O encontro do PDT de Euclides da Cunha e a prática do discurso da mudança

O apresentador, o vice-prefeito Betão, o prefeito Luciano, Mundinho do Tijuco, João de Deus, Félix Mendonça, Genival Nunes e Professor Quelton, para o Contraprosa (foto: Landisvalth Lima)

É salutar quando andamos por nossa região e encontramos algo que possa representar evolução. Como somos resistentes a qualquer novo processo que represente mudanças de comportamento, e nos colocamos sempre prontos às novidades que não transformam nada, ver algo dar certo num sistema já posto é extremamente glorioso. E quando isso ocorre na política, temos que soltar fogos. Ao cobrir o encontro estadual do Partido Democrático Trabalhista – PDT – em Euclides da Cunha, observamos que o sistema tem sim falhas terríveis, mas, com boa vontade e bons estadistas, há saídas para nos encontrarmos com um Brasil melhor, mais digno e mais humano.

Público marcou presença. (foto: Landisvalth Lima)

O enredo desta reportagem começa na cidade de Heliópolis. João de Deus Ferreira Lino, presidente do PDT do município, fez questão de convidar Thiago Andrade, Maria de Renilson, Ana Dalva, Professor Quelton e o ex-prefeito Genival Nunes para o encontro do partido em Euclides da Cunha. Lá estariam o presidente nacional do partido, Carlos Lupi, e o presidente estadual, deputado federal Félix Mendonça. A raiz de tudo são as eleições de 2020 (ou 2022, quem sabe?). Com o fim das coligações, partidos pequenos e sem condições de atrair parlamentares, ou filiados com potencial de votos, precisam migrar para partidos com certa estrutura considerável, que garantiriam, pelo menos, disputar renovação de mandatos. Thiago Andrade esteve com a vereadora Ana Dalva e disse que a viagem seria interessante se pudéssemos ter uma meia hora de conversa com Félix Mendonça, o que seria impossível naquele dia com a agenda lotada do parlamentar.

Félix Mendonça, Luciano Pinheiro, Carlos Lupi e o vereador Tita (foto: Landisvalth Lima)

Adiada a ida das autoridades, resolvi pegar uma carona com uma ex-autoridade, Genival Nunes, e com um que quer ser autoridade, Quelton Almeida, que já avisou ser pré-candidato a prefeito de Heliópolis. Encontramos João de Deus lá no povoado Segredo, num posto de gasolina, acompanhado de uma eterna autoridade, o ex-vereador, e atual presidente do sindicato dos trabalhadores rurais de Heliópolis, Raimundo Rodrigues de Castro, o popular Mundinho do Tijuco. Ao chegarmos em Euclides da Cunha, fomos para o local do evento: Câmara Municipal. Tudo estava pronto e aguardava as autoridades protagonistas do evento.

Quando o encontro começou, observador atento, percebi tudo exatamente igual, como em qualquer lugar. O grupo de Heliópolis estava sentado na primeira fila da plateia, membros da Juventude Socialista do PDT ocupando seu espaço, uma bandeira do partido no palanque da mesa diretora, um jornalista todo engravatado transmitindo ao vivo para o Facebook, um fotógrafo, aplausos, discursos de autoridades do município, apoiadores e autoridades vindas de vários rincões desta Bahia de todos os santos e todos os pecados. Parecia um evento como outro qualquer. Lembrei-me então de um poema de Mário Quintana que prega dedicar um segundo olhar às coisas. Foi então que vi o que gostaria de ver em muitos lugares, inclusive em Heliópolis.

