Lula e Bolsonaro unidos contra a Globo

Combater o bom jornalismo é mais cômodo que enfrentar a verdade (foto-montagem: Contraprosa)

Fazer impressa livre no Brasil só para os fortes. A Rede Globo de Televisão está sofrendo o maior e mais sério ataque, desde que foi gestada nos anos da Ditadura Militar. 54 anos depois de fundada, o jornalismo da Rede Globo é exemplo de independência e excepcional qualidade. Embora nem sempre tenha sido assim, a emissora da família Marinho pode se orgulhar hoje das coberturas imparciais em todos os seus telejornais. A maior prova de sua independência é que, mesmo diante de uma polarização política gritante entre o Bolsonarismo e o Lulismo, os protagonistas dos polos opostos se unem quando o assunto é Rede Globo. São ambos radicalmente contra a emissora líder de audiência no país.

Vários políticos no Brasil se sentem intimidados pela Rede Globo porque querem o poder absoluto. Buscam a unanimidade da opinião pública e querem todas as emissoras do seu lado, mas principalmente a emissora da família Marinho. Estes políticos são carreiristas e usam a política para a perpetuação no ápice do poder, sem falar naqueles que usam a política para praticar atos nunca republicanos de enriquecimento ilícito.

Se não é possível ter o apoio da emissora, parte-se para a insanidade de combatê-la. Alguns ainda fizeram de maneira sorrateira. Nunca é tarde lembrar Fernando Henrique Cardoso com a criação das rádios comunitárias em todo o país. O objetivo era democratizar a comunicação. Hoje, as emissoras estão aí se arrastando, muitas delas em associações controladas por deputados, prefeitos ou vereadores. A de Heliópolis, por exemplo, é controlada pelo vice-prefeito. São milhares de emissoras espalhadas pelo país. E a Rede Globo continua líder!

No governo do PT, Lula da Silva, que de bobo não tem nada, botava as bases sindicais para bater na emissora, enquanto as verbas públicas eram usadas para passar a ideia aos Marinhos de que o petista era um democrata e respeitava os índices de audiência da poderosa TV. Enquanto isso, mandava correligionários espalharem revistas, jornais, blogs, TVs e rádios Brasil a fora. A missão era bater na elite, criticar o imperialismo americano, exaltar Cuba, Venezuela, Hugo Chaves, defender as minorias, etc, etc, etc. Veio o Mensalão, a culpa foi da Globo. Chegou o Petrolão, a família Marinho queria mandar no país. Vieram as delações premiadas, tudo foi mentira. Lula foi preso e virou o inocente eterno. Ainda hoje há centenas deles povoando a internet com manchetes que transformam o juiz que julgou em culpado por tudo que aconteceu de ruim com Lula.

Mas temos que admitir que o Presidente Jair Bolsonaro superou Fernando Henrique e Lula. O presidente teve reação inimaginável à matéria do Jornal Nacional a respeito de citação do nome dele na investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018. Da Arábia Saudita, Bolsonaro atacou a emissora e disse que a Globo fazia patifaria. “TV Globo, isso é uma patifaria! É uma canalhice o que vocês fazem. Fazem uma matéria dessa, em horário nobre, dizendo que eu poderia ter participado da execução da Marielle Franco.”. Nunca isso foi dito na reportagem. A emissora só informou o que havia dito o porteiro, nada mais.

 E ainda ameaçou a Globo de não renovar a concessão. “Temos uma conversa em 2022. Eu tenho que estar morto até lá, no processo de renovação de vocês. Não vai ser perseguição. Mas o processo tem que estar enxuto, tem que estar legal. Não vai ter jeitinho para vocês nem para ninguém.” A emissora, no outro dia, última quarta-feira (30), disse que não fez patifaria e que “fez, como sempre, jornalismo com seriedade e responsabilidade.” Tanto que divulgou tudo o que o presidente disse contra a emissora, e ainda a descoberta da mentira dita pelo porteiro.

Mas o comunicado da emissora foi de uma educação e seriedade invejáveis: “A Globo lamenta que o presidente revele não conhecer a missão do jornalismo de qualidade e use termos injustos para insultar aqueles que não fazem outra coisa senão informar com precisão o público brasileiro. Sobre a afirmação de que, em 2022, não perseguirá a Globo, mas só renovará a sua concessão se o processo estiver, nas palavras dele, enxuto, a Globo afirma que não poderia esperar dele outra atitude. Há 54 anos, a emissora jamais deixou de cumprir as suas obrigações.”

O episódio foi fundamental para o país saber a importância da imprensa livre numa democracia. Só os adoradores da ditadura detestam o jornalismo livre. Jair Bolsonaro, eleito pela oportunidade de mostrar-se nas redes sociais de forma livre, não suporta estar num cargo público vigiado pelo poder da informação. Comete os mesmo erros dos antecessores ao eleger a Rede Globo como sua inimiga. Vai mais além, ao achar que pode combater a verdade. Sim, a verdade! A Globo, vamos ser justos, não disse uma linha que não fosse verdade. E a verdade nem sempre nos beneficia.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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