Bolsonaro foi parido por nós

Numa democracia, os políticos são consequências dos nossos comportamentos sociais (charge: Reddit)

Não adianta achar que um fato é acaso do destino, um ponto fora da curva ou um fenômeno acidental. Tudo o que acontece numa sociedade é consequência de algo ocorrido. Nossas ações diárias são causas dos acontecimentos de amanhã. Nós somos os responsáveis pela existência de Jair Bolsonaro-presidente porque ele já foi o Jair Bolsonaro-deputado e, antes, houve um golpe militar que apoiamos. Na verdade, o atual presidente da nossa República é consequência de um conjunto de ações que, longe de acharmos inadequadas, aceita-se como um padrão de verdade.

O escritor alemão Bertolt Brecht disse um dia que a um rio que tudo arrasta, se diz que é violento. Mas ninguém chama de violentas as margens que o aprisionam. E isto nos leva ao fato de que Bolsonaro foi eleito por mais de 57 milhões de votos. Na reunião liberada pelo ministro Celso de Melo, contaram 37 palavrões proferidos. Somente Bolsonaro soltou 29. Hoje, o que se via na Internet, eram elogios ao presidente e críticas ao ex-ministro Sérgio Moro. Sim! Sabemos que são mensagens plantadas por robôs, mas há apoios de pessoas, inclusive ferrenhos evangélicos defensores da família, da moral e de Deus!

Não! Não me refiro ao fato de votar em A ou B. No calor das escolhas eleitorais, movidos por nossos instintos sociais, somos capazes de até de acreditar nos Daciolos da vida. O voto tem várias faces, desde aquele dado por vingança ao que louvamos o programa do candidato. Refiro-me ao pós-voto. O eleito se desviou das propostas, não age de acordo com a liturgia do cargo, comete desvios de finalidade, apoia atos corruptos, não cumpre a Constituição etc são motivos imperativos da retirada do nosso apoio. É uma exigência fundamental para que a democracia continue respirando, e com saúde.

Lembro-me, em 1970, quando meu pai trazia para casa um exemplar do jornal Folha de São Paulo. Morávamos no Jardim Marilene, na cidade de Diadema. Percebi que havia quadrados em branco no lugar onde deveria conter uma notícia. Indaguei a meu pai o porquê daquilo. Recebi como resposta que certamente era uma notícia censurada pelo governo. Curioso, e ainda sem entender o fato, perguntei se aquilo era bom. Meu pai, que mal estudou até o 3º ano primário, dizia que um governo que esconde do seu povo informação é porque tem culpa no cartório. Vivíamos a ditadura militar e tínhamos que engolir. Todos tinham medo e as histórias de tortura passavam de boca em boca, mas muitos apoiavam e diziam que era necessário ante o fantasma do comunismo.

Mas o que nos leva hoje a ver que 1 em cada 4 brasileiros assina embaixo o comportamento baixo, animalesco, sórdido, grotesco e criminoso de Jair Bolsonaro? A resposta está na outra margem deste rio: 1 em cada 4 brasileiros apoia, defende e até se solidariza com o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Portanto, metade do país está nesta dicotomia esquerda X direita que, antes de ser de fato uma falácia, é a geradora de inúmeras crises e consolidadora de absurdos inimagináveis numa democracia. Enquanto isso, a minoria, 1 a cada 4 brasileiros está agindo democraticamente, espantado com tudo, sonhando com o surgimento de uma candidatura salvadora em 2022, ou simplesmente em silêncio, lavando as mãos para algo que ele acha que não tem mais remédio. E, para completar a matemática, há ¼ da população brasileira que não está nem aí. Dança conforme a música ou está mais preocupado com a sobrevivência, sem atentar que sua condição de vida depende exatamente dessa política desprezada.

A corrupção desenfreada, gestada pela suposta esquerda brasileira, gerou o monstro Bolsonaro. Para completar, em período eleitoral, votamos nos deputados votados pelos nossos prefeitos e governadores. Ficamos enturmados e escolhemos figuras de comportamento duvidoso para nos representar no Congresso Nacional. Muitos deles agora estão negociando cargos com o presidente. Em troca, tentarão salvar o mandato do homem que confunde liberdade com hemorroida. E isso também poderá contribuir para que tenhamos novamente, em 2022, dois absurdos supostamente antagônicos no segundo turno. Ou seja, o monstro Jair Bolsonaro gerará, provavelmente, um outro falso esquerdista. Enquanto isso, o Centrão esperará mais uma crise para se nutrir do sangue da nação.

No conto O caso da vara, de Machado de Assis, o protagonista se depara entre cumprir a promessa de proteger sua amiga ou seguir a ordem de sua protetora de pegar uma vara para castigar a mesma amiga. Como ele não podia perder a proteção, preferiu pegar a vara. Para simplificar, “Primeiro os teus, Mateus!”. Ou seja, votamos para alimentar nosso ego ideológico, desde a raiva à busca pelo conforto no poder. Isso nos leva a assinarmos os tais “rouba, mas faz”, “rouba, mas reparte” ou o “rouba, mas quem não faz isso?” e ficamos o tempo todo brigando com amigos, parentes e aderentes para preservarmos tais monstros ou falsos mitos. Uma vez no poder, os eleitos também usam o estado para interesses pessoais e nós continuamos a defendê-los com unhas e dentes. Somos capazes de apoiar ministros chamando juízes de vagabundos, ministros pregando fins de Leis de proteção ambiental, ministras pregando prisões de prefeitos e governadores sem justificativa e presidente justificando ter acesso a inquéritos da Polícia Federal comparando com um pai que fica atrás da porta ouvindo conversas dos filhos.

Somos tão cúmplices de tudo isso, que fomos capazes de apoiar uma fala infeliz de um ex-presidente que louvou a natureza por ter criado o coronavírus. Como o próprio falante pediu desculpas pela frase idiota, o seu seguidor ainda foi capaz de compará-la com as ditas pelo atual presidente, justificando como se fosse produtos colocados numa balança para comparar os mais ou menos pesados.

Perdemos, pois, a capacidade de nos indignarmos com nossos próprios comportamentos. Numa democracia, o rio é produto de suas margens. Os políticos são aquilo que queremos deles. Enquanto não deixarmos claro por que estamos indo votar e o que queremos de quem está no poder, seremos massa de manobra. É fácil se colocar na direita ou na esquerda, mas quem é capaz de se colocar moral e eticamente como cidadão? Lutar contra vícios e egos imperativos é um grande desafio. Colocar-se acima do bloco do “eu-mesmo” é tarefa incomum. O lutar por si é ação reles, o lutar pelo todo é ação nobre. Enquanto isso não acontece, parimos a cada eleição monstros capazes de sempre nos surpreender e de nos revelar que é possível sim chegarmos ao fundo do poço e passarmos além.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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