Dirigentes nacional, estaduais e municipais, além de autoridades do PDT em Euclides da Cunha (foto: Landisvalth Lima)

Vi um prefeito eleito em 2016, o ex-vereador Luciano Pinheiro, filho de Dr. Laércio, que derrotou uma oligarquia e seu sorriso continuava a refletir uma humildade alegre e contagiante. Pode ser algo comum, mas é raro por aqui. Um dos vereadores da bancada do prefeito é um homossexual chamado Mergulho. Seu paletó era cor de rosa choque e ele não exibia o ar arrogante dos perseguidos e discriminados. Parecia alguém amado por todos. Até o locutor do evento, de voz encorpada e controle tonal, parecia dizer tudo com uma naturalidade incomum. Os discursos dos vereadores da bancada do prefeito Luciano Pinheiro, em nenhum momento, denotaram pieguismo puxa-saquista. Eram mais voltados para a gratidão, mesmo que em algum momento tenham aqui e ali vendido o seu peixe.

Presidente do PDT fez discurso defendendo a educação (foto: Landisvalth Lima)

Mas o melhor ainda estava por vir. Ocupando o parlatório, o deputado federal Félix Mendonça prestou contas aos seus mais de 9 mil eleitores no município e criticou o adversário (José Nunes – ele não citou o nome) que teve mais de 12 mil votos em Euclides da Cunha e não liberou uma emenda sequer neste novo mandato. Só para este ano, o deputado do PDT confirmou 16 milhões. Ao todo, as emendas podem chegar a 30 milhões. São valores significativos. Ao criticar o adversário, um homem invadiu o ambiente e perguntou a Félix quem era ele para falar mal do deputado. O pedetista não titubeou: “Sou o deputado que coloca emendas aqui!”. Foi aplaudido com entusiasmo e o invasor retirado do ambiente. O discurso do deputado foi também de gratidão a Euclides da Cunha por ser o município que mais deu votos a ele, eleito com mais de 91 mil sufrágios. No meio da fala, chamou à tribuna o ex-vereador João de Deus e agradeceu pelos 15 anos de parceria e confiança mútua.

Félix Mendonça e Carlos Lupi (foto: Landisvalth Lima)

O presidente do PDT Carlos Lupi fez um discurso cativante. Lembrou de sua origem em Alagoas, da sua trajetória política. Enalteceu Brizola, mostrou da opção do partido pelo social, pela educação e disse que o PDT precisa lançar o maior número possível de candidatos nas próximas eleições. Claro, ficou encantado com o exemplo de Euclides da Cunha. Mas foi a palavra do jovem prefeito, o engenheiro Luciano Pinheiro, que mais me chamou a atenção. Primeiro, mostrou-se grato a todos de forma nítida, sem apetrechos. Distribuiu uma imagem de humildade, sem parecer algo ensaiado ou deprimente. Principalmente, mesmo sendo ovacionado o tempo todo para sua reeleição, mostrava-se mais preocupado com a sua administração, com aquilo que deveria ser feito. Deixou claro que ele fazia parte de um grupo político e que o candidato não poderia ser alguém da família ou da preferência dele. “O candidato será aquele que estiver em melhores condições para construir a vitória do grupo político. A época dos coronéis passou!”. Foi ovacionado.

Voltei para Heliópolis com minhas convicções políticas mais consolidadas. João de Deus, Genival e Quelton ficaram felizes com o que assistiram. Não sei se vai mudar algo no modo de Mundinho do Tijuco fazer política, mas gostaria que Beto Fonseca, José Mário, Igor Leonardo, Lázaro Ribeiro, Fabiano Gama, Gilberto Jacó e tantos outros políticos e militantes que sonharam um dia mudar Heliópolis estivessem lá. Talvez se arrependessem de um dia ter desistido ou se aliado ao lugar comum, por comodismo, conveniência ou simplesmente por já não mais acreditar. No fim de tudo, sei que ali há problemas, mas certamente bem menores. Sei também que várias circunstâncias poderão soterrar tudo e Euclides da Cunha voltar ao lugar comum. É possível sim, principalmente se não levarem tudo isso para a educação. Afinal, o filme da eleição de Lula sempre nos assusta. O que não se pode negar é que é possível construir neste rincão da Bahia uma política onde o cidadão seja o centro das atenções. Precisamos esquecer o carreirismo político. A única coisa que deve ser eterna é a cidadania.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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