Caém e seus laços com a França

Caem é um município baiano pertencente à microrregião de Jacobina, servido pela BA 131 que liga a cidade a BR 324/130, a BA 375 e ao município de Saúde. Sua área territorial é de 540,908 km², onde vive uma população de 10.384 pessoas, conforme o censo de 2022, o que permite uma densidade demográfica de 19,20 habitante por km². O município faz limites com Caldeirão Grande, Jacobina, Saúde e Capim Grosso e fica distante de Salvador por 344 kms. Sua população estimada pelo IBGE para o ano de 2025 foi de 10.733 pessoas.

Antes de contarmos a história de formação do município, vamos resolver o problema do significado do nome. A palavra Caém possui a mesma pronúncia da cidade de Caen, capital do departamento de Calvados, na região da Normandia, França. O nome Caém tem origem, portanto, numa cidade francesa, graças ao encantamento de um engenheiro francês com o lugar. O nome foi aportuguesado e adaptado ao sertão baiano

Mas a história de Caém está ligada às áreas que faziam parte no passado do chamado Sertão das Jacobinas, ocupadas por povos indígenas desde tempos mesmo antes da chegada dos europeus. Com a intensificação da colonização portuguesa sobre o território, a população indígena remanescente da região acabou sendo agrupada em diversas missões franciscanas, como a Missão de Nossa Senhora das Neves do Sahy – em Senhor do Bonfim – fundada em 1697, e a Missão do Bom Jesus da Glória, fundada em 1706.

Com o aldeamento dos povos indígenas, entre os séculos XVII e XIX, houve um certo despovoamento da região, agravada com a expulsão de indígenas ou morte dos mesmos por se recusarem à submissão. Começa então a despontar as propriedades latifundiárias de grandes proporções. Entretanto, este território foi ignorado pelas instituições governamentais do período colonial e do Império. No final do século XIX, ocorreu a ocupação das áreas que formariam o município de Caém com a incursão de garimpeiros que estavam em trânsito para as minas de ouro situadas em Jacobina. Esses garimpeiros trouxeram suas famílias para as margens do rio da Prata, curso d’água que foi posteriormente denominado de rio Caém, e, então, construíram o Sítio Umbuzeiro e uma capela ao lado do chamado Sítio Papagaio.

Por volta do ano de 1910, o Dr. Francisco de Sá, ministro da Viação Industrial e Obras Públicas do Brasil, sancionou a lei que criando o ramal ferroviário Bonfim-Iaçu, um marco para o sertão na época, conectando o norte ao sul da Bahia. Nessa época foi contratado para construir o trecho correspondente ao Trem da Grota, que chegava até Pindobaçu e Ladeira Grande, o engenheiro francês Henri de Broutelles. O francês ficou encantado com a incrível localização do Sítio Papagaio, aos pés da serra das Jacobinas e margeado pelo Riacho das Pedras. Quando terminou a construção da Estação Ferroviária, deu-lhe o nome de Caen, histórica cidade francesa, na Normandia, local de origem da sua esposa Marthe de Broutelles.

Após a inauguração da obra, em 1918, já com alguns casebres e tendas estabelecidas por trabalhadores e comerciantes, Henri de Broutelles decidiu morar definitivamente em Caen. Construiu sua casa defronte a estação ferroviária, o que fez Marthe de Broutelles e os filhos do casal virem de Caen/França para Caém/Brasil. Também chegaram os primeiros moradores fixos: Manoel Pereira Sobrinho e sua esposa Maria Laurinda, vindos do povoado de Catuni, Jaguarari. Nos anos seguintes, Henri de Broutelles adquiriu propriedade na serra, extraiu e exportou abundância de manganês, minério que serviu de suprimento para a vitória dos Aliados no advento da Segunda Grande Guerra, em meados da década de 1940.

Em 1963, Caém emancipou-se do município de Jacobina pela Lei 1.852, de 11 de janeiro de 1963. Como não havia uma lei anterior criando o distrito, fica esta como a que criou o distrito sede e o desmembrou de Jacobina. Quem sancionou a referida lei foi o governador Juracy Magalhães. Anos depois, o nome foi acomodado dentro da Língua Portuguesa para ter a pronúncia e grafia atuais. Vale uma curiosidade: o texto da lei chegou a denominar o novo município como Anselmo da Fonseca, mas prevaleceu o nome tradicional, já consolidado entre os moradores. A implantação oficial ocorreu em 7 de abril de 1963.

Hoje, Caém é fruto da coragem de famílias pioneiras. Cresceu com o impulso da ferrovia e, desde a conquista de sua autonomia em 1963, mantém viva sua tradição sertaneja e representa um exemplo da formação de pequenos municípios no sertão baiano. O espírito de coletividade está mais que enraizado, a luta cotidiânica no trabalho e marca registrada e a docilidade no receber dos visitantes é quase que um respiro da alma branda e tranquila de um povo harmônico e sensato.
