Cuidado com Democracia em Vertigem!

                                

Antes de tudo, é preciso assistir Democracia em Vertigem, de Petra Costa, sabendo quem está narrado o documentário. E, talvez para evitar equívocos, ela se identifica. Seus antepassados foram fundadores de uma das empreiteiras envolvidas na Lava Jato, seu pai e sua mãe foram presos pelos que fizeram o Golpe Militar de 64 e, ainda por cima, tem parentescos com Aécio Neves. Mais ainda, e isto não está no filme, estudou fora do Brasil e nas melhores escolas de cinema que o mundo pode oferecer.  Mesmo com tal origem burguesa e formação ligada ao PCdoB, Petra impõe a marca da sinceridade no documentário e mostra, sem nenhuma vergonha, a frustração de termos perdido a oportunidade de transformamos este país nos anos de domínio do petismo.

O documentário é a exposição pura e nítida da vergonha sentida por aqueles que alçaram a esquerda ao poder e viram petistas e demais esquerdistas se lambuzando na porcaria que tanto denunciaram. E faz isso sem um discurso rancoroso, usando a poética da imagem como pano de fundo para ampliar a decepção. A cena onde Gilberto Carvalho admite que o PT mergulhou na corrupção e não conseguiu se livrar dela é reveladora. Parecia ser a confissão que tantos esperam que um dia o partido faça, o que acredito jamais acontecerá.

Claro que a narradora e produtora tem lado. É ela uma entusiasta da esquerda, mas não há um discurso pieguista tentando justificar os descaminhos tomados nos 13 anos de governo petista. Em dado momento, ela mostra os dois Brasis: o dos programas sociais e o do governo envolvido na corrupção da Petrobrás.  É honestíssimo o documentário quando apresenta os discursos de Lula em cada uma de suas candidaturas, revelando o abrandamento e a caminhada cada vez mais para o centro. Fica nítida a ideia da opção do PT pelo mecanismo corruptor, também revelado na série O Mecanismo, de José Padilha,  quando se alia ao MDB. Aí fica claro que já não era mais um projeto de Brasil, mas um projeto de poder.

O Democracia em Vertigem é honestíssimo e não pode ser recebido pela esquerda como uma propaganda da era petista de governar. Em cada quadro do documentário há um lamento de uma classe que apostou, e perdeu, num discurso que se mostrou falso, frágil e falacioso. Foi tão honesto que não ousou poetizar a figura de Lula ou de Dilma. Na verdade, eles aparecem mais protagonizando a decepção da não realização de um sonho de um país justo e próspero.

Não se pode comparar comumente o documentário de Petra Costa com O Mecanismo, também na Netflix, este em segunda temporada. O documentário não nega o que está na série de José Padilha, mas este é poético e o outro realista. Democracia em Vertigem revela nossa frustração; O Mecanismo nos deixa indignados. Ambos se complementam sim, embora com estilos linguísticos de gêneros antagônicos.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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