As flores e a politicalha

Landisvalth Lima

Apesar da lama, a flor sobrevive nela e semeia esperança (imagem: Facebook)

No estado de Punjab, na Índia, vivem os seguidores do siquismo. Na cidade de Amritsar está o Harmandir Sahib – o Templo de Ouro – e o mais importante templo sique, uma das visitas que farei um dia antes da minha morte. Esta religião, seguida hoje por 23 milhões de fiéis, traz um ensinamento incrível: você pode viver no meio das impurezas sem necessariamente se tornar impuro. Os pregadores desta fé dizem que é fácil perceber que uma planta tenra nasce em local fétido e tomado pela podridão. O poeta Carlos Drummond de Andrade diz no seu poema “A flor e a náusea” que uma flor nasceu na rua, e, no último verso, alardeia “É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”. Ainda, em se tratando de poeta, cabe uma citação de “Morte – Hora do delírio”, do poeta baiano Junqueira Freire: “Para nutrir-se de meu suco impuro,/Talvez me espera uma plantinha linda.”. É preciso acreditar em tudo isso para você continuar fazendo política por aqui.

Explico melhor, e vou falar do que sei. Não! Aqui não entrará a política nacional. Seria óbvia demais. Vou me ater aos menores, aos que se dizem vítimas de tudo de ruim que ocorre em Brasília, mas não são capazes de lavar a própria roupa suja. E me perdoem também não citar nomes, mas são fatos facilmente identificáveis. Um candidato a vereador ameaçou renunciar à candidatura e foi removido da ideia 48 horas depois, regado a alguns tostões. Um candidato a prefeito, financiado por um empresário rico e poderoso, vive a ligar para os candidatos a vereadores adversários e oferece dinheiro puro para manifestar apoio a ele. Começou com propostas de 100 mil e não foi ouvido. Mudou para outro personagem e ofereceu 200 mil, também não foi ouvido. Esta semana chegou ao absurdo de oferecer 500 mil a uma outra personagem, no exato momento em que cantava a música de campanha dizendo que o povo queria o liso. É um absurdo mar de lama!

Mas isso não é tudo. Alguns poucos eleitores, aproveitando a podridão, também amolam suas lâminas para tirar um pouco de sangue. Se quem deveria dar o exemplo não o faz, por que o sagrado eleitor não aproveita o momento? Um, que mora em outro estado, foi logo colocando na mesa: passagens de avião para ele, a esposa e os dois filhos, acrescidos de 2 mil reais para a estadia. E não confundam isso com aquele eleitor que está doente e vem pedir socorro aos políticos, ou que está desempregado e vem trabalhar na campanha para pegar um trocado. São coisas completamente diferentes. Tem mais. Numa cidade próxima, um vereador chamou o candidato e disse que precisava de grana. Caso não fosse atendido, “pularia” para outro lado. Assim! Sem cerimônias.

Os relatos aqui não são ficção e nem fantasias poéticas. Fazem parte de uma realidade vivida nos sertões deste Nordeste. O processo político, em várias cidades, passou a ser um grande negócio. A mercadoria é o voto, pelo menos para uma parcela da população que, embora não sendo maioria, pode decidir a peleja em vários lugares. Empresários usam o dinheiro dos lucros para investir na política e gerar mais lucros. Colocam centenas de milhares de votos em candidatos sem escrúpulos para extorquir o erário público. Roubam dinheiro da merenda escolar, do transporte de estudantes, da construção de obras e dos serviços públicos. Criam empresas fantasmas em nome de terceiros e driblam as regras para desviarem cada vez mais. Não estão nem aí para as filas nos hospitais, qualidade do ensino, esgotos a céu aberto, ruas esburacadas e salários sempre atrasados.

Mas há o outro lado. Aparentemente, por fazer estardalhaço, parece que os maus são maioria. Não são. Verdade que não temos uma sociedade perfeita. Ainda há muitos que cultuam os políticos “roubam, mas fazem” ou até aqueles que “nem fazem, mas roubam”. Não deveria mesmo nem ser cultuado o político que faz, não rouba e não deixa roubar, porque isso é uma obrigação. A este ficará reservado um espaço na história como cumpridor do dever cívico. Há também o eleitor que vota porque quer ter sua rua calçada, sua escola com qualidade, o dinheiro público bem aplicado e o progresso sempre como norte. Estes são as florezinhas que nascem da podridão da nossa política. São seguidores do siquismo, sem sequer saber onde fica o estado de Punjab ou ter um dia visto o Templo de Ouro. Vivem no meio do que existe de pior na sociedade moderna, em plena rua, no caos, na lama fétida e imunda da politicalha que enoja os seguidores de olho no futuro. Ainda assim são flores! Algumas estão murchas, flácidas, com pouco perfume, quase sem fé, mas ainda são flores! A cada dois anos, uma torrente de água democrática cai sobre suas pétalas e as florezinhas voltam a sorrir, mesmo ainda exalando o mau cheiro do solo sagrado ou vendo os urubus passeando por sobre os girassóis.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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