Germano, Belivaldo e Bolsonaro são os únicos culpados?

A culpá é dele e de todos aqueles que concordam e defendem (foto: O povo)

Os poucos leitores deste portal poderão ficar furiosos pelo que aqui vou retratar. Estes não são os únicos a só querer aplaudir aquilo que é a sua imagem no espelho. Os três citados no título deste artigo, para não cometer injustiças, representam a síntese do comportamento político no país e peço paciência aos que leem para entender o que quero aqui revelar, que é o óbvio. Germano Santana é prefeito de Ribeira do Amparo – Ba, do Partido dos Trabalhadores; Belivaldo Chagas é o atual governador de Sergipe. Bolsonaro, todos nós sabemos.

Nosso primeiro personagem é muito comum nos vários municípios que totalizam este país. Foi eleito para transformar uma realidade, renovar uma ideia, consertar o que estava errado. O povo de Ribeira do Amparo, em sua maioria, acreditou mesmo que, após a eleição, Germano Santana promoveria o progresso do acanhado e aguerrido município, cravado neste sertão de Nosso Senhor. Hoje, o que se vê não é muito diferente do que fizeram outros administradores anteriores: salários atrasados, achatamento salarial dos servidores, 13º sem previsão de pagamento, administração pífia, desculpas esfarrapadas. No nordeste brasileiro, a seca vem a cada 17 anos, em média. No Brasil, por ser os bons coisa tão rara, temos um prefeito ruim a cada 4 anos, em média.

Vamos dar um pulo em Sergipe e pegar o governador Belivaldo Chagas como metáfora para vários estados, senão todos. Este rapaz de Simão Dias foi eleito no oba-oba do entusiasmo já bem decadente da revolução iniciada, e não concluída, por Marcelo Deda, também do PT. Sergipe agora seria um outro mundo. A vida mudaria e o pequeno se ergueria com a força do São Francisco e seria um gigante, dando exemplo ao país de eficiência. Fez renascer a esperança quase enterrada pelo seu antecessor. Hoje, Belivaldo é pólvora molhada, fonte sem água, caminho sem rumo. Sergipe é um paciente na UTI, e que insiste em dizer que tem apenas uma leve gripe.

De Brasília trago o nosso terceiro personagem, nosso presidente da república. Não preciso ficar aqui repetindo suas loucuras, mas duas delas merecem atenção: ter sancionado o tal do Juiz de Garantias e chamar Paulo Freire de energúmeno. Bolsonaro é a típica figura de um país doente social e politicamente. É produto de um mal que invade as entranhas desta nação e coloca o país de quatro diante da babaquice. Não se trata de um estadista equivocado, de um político que cometeu erros ou de alguém iluminado que se desviou do seu caminho. Bolsonaro é o sujeito que é, mas não entende como ser. É uma espécie de moeda de 1 centavo e meio e um desafio para a psicologia.

Todos estes personagens jamais seriam o centro das nossas atenções se nós usássemos a prerrogativa elementar de não aceitar o que está errado. Vejo nas redes sociais os eleitores de Ribeira do Amparo se agredindo, um culpando o outro pelas escolhas feitas na última eleição e todos, no fundo, defendendo cada um seu quinhão. É exatamente isso que querem Germano e os Britos. Este nós X eles, este meu lado contra o seu e a disputa de grupos municipais deveriam sempre ocorrer nas eleições, no momento da escolha. Acabaram-se as eleições? É hora de pensar no coletivo, no futuro da cidade, no progresso. Quem se elegeu vai representar o todo e não a parte. Prefeito roubou, atrasou salários, administra mal, não cumpriu promessas, pau nele! Esteja ele do meu lado ou do seu!

Sergipe assistiu esta semana a um desfile de insensatez e hipocrisia. O projeto de lei da Previdência Social do estado é mais duro que o aprovado pelo Congresso Nacional. Não questiono a necessidade da aprovação, mas há coisas que precisam ser feitas no governo que nunca fazem. Sergipe teria um refresco orçamentário se acabasse com milhares de cargos de confiança, criados para acomodar cabos eleitorais. A conta dessa equação absurda será paga pelo servidor público e pelo contribuinte. Onde estavam os deputados do PT, apoiadores de Belivaldo Chagas, críticos ferrenhos da reforma feita em Brasilia? Só Iran Barbosa contestou com voto contrário, embora tenha sido incoerente, nas eleições, por apoiar Belivaldo.

Até minha avó, Celestina Teixeira da Silva, morta há muitos anos, hoje ralhando no céu para organizar a casa, sabe que o juiz de garantias é mais uma arma para salvar os corruptos encastelados dentro e fora do congresso. Para disfarçar, Bolsonaro vem com uma crítica sem sentido a Paulo Freire. Ninguém pode criticar algo que não conhece. O nome que o educador pernambucano construiu não foi por acaso. Ele fez o desamparado perceber que havia algum valor no que fazia socialmente. Paulo Freire fez o oprimido saber que tinha força, que podia muito mais. Também despertou no professor esta coisa de usar o saber do educando para levá-lo ao saber erudito. Isso não é pouco.

Ah, então Paulo Freire é um Deus! Claro que não. Há muitos erros em sua pedagogia. O principal é abandonar a ideia da necessidade do conhecimento erudito. Não basta se saber como peça importante na sociedade, é preciso também saber o que é e como é esta sociedade. É o saber erudito abandonado pelos seguidores de Paulo Freire! Precisamos ensinar o povo a pescar e vender o peixe aos que tem dinheiro. É assim que se distribui riqueza em época de paz. Os seguidores fanáticos de Paulo Freire querem que o povo pegue a vara e saia por aí a dar na cabeça dos que tem dinheiro. Isso é a guerra do nós X eles, a serviço dos ditadores, pseudoesquerdistas, peseudodireitistas, oportunista, populistas e demagogos.  

Germano Santana, Belivaldo Chagas e Jair Bolsonaro são frutos da nossa incapacidade de nos aceitarmos como agentes da história. Nós fazemos o nosso percurso. Aceitar a administração pífia de prefeitos ruins, só por ele ser do seu grupo ou partido; engolir medidas aviltantes de governadores incompetentes, só por ele ser supostamente de esquerda ou direita; e ir para uma rede social defender atitudes imbecis de políticos psicologicamente desequilibrados, só porque você está tomado de raiva contra A ou B, são atitudes inaceitáveis. É preciso aceitar que o que está acontecendo é também por nossa causa.

Landisvalth Lima

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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