Após 130 anos, a República no Brasil nunca esteve tão ameaçada

As elites podres têm medo do povo nas ruas (foto: Revista Movimento)

Primeiro é preciso admitir que evoluímos. Na nossa bandeira estão lá estampadas duas palavras. A ordem nem sempre foi estabelecida plenamente, a não ser quando atendeu aos interesses dos poderosos. Já o progresso chegou de forma lenta, calma e sorrateira, quase sempre o estado de mãos dadas com a iniciativa privada, seja à base de propina, seja à procura de artifícios para cobrir rombos dos senhores dos negócios. Agora, demos um grande passo. Estamos tentando estabelecer uma República como, de fato, Respublica. Nasceu a Lava Jato para servir a este fim. A ameaça fez unir todas as elites suspeitas, as velhas e as novas, da esquerda, da direita e do centro, contra a chamada República de Curitiba. Nessa luta, depois de cumprir uma parte considerável de sua missão, colocando na cadeia figurões da elite podre da política e do empresariado, a Lava Jato está na lona e o juiz iniciou a contagem regressiva.

Está tudo perdido? Claro que não. Já vi lutadores se erguerem quase no fim da contagem e acuarem os adversários nas cordas do ringue, vencendo a luta por pontos ou por nocaute. Sabe-se que os adversários da Lava Jato são fortíssimos e não se pode imaginar que sejam os escorregões da força tarefa, revelados com a invasão de celulares de autoridades. Seria impossível, numa operação deste tamanho, não encontrar erros. O maior adversário da operação de Curitiba é a união das elites podres. Pior, a Lava Jato chegou à elite podre do Judiciário. Até então, quando um delator queria contar uma história verdadeira, o limite estabelecido era manter o judiciário distante da questão. A linha divisória foi ultrapassada e ministros intocáveis estão com a vísceras abertas. Agora a história é outra: quem esta Lava Jato pensa que é?

Na véspera do aniversário de 130 anos da República do Brasil, o país foi abalado com a decisão do ministro Dias Toffoli de ordenar que o antigo Coaf lhe desse acesso a relatórios com dados sigilosos de cerca de 600 mil pessoas físicas e jurídicas. Tudo isso depois de impedir que todos os processos abertos, a partir de dados financeiros coletados sem ordem judicial, tramitassem. Foi também o Dias Toffoli que censurou a revista Crusoé. Estas ações dizem que o presidente do Supremo está protegendo alguém, tentando se proteger ou criando lastro para uma devassa. A derrubada da prisão após 2ª Instância, com o voto do ministro Gilmar Mendes, contrário ao que ele pregou a vida inteira, e que permitiu a soltura de Lula e vários outros condenados, já seria motivo de uma revolta sem precedentes. Está mais do que claro que ministros do STF estão levando a corte a proteger a elite suja do judiciário, como nunca antes se viu na história deste país.

Só quem está morto não percebe a união sorrateira e velada entre todos os condenados por corrupção, desde PT até PSDB, do executivo e legislativo, com alguns ministros do STF. Gilmar Mendes nem mesmo esconde a sua revolta contra a Lava Jato. Chega até a culpar a mídia pelo sucesso da operação, que na visão dele é uma usurpação. Debaixo dos nossos olhos, Lula, Dias Toffoli, os Bolsonaros, Gilmar Mendes, Alcolumbre, Ricardo Maia, e tantas outras figuras desta República mais que centenária, estão unidos para anular os processos dos condenados e evitar que outros sejam presos. O senador Alessandro Vieira, de Sergipe, sabe que uma CPI da Lava Toga vai livrar o STF dos maus ministros, colocando o dedo na ferida da Justiça. As elites sujas do país não querem questionamentos sobre aqueles que garantem, em última instância, a assinatura legal nas suas ilegalidades.

A República no Brasil virou uma disputa de eleição municipal. Só há dois lados visíveis ao grande público. Esta polarização, além de esconder boas ideias, é fácil de ser controlada. Como os dois lados estão sempre sujos, as soluções passam sempre pela salvação de ambos e a vida segue. Os homens bons seguem em silêncio. Estão preocupados em pagar contas, contando os parcos recursos de sua luta. Os seguidores, de um lado e de outro, seguem detonando os adversários nas redes sociais, cada vez mais com o baixo calão como terreno favorável. Uns chegam até a dizer que democracia é assim mesmo, e se conformam. Para os que sabem, isso é arremedo de democracia. Jamais teríamos isso num país com boa educação. Numa democracia plena, jamais teríamos condenados por corrupção liderando partidos e grupos de políticos; nunca teríamos falsos mitos na presidência; e seria inimaginável ter um advogado como Dias Toffoli, com um currículo deste, presidindo um Supremo Tribunal Federal, ou um ministro como Gilmar Mendes, depois do que sempre diz, intocável na sua cadeira.

Tudo isso funciona como pedras no meio do caminho da nossa República. Não será fácil enfrentar o que vem por aí. Imaginem corruptos soltos, com muita grana para gastar nos cafundós do Judas, num país sem educação, com 12 milhões de desempregados, desacreditado na ética, desmoralizado, injusto e indecente? Será o manda quem pode e obedece quem tem juízo. A barbárie. Por outro lado, nestes 130 anos, fomos capazes de dar a volta por cima e gritar aos quatro cantos toda vez que o absurdo se impõe. Esse é a única esperança, porque se há uma coisa de que os sujos têm medo é quando o povo vai para as ruas protestar.

Landisvalth Lima

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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