O fim dos tempos ou a era dos que não gostam de si mesmos

Os casos constantes de mortes ainda não despertam a atenção de todos (foto: Mídia Ninja)

Eram dez horas da manhã desta segunda-feira (11) quando o mundo ficou sabendo que, em quatro meses apenas, uma cidade do tamanho de Juazeiro do Norte, localizada na região do Cariri cearense, foi varrida do mapa por um vírus. Os números são catastróficos e parecem comuns. A morte noticiada virou algo tão banal que já não mais assusta ninguém. Ela só tem valor quando acontece ao nosso lado. Distante, fica parecendo coisa de cinema, imagem de efeitos especiais para se ver corriqueiramente na televisão.

No mesmo horário, o mundo ficava sabendo que o dito vírus contaminou mais de 4 milhões e cem mil pessoas, mas soa como algo comum, aceitável. É a vida. Nesta noite, a imprensa registra mais um boletim: Brasil: 11.519 mortos, com 168.331 contaminados. Foram 396 mortes em 24 horas, porque sempre os números são menores nos fins de semana. Alguém imagina ser um alívio, já que ficamos, por três dias, com números acima dos 700 mortos. Números! Foram apenas 396 mortos! Números!

E o que dizer das pessoas que se aglomeravam numa chácara em Heliópolis neste fim de semana, com paredão e tudo mais, tomando todas e mais algumas? Ora, bolas! Eu vou morrer mesmo! Está com medo? Além disso nós não temos nenhum caso! Desculpas, desculpas! Palavras soltas para esconder a incapacidade de ser responsável. Alguém pode até dizer que é um exagero. Afinal, eles estão provando que têm coragem de enfrentar as dificuldades, que não se abalam diante do inimigo. “Temos que enfrentar o vírus como homem e não como moleque!”, nas palavras de um psicopata.

Por aqui, os números ainda não conseguem assustar. A Bahia chegou hoje a 5.808 casos e 211 mortes. O nosso vizinho mais querido, Sergipe, já contabilizou 1.800 contaminados, com 37 óbitos. Na nossa região, Poço Verde já tem dois casos, um deles de um profissional da área da saúde. O simples fato de ter sido um médico, já colocou em polvorosa muitas pessoas e já há muitos suspeitos de contaminação. A possibilidade de algo acontecer realmente conosco nos leva a temer a morte, a acordar e encarar a coisa como algo sério. Aí corremos para o álcool em gel, para o uso da máscara e começamos a fazer, de forma atrasada, o que os profissionais de saúde recomendam.

Não é fato novo muitas pessoas não estarem nem aí para outro. Desde que o mundo é mundo, temos centenas de Hitlers, Maos, Stalins, Maduros, Bolsonaros, Mussolines e outros seres que desprezam a humanidade. O equilíbrio vem com as Madres Teresas, Irmãs Dulces, Coralinas, Betinhos e outros, semeando o bem e estagnando o trágico fim possível. Porque ainda há pessoas que gostam de pessoas, gente que cuida de gente e seres humanos iluminados que fazem o bem sem olhar a quem. Mas estes últimos estão ficando raros e já são minoria. Se continuarmos assim, chegará a segunda fase. Aí, será a vez de o ser não gostar nem dele mesmo e então chegaremos ao fim dos tempos!

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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