Bárbara de Alencar: semente republicana do Cariri – capítulo I

Depois de esperar por um bom tempo, durante todo ano de 2020, finalmente consegui três dias livres para fazer uma viagem que me tirasse várias dúvidas a respeito de duas personagens ainda parcialmente esquecidas na História do Brasil: Brígida das Virgens Pereira de Alencar e Bárbara Pereira de Alencar. A primeira foi uma matriarca donas de terras de Cabrobó ao Exu. A segunda, neta da primeira, foi a heroína da Revolução Pernambucana de 1817. Pretendo escrever mais dois romances com estas personagens como protagonistas, não para contar a histórias de suas vidas, mas para contar a nossa História.

Saí de Heliópolis numa segunda-feira, 11 de janeiro de 2021, acompanhado da minha esposa Ana Dalva. Seriam percorridos quase 1.500 quilômetros. As paradas principais seriam Cabrobó, Fazenda Caiçara – Exu, Araripe, distrito de Itaguá – Campos Sales, Crato e Juazeiro. Vamos relatar aqui toda a jornada com o intuito de completar o que iniciamos no romance Cariri Sangrento. Para ainda quem não sabe, este romance é baseado na chegada ao Brasil dos irmãos Alencar Rego e na formação do Cariri. Quem ainda não adquiriu e assim o desejar, em Exu, o ponto de venda é na fazenda Caiçara/Araripe. Aproveitar e agradecer a recepção que nos foi dada pelos descendentes da família Alencar: Marfiza Aires de Alencar, Rosimeire Aires de Alencar, Maria do Amparo Aires Alencar, Clóvis Aires de Carvalho Alencar e Clóvis Aires de Alencar Júnior (o Júnior de Clóvis).

Quem vive na Região Metropolitana do Cariri, como não há livraria em Juazeiro e nem no Crato, a nossa opção foi apelar para os pontos frequentados pelos leitores, os sebos, que ainda resistem, apesar da crise. Procurem em Juazeiro do Norte a Livraria Sebo Cultural na rua Delmiro Gouveia, nº 208, Centro. Lá estão disponíveis vários exemplares de Cariri Sangrento.

E gostaríamos de iniciar com a personagem Bárbara de Alencar, mas pelo final, para que não fiquem dúvidas sobre a importância desta mulher para a formação cultural e política deste país. O ICC – Instituto Cultural do Cariri, dirigido pelo competentíssimo Heitor Feitosa Macedo, tentou fazer a exumação do corpo de Bárbara de Alencar, prevista para ter sido realizada na quinta-feira, 25 de julho de 2019, no distrito de Itaguá, em Campos Sales, na região do Cariri cearense. O projeto foi adiado porque houve resistência de parte considerável da população do Distrito de Itaguá. Estivemos no local e fomos recebidos por Damiana Paiva, que faz parte de um projeto para revitalizar entre os jovens o nome de Bárbara Alencar. Por telefone, tivemos contato com o professor Luiz Diógenes, de Campos Sales, que coordena as atividades. Há mesmo resistência para desenterrar os restos mortais de Bárba Alencar.

Como o túmulo fica dentro da Igreja de Itaguá, precisávamos do apoio de Dona Pipia Arraes, parente distante do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes. Ela, religiosa de compromisso, já estava se preparando para rezar quando explicamos a nossa missão. Dona Pipia pediu aos santos paciência e foi abrir a igreja. Disse ao portal Contraprosa os motivos reais da recusa da exumação: “Eles iam quebrar tudo, isto depois do trabalho que deu para construir a Igreja. E sei que eles não consertariam.”. Em depoimento ao G1, Heitor Feitosa disse que a missão pretendia exumar o corpo da heroína para fazer sua reconstituição facial através de computação gráfica em 3D. O corpo não seria retirado do local.

Esta série que iniciamos poderá responder a muitos questionamentos. Por que Bárbara de Alencar foi enterrada em Itaguá, em Campos Sales, se ela morreu na fazenda Jardim, em Fronteiras, no Piauí? O que foi fazer Bárbara de Alencar no Piauí? Por que esta mulher foi tão perseguida? Por que ela decretou uma República Brasileira no Crato em 1817? Por que um dos seus filhos foi espancado até a morte e outro se tornou senador e presidente do Ceará? Bárbara foi realmente a 1ª presa política brasileira? Estas e outras questões serão respondidas nos próximos episódios de Bárbara de Alencar: semente republicana do Cariri.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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