Compra de respiradores respinga em Bruno Dauster, ex casa Casa Civil da Bahia

Secretário da Casa Civil da Bahia pediu demissão após escândalo da compra dos respiradores pelo Consórcio Nordeste (foto: Elói Correia)

O portal Bahia Notícias detalhou o caso da compra irregular de respiradores pelo Consórcio dos Estados do Nordeste. Em reportagens de Mauricio Leiro, Lucas Arraz, Cláudia Cardozo, Breno Cunha e Jade Coelho, dos R$ 48,7 milhões pagos pelo Consócio Nordeste a empresa Hempcare para a aquisição de 300 respiradores mecânicos, cerca de R$ 12 milhões foram distribuídos entre os sócios da empresa, Cristiana Prestes Taddeo e Luiz Henrique, e a dois “facilitadores” como “comissão” pela intermediação do processo de contrato com o grupo formado pelos nove estados do Nordeste. O caso é alvo de inquérito que investiga fraude. O valor em questão daria para comprar cerca de 120 equipamentos de respiração mecânica com tecnologia brasileira produzidos pela empresa Biogeoenergy, também envolvida na operação.

As contas da Hempcare e das pessoas envolvidas foram bloqueadas pela Justiça. Conforme depoimento obtido pelo Bahia Notícias com exclusividade, a empresa possui duas contas em que foram bloqueados um montante de R$ 1,2 milhão. A CEO da Hempcare, Cristiana Prestes Taddeo, teve R$ 9 milhões bloqueados em conta fora do país. Ela reconheceu, em depoimento, que o valor é referente a contratação a empresa pelo Consórcio Nordeste. Cristiana abriu conta no Banco BTG e providenciou também abertura de conta na filial do BTG em Nova York, no Estados Unidos, após receber o valor pelo contrato com os estados nordestinos. No depoimento ela assegura que os valores remetidos para fora do país foram declarados no Banco Central e os impostos foram pagos.

No depoimento, Cristiana Taddeo revelou que em razão da contratação com o Consórcio Nordeste recebeu a quantia de R$ 5 milhões. O mesmo valor de R$ 5 milhões foi repassado ao sócio de Cristiana, Luiz Henrique Ramos. Ele também teve contas físicas bloqueadas com um valor aproximado de R$ 300 mil e outros R$ 600 mil na conta jurídica. A CEO da Hempcare ainda fez uma doação para a irmã, Luciana Taddo, no valor de R$ 120 mil. Outra parte do recurso, no valor de R$ 9 milhões, foram repassados a Fernando Galante, apontado por Cristiana no depoimento como responsável pela “ponte” para o Consórcio Nordeste. As informações indicam que este supostamente teria recebido o valor em questão a título de comissão por ter apresentado Cristiana Taddeo a Cleber Isac, outro intermediário que participou da tramitação por possuir “influência política”.

Para justificar a saída do dinheiro da empresa Hempcare para Fernando Galante, Cristiana diz ter condicionado o pagamento a uma nota de prestação de consultoria. Quanto a Cleber Isac, a quantia recebida foi de uma “comissão” no valor de R$ 3 milhões de reais por este ter facilitado o contato com o Consórcio Nordeste. Outra movimentação que consta no depoimento foi logo após a compra frustrada dos respiradores chineses, Cristiana então partiu para a compra dos produtos nacionais. A empresária relatou que pagou R$ 19 milhões ao seu sócio Paulo de Tarso, como primeira parcela para a compra, e após alguns dias mais R$ 5 milhões. Porém a compra não teria sido autorizada pelo Governo da Bahia.

Para entender melhor o que está ocorrendo, a compra dos ventiladores, que agora é alvo de investigação por deputados, Polícia Civil e o Ministério Público Federal, foi concretizada pelo governo da Bahia, que pagou adiantado pelos produtos que nunca foram entregues. Foi o governador Rui Costa quem, inicialmente, denunciou e deflagrou a Operação Ragnarok para apurar irregularidades na empresa que recebeu pelos equipamentos, a Hempcare Pharma.  No entanto, a investigação tomou outros rumos. Dias após a deflagração da Ragnarock pela Polícia Civil da Bahia, a dona da empresa Hempcare, Cristiana Prestes, um dos alvos da operação, citou o ex-chefe da Casa Civil do estado, Bruno Dauster, como o principal responsável pelas negociações envolvendo os respiradores. Segundo ela, que chegou a ser presa temporariamente, Dauster foi quem a procurou e ele conduziu “99,9%” das tratativas. O chefe da Casa Civil da Bahia foi exonerado após a declaração.

Após ter seu nome associado à compra mal sucedida de respiradores, o ex-secretário afirmou que sempre agiu “com absoluta transparência e rigor ético” e que deixou a pasta para evitar a politização do tema.  Em nota divulgada nesta quinta-feira (11), o ex-secretário da Casa Civil, Bruno Dauster, negou qualquer irregularidade da sua parte das negociações pela compra de respiradores para o Consórcio do Nordeste. A acusação foi feita por Cristiana Prestes Taddeo, dona da Hempcare, envolvida no caso dos respiradores comprados pelo Consórcio Nordeste através da Bahia que não foram entregues, em depoimento prestado à Polícia Civil. “Não são verdadeiras as inferências que estão sendo veiculadas a meu respeito através da imprensa”, disse Dauster no comunicado enviado à imprensa. Ele também afirmou que não comentaria o depoimento por não ter tido acesso a ele. “Desde o início, tentei evitar a politização deste caso. Lamento que se dê vazão a esse tipo de notícias que não passam de ilações e especulações”, falou.

Confira a nota completa:

Conduzi os principais projetos estruturantes do Estado da Bahia, durante seis anos, sem que pairasse qualquer dúvida quanto à minha probidade e conduta. Jamais pratiquei ou propus qualquer ato que gerasse prejuízo para o Estado. No caso que é objeto desta investigação, sempre busquei o melhor negócio para o Estado e para os cofres públicos. Portanto, não são verdadeiras as inferências que estão sendo veiculadas a meu respeito através da imprensa.

Afirmo que não tive acesso aos depoimentos e, por isso, não darei entrevistas neste momento. Desde o início, tentei evitar a politização deste caso. Lamento que se dê vazão a esse tipo de notícias que não passam de ilações e especulações. E desejo que as investigações sejam feitas no mais rápido tempo possível, pois todas as provas que serão apresentadas às autoridades, demonstrarão minha lisura durante esse processo.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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