Conto

O professor brilhante

Ninguém jamais ousaria dizer que o professor Tezinho não fosse um homem de brilho. Brilho nas abotoaduras, brilho no discurso, brilho até no olhar que se demorava mais no espelho do que nos livros. Para ele, caráter era um detalhe antiquado, honra uma palavra fora de moda, e ética um entrave burocrático. O mundo, afinal, girava em torno de sua figura — e se por acaso alguém ousasse contestar, era logo acusado de inveja, essa doença que só acometia os medíocres incapazes de reconhecer sua grandeza.

E nesta tocada levava sua vida no interior da Bahia, numa cidade encravada na divisa com Sergipe. Silopoilé era pacata, mas seu povo trabalhava muito e, principalmente, acreditava na educação para lastrear o futuro do município. E foi assim que José Tevaldo Oliveira chegou ao cargo de professor, depois que um prefeito resolveu seguir o caminho do concurso público. Tevaldo, o popular Tezinho, era filho de um agricultor, homem justo e trabalhador. Criou os sete filhos no cabo da enxada e no criatório de bois e ovelhas. Os mais velhos logo se casaram e seguiram o caminho da agropecuária, uma filha se casou e seguiu para São Paulo e uma outra seguiu para Aracaju, onde tem uma Ótica. Dos três que ficaram, um seguiu para Ribeira do Pombal, negociando imóveis, e uma filha até apresente data não se casou e cuida da mãe, quando não está trabalhando na Prefeitura. O mais novo é o Tezinho, certamente o mais mimado. Aconteceu quando seu Ronaldo e Dona Zefinha não imaginavam mais ter filhos. Foi a ponta o último suspiro, da última vida do gato.

Dona Zefinha vivia a dizer que teve mais trabalho com Tezinho que com todos os outros juntos. O menino era birrento, chorão, queria tudo. Dona Zefinha descobriu que tinha muita paciência, mas não era o caso de Ronaldo.

– Você está com 13 anos e agora estou sabendo de confusão sua na escola. Não pode me ajudar na labuta porque está estudando e agora, além das confusões, a diretora me disse que você está em recuperação na maioria das matérias. Pois, você vai ver o que é um homem perder a cabeça se souber que você perdeu o ano na escola. Prepare o lombo!

Depois da comida de rabo, Tezinho ficou apreensivo e resolveu estudar um pouco, o suficiente para passar. Até para não passar a ideia de aluno relaxado. Fato é que Tezinho concluiu o 2º grau no antigo curso de Magistério 1º Grau, para professores da 1ª a 4ª série. Com abertura do concurso, percebeu que havia 20 vagas para professores. Na sua cabeça, não haveria como ele perder. No dia da prova, colocou a melhor roupa, caprichou no perfume e foi fazer o exame. No resultado final, ficou em 23º lugar, dentro das vagas de reservas. Ficou quieto e não comentou com ninguém.

Alguns meses após a convocação dos classificados, quatro selecionados não tomaram posse e Tezinho foi convocado. Começou a trabalhar no povoado São Felipe. Era o professor mais talhado na moda, com perfume da cabeça à ponta do dedão do pé. Ensinar, ensinar mesmo… aí é querer demais. Começava pedindo aos alunos que abrissem na página tal e fizessem os exercícios que valiam meio ponto. A garotada respondia qualquer coisa e o ponto estava posto. Só explicava em ocasiões especiais. Quando alguém questionava, ele dizia que fosse estudar porque ele aprendeu sozinho.

Curioso é que ninguém era reprovado ou ficava em recuperação ou prova final. Por isso ninguém questionava. Tezinho passava ano após ano sem ser questionado, desfilando pelo município suas roupas, cada vez mais marcantes e exalando perfumes cada vez mais fortes. Uma vez, uma professora se interessou por ele e resolveu dar em cima, de soslaio. Quando ele percebeu, disse na cara dela que não se casava com pobre e que ela não tinha condições de sustentá-lo. Que procurasse outro para apagar seu fogo. A professora recolheu-se e as pessoas foram começando a entender melhor aquele professor.

Certa feita, num ano de eleição, o prefeito de Silopoilé se meteu numa enrascada e foi o irmão de Tezinho quem resolveu o problema, arranjando uma nota fiscal para cobrir um rombo na prefeitura. Além de pagar gorda recompensa, o prefeito disse a José Antônio que estava devendo um favor. Poderia pedir que, se pudesse, faria. José Antônio disse que ele poderia dar um cargo de secretário ao irmão Tezinho. Seria um favor expressivo. O prefeito só disse a ele que isso só poderia ser feito se ele se reelegesse. Não poderia tirar a que estava lá sem perder votos. Ficou então combinado.

Tezinho foi informado da jogada do irmão e entrou de corpo e alma na campanha do prefeito. Ao final, tudo deu certo. Ramivaldo foi reeleito e Tezinho foi nomeado secretário municipal de educação. Foi uma surpresa geral entre os professores, não pelo peso do conhecimento. Todos ali pareciam ter base para tal cargo, mas dedicação não era uma palavra do dicionário de Tezinho. Ocorre que Tezinho virou um secretário dedicado e não rinha um dia que não aparecesse nas redes sociais. Sua dedicação virou ostentação. Fazia questão de ir a todos os eventos só para ouvir o locutor anunciar seu nome e o cargo. Era quase um orgasmo!

Visitando uma escola no povoado Jurema, foi arrebatado pelo olhar de um garoto do 9º ano. Passou a frequentar mais a escola daquele lugar. Praticamente transferiu o seu gabinete para o povoado. O diretor da escola procurava entender aquela atitude. Assistia aos rompantes de deslumbre do secretário, com o celular na mão e postando feitos nas redes sociais. Foi aí que o diretor percebeu que ele postava muitas fotos e vídeos com um dos alunos do 9º ano, aquele mesmo que chamou sua atenção. Passou o diretor a reparar melhor e desconfiar mais. Um dia, o carro escolar estava atrasado porque um aluno estava faltando. O diretor foi procurar nas salas e as faxineiras disseram que o secretário conversava com Vinícius Abreu, do 9º ano. Quando se aproximou da sala, Tezinho abria a porta e dizia para correr e não perder o ônibus. E ainda disse ao diretor:

– Esse menino é inteligentíssimo.

Daquele dia em diante, o diretor da Escola do povoado Jurema passou a interrogar o garoto, sem que causasse um escândalo e prejudicasse a imagem da escola como um todo. Depois de sutilmente pedir a Vinicius Abreu que poderia relatar o que tanto conversa o secretário com ele, o garoto abriu o jogo. Era puro assédio sexual. Prometia presentes, viagens para que os dois pudessem ter um momento a sós. Chegou a sugerir que ele faltasