Cidades da Bahia têm água contaminada por agrotóxicos

Mucugê, São Félix do Coribe, Camaçari e Itapetinga são as mais críticas. Na nossa região a contaminação atinge mais de 20 municípios. Serrinha, Paripiranga e Heliópolis não aparecem na lista. A Embasa nega contaminação.

        Apesar de estudo indicando contaminação da água, Embasa nega. (foto: Jeremoabo Agora)

Reportagem publicada no Correio da Bahia, em 21 de abril, assinada pelos repórteres Alexandre Lyrio e Júlia Vigné, fez acender a lâmpada amarela sobre o consumo de água dita potável no estado da Bahia. Testes realizados pelas empresas de abastecimento de municípios brasileiros mostram que quatro cidades consomem um perigoso coquetel com 27 agrotóxicos encontrados na água utilizada pela população. Mucugê, na Chapada Diamantina, Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), Itapetinga, Centro Sul, e São Félix do Coribe, no Oeste, estão no topo de uma lista de 271 municípios baianos em que se encontrou pelo menos um agrotóxico na água que abastece as torneiras das cidades.

Obtidos em uma investigação conjunta pela ONG Repórter Brasil, da Agência Pública e da organização suíça Public Eye, os dados dizem respeito ao período entre 2014 e 2017. As informações são parte do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua) do Ministério da Saúde. O estudo detectou em 1.396 municípios no país todos os 27 pesticidas. Na nossa região estão listados Antas, Araci, Banzaê, Biritinga, Canudos, Cícero Dantas, Cipó, Crisópolis, Euclides da Cunha, Fátima, Jeremoabo, Nova Soure, Novo Triunfo, Olindina, Pedro Alexandre, Paulo Afonso, Ribeira do Amparo, Ribeira do Pombal, Rio Real, Santa Brígida, Sátiro Dias, Sítio do Quinto e Teofilândia.

A lista causa estranheza porque nela não há pelo menos três municípios: Heliópolis, Paripiranga e Serrinha. Isto porque em agosto de 2013, o então governador Jacques Wagner inaugura o sistema parte do Programa Água Para Todos, em Serrinha, para beneficiar cerca de 330 mil habitantes de sete municípios do território do sisal: Conceição do Coité, Serrinha, Biritinga, Lamarão, Teofilândia, Retirolândia e Barrocas, aumentando em 50% a oferta de água. Se o sistema é único, como só alguns estão listados? A mesma coisa ocorre em Heliópolis. A 1ª etapa do Águas do Sertão foi inaugurada em maio de 2012, também por Jacques Wagner, e é um sistema que engloba Cícero Dantas, Heliópolis, Fátima e Paripiranga. Se estão interligados e a água é tratada de uma só vez, como só Cícero Dantas e Fátima apresentam contaminação?

Dos 27 agrotóxicos encontrados pela pesquisa, segundo a reportagem,  16 são classificados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como extremamente ou altamente tóxicos e 11 estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, malformação fetal, disfunções hormonais e reprodutivas. Importante ressaltar que as quatro cidades, Mucugê, São Félix do Coribe, Camaçari e Itapetinga, atingem o número máximo de agrotóxicos,  por isso consideradas em estado crítico. Há ainda muitas outras com uma quantidade perigosa de químicos, como Macarani, também no Centro Sul, com 25 agrotóxicos, e até a própria Salvador, com 16 pesticidas. O levantamento revela ainda quais químicos estão acima dos níveis permitidos pela legislação do país e pela regulação europeia, que proíbe 21 dos 27 pesticidas encontrados na água dos brasileiros. Mas, ainda que não ultrapassem os limites legais aqui, a preocupação é de que eles juntos atuem como um coquetel nocivo à saúde.

Está dito ainda na reportagem que, na Bahia, dos quatro municípios em que foram detectados os 27 agrotóxicos, Camaçari é o único em que se detectou agrotóxicos com concentrações acima do nível permitido no Brasil. Também apenas em Camaçari a Embasa (Empresa Baiana de Água e Saneamento) trata a água. As demais têm gestão própria do abastecimento. Já dentre as 271 cidades com pesticidas a Embasa gerencia a maior parte do fornecimento de água, como, por exemplo, em Salvador.

Em nota, a Embasa informou que as análises realizadas semestralmente pela empresa no período entre 2014/2018 apresentaram valores que demonstram a inexistência de substâncias presentes em agrotóxicos. “Isso significa que os parâmetros de potabilidade da água distribuída pela empresa estão de acordo com as determinações da Portaria de Consolidação nº 05, anexo XX, de 2017, do Ministério da Saúde”, diz a nota.

O texto do Correio da Bahia chama ainda atenção para o que diz o bioquímico Luciano Costa. Ele afirma que a presença dos agrotóxicos na água acima do nível permitido pelo Ministério da Saúde pode provocar diversas doenças. “Funciona como o efeito radioativo, ele vai acumulando no organismo. Ou seja, você pode ter problemas mais graves no futuro quando consome esse tipo de material. (…) Não é que a pessoa de imediato vai ter câncer, mas como algumas substâncias são cancerígenas, quando há uma grande exposição, os riscos aumentam “, explicou.

Evidentemente, o agronegócio não gostou dos dados divulgados pelo estudo de contaminação de água por agrotóxicos pela Agência Pública, Repórter Brasil e organização Public Eye. Além das próprias empresas de tratamento de água desmentirem as informações ou falarem que elas são tendenciosas, associações do setor agrícola também foram contrárias aos dados apresentados. A Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), por exemplo, afirmou que os dados foram publicados “de forma alarmista” com pesquisas “absolutamente desconhecidas por autoridades nacionais e internacionais”.

Para ler a reportagem completa e a lista dos 271 municípios baianos, dê um clique A Q U I.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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