O Mirassol e Jacozinho
Marcelo Torres
Flamengo e Palmeiras são os donos da bolada (o dinheiro), está certo. Ou melhor, não está certo não. Ora, os dois querem ser os donos da bola, os donos do apito, os donos da seleção, os donos do calendário, os donos até mesmo da Liga!
Mas quem está “dando liga” mesmo (ainda que de repente seja só uma chuva de verão) é o “intruso” Mirassol, a surpresa, a sensação, o mais belo e mais poético caso do ludopédio nacional nos últimos tempos, o calouro “penetra” no G4.
O Mirassol, neste campeonato brasileiro, faz mais ou menos o que Jacozinho fez na festa de Zico.
Para quem não lembra, em 1985 o Galinho de Quintino fez um jogo festivo no Maracanã para celebrar a sua volta da Itália para o Brasil. De um lado, os “Amigos de Zico”; do outro, o Flamengo.
O rubro-negro tinha, entre outros atletas, o goleiro argentino Fillol, os laterais Jorginho e Leandro e os meio-campistas Andrade, Adílio e o próprio Zico, claro.
O time dos amigos, sob a batuta de Telê Santana, tinha Oscar, Branco, Falcão, Júnior, Cerezo, Maradona e… um “penetra”, que entrou no meio do segundo tempo.
Jacozinho tinha bola, mas não ganhava bolada. Era um carismático atleta do CSA de Alagoas, talvez o jogador mais querido do Brasil na época.
Jacozinho não tinha sido convidado pelo dono da festa. Ninguém sabe ao certo como é que ele foi parar lá.
Parece que, apoiado pelo repórter Márcio Canuto, ele foi levado pelo pessoal da Globo, emissora oficial do evento e que certamente estava de olho no apelo popular daquela figura folclórica.
Antes de entrar em jogo, Jacozinho já ouvia seu nome ser gritado pela torcida. Uma vez em campo, recebeu um passe genial de Maradona e fez um golaço, para delírio do público no estádio.
O “penetra” Jacozinho acabou roubando a cena na festa de Zico, que não escondeu a insatisfação, dizendo em entrevista que a presença do jogador do CSA era uma “forçada de barra”.
Ora, meu Galinho, festa sem penetra não é festa. E, no final das contas, mal nenhum ele fez, muito pelo contrário, foi uma atração a mais, que só alegrou, só engrandeceu o seu evento — e o respeitável público amou a participação dele.
Passados 40 anos (quando Zico e Jacozinho já fizeram as pazes), agora temos um outro “intruso” na festa dos “bacanas”.
Mesmo sem apito, sem dinheiro no banco, sem títulos importantes e vindo do interior, o Mirassol está em 4º lugar.
O Mirassol é um milagre.
Com atletas “renegados” pelos 19 clubes da Série A, o “intruso” botou no chinelo o Fogão, o Fluzão, o Vascão, o Timão e muitos outros timinhos.
O Mirassol é a maravilhosa surpresa do futebol brasileiro este ano, ainda que este raio não vá cair duas vezes no mesmo lugar (será que vai ser um novo São Caetano?).
Não me venham com explicações de que é a gestão, é a estrutura, é o treinador, é isso, é aquilo.
Não é nada disso, pois nem a gestão, nem a estrutura, nem o treinador do Mirassol são melhores que os dos demais clubes.
O que o Mirassol está fazendo é um milagre, pronto.
Acho que a ‘explicação’ mais plausível seja aquela frase: “Deu liga”.
Nem tudo na vida tem explicação, principalmente o que acontece entre as quatro linhas.
Há mais coisas entre o céu e a terra do que possa imaginar a nossa vã filosofia, assim dizia Hamlet.
O futebol e o danado desse Mirassol certamente são duas dessas coisas.
Marcelo Torres é jornalista e escritor, natural de Sátiro Dias-BA, mora em Brasília e é torcedor do Vitória.
Texto publicado originalmente na coluna do Juca Kfouri, no UOL.
