

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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