Gênero Épico ou Narrativo

Narrar é contar histórias, inventar enredos, tramas, enigmas, criar personagens, lugares, fatos, tecer os fios da vida em desenhos mágicos. (Marina Ferreira & Tânia Pellegrini). Está intimamente relacionado com a palavra ação e ficção.

Características:

1 – Trata-se de um texto figurativo.

2- O texto comporta uma série de mudanças de situação, de transformações de estado.

3 – As mudanças relatadas estão organizadas de maneira tal que entre elas existe sempre uma relação de anterioridade, posterioridade ou concomitância.

4 – Aparecem no texto os tempos verbais do subsistema do passado: o pretérito perfeito (foi, tomou, despertaram, afastou-se etc.), o pretérito mais-que-perfeito (ouvira, cantara) e o pretérito imperfeito (acompanhavam, gingavam, gritavam etc.).

Em suma:

O gênero narrativo acontece quando uma mudança de estado é operada pela ação de uma personagem.

Tipos de narrativas:

1 – Conto – narrativa com 1 só conflito

2 – Crônica – narrativa para análise de um conflito social já conhecido.

3 – Novela – narrativa com 1 só conflito e vários clímax corrompidos (sucessividade de células dramáticas)

4 – Fábula – pequeno conto com finalidade didática.

5 – Romance – narrativa longa com vários conflitos em torno de um conflito básico.

6 – Apólogo – pequeno conto protagonizado por seres não-humanos.

7 – Romanço – Narrativa oral da idade média. É a forma primitiva do romance. Seu fim é quase sempre trágico.

8 – Epopeia – narrativa em versos destinada a fatos grandiosos. O herói é sempre vitorioso.

Elementos da narrativa

Narrador – personagem que conta a história:

1 – narrador personagem – conta uma história da qual participa de alguma forma, sendo protagonista ou não. Foco narrativo em 1ª pessoa. Variações: Narrador-testemunha e Narrador-protagonista.

2 – narrador-observador – conta a história a partir do que pôde observar. Foco narrativo em 3ª pessoa.

3 – narrador onisciente – conta a história observando, revelando, dizendo coisas que nem mesmo as personagens sabem. Sabe tudo. É mais comum vê-lo narrar em terceira pessoa.

Personagem – seres fictícios parecidos com pessoas.

1- Protagonista – central e ligado ao bem

2 – Antagonista – central e ligado ao mal

3 – Secundários – povoam a narrativa e dão consistência aos centrais.

Conflito – base fundamental do enredo pautada na visão dicotômica do bem X mal. É a partir desse par antitético que nasce a história.

Discurso – ocorre quando o narrador reproduz o que a personagem fala.

   1 – Direto – é a reprodução fiel da fala da personagem. Usa verbos de dizer (dicendi) indicando o interlocutor que está com a palavra:

    – Daqui a uns dias volto pra você, meu amor – murmurou Géssica ao telefone.

      Às vezes, a fala de personagens é indicada por aspas, com ou sem mudança de linha:

       “É importante saber o nome das coisas. Ou, pelo menos, saber comunicar o que se quer. Imagine-se entrando numa loja para comprar um… um… como é mesmo o nome?

       “Posso ajudá-lo, cavalheiro?”

       “Pode. Eu quero um daqueles, daqueles…”

       “Pois não?”

        “Um… como é mesmo o nome?”   (Luis Fernando Veríssimo. In: Para gostar de ler. São Paulo: Ática, 1993. v. 7, p.35.)

      2 – Indireto – o narrador transmite com suas próprias palavras a fala das personagens. Veja:

      “Baiano velho estava contente. Primeiro deu uma cotovelada no secretário e puxou conversa. Puxou à toa porque não veio nada. […] Ficou quieto por uns tempos. De repente deu uma coisa nele. Perguntou para o rapaz se o jornal não dava nada sobre a sucessão presidencial. O rapaz respondeu que não sabia, pois eles estavam no escuro.”

      3 – Indireto livre (ou semi-indireto) – é uma fusão dos discursos direto e indireto, porque apresenta a fala ou o pensamento da personagem discretamente inseridos no discurso do narrador. Veja:

      “[…] Ele tinha a cara rubra, os olhos brilhantes, mas os lábios estavam brancos e secos, teve que passar a ponta da língua entre eles para separá-los, a saliva virou cola? Antes de dizer o que estava querendo dizer há mais de cinco anos e não dizia, adiando, adiando. Esperando uma oportunidade melhor e faltava coragem, esmorecia, quem sabe na pr6xima semana, depois do aniversário do Afonsinho? Ou em dezembro, depois do aumento no emprego, teria então mais dinheiro para enfrentar duas casas -mas o que é isso, aumento nos vencimentos e aumento na inflação? Espera, agora a Georgeana pegou sarampo, deixa ela ficar boa e então. E então?! Hoje, HOJE! tinha que ser hoje, já! […]”   (Lygia Fagundes Telles)

O clímax:

    É o momento que concentra toda a carga emocional acumulada ao longo da narrativa.

O desfecho:

    É o fim, o desenlace do enredo.

Enredo – Conjunto de fatos da história.

1 – Cronológico – marcado pela alternância natural do tempo. É ordenado. É possível ainda identificar as seguintes partes:

      a – Manipulação – onde acontece o nascimento do conflito. É a parte do QUERER.

      b – Competência – onde aparece algo que possibilita a resolução do conflito. É o PODER.

      c – “Performance” – onde está o clímax. Os dois lados do conflito se enfrentam. Haverá um vencedor ou vencido. É o FAZER.

      d – Sanção – É o desenlace com a revelação do prêmio ou do castigo para o protagonista. É o VIVER no prazer ou no sofrer.

2 – Psicológico – Caótico, desordenado, atemporal.

Tempo – É a época dos acontecimentos vividos pelas personagens ou determinada pelo enredo.

1 – Cronológico – Aquele marcado pelo relógio

2 – Psicológico – Aquele da duração interna dos fatos, complexo, impreciso, caótico, composto de momentos que se fundem ouse aproximam.

3 – Do narrador – Aquele da época da história contada.

4 – Da narrativa – Aquele da época da história vivida.

Espaço – É a ambientação. O conjunto de elementos que forma o cenário.

1 – Físico – exterior

2 – Psicológico – interior

3 – Da narrativa – do enredo

4 – Do narrador – onde está o personagem que conta a história.

Para não esquecer:

1 – narrador não é autor.

2 – personagens não são pessoas

3 – narração baseada em fato real não é o fato real.

4 – há uma linha perigosa separando a ficção da realidade. Todas as vezes que ela foi ultrapassada o resultado foi trágico.

5 – a vida não imitará nunca a arte, mas ela continua tentando ser o retrato mais fiel.

6 – tudo na narração é verdade porque existe.

7 – uma obra de arte tem formato definido. A vida, não.

                                                              (Landisvalth Lima)

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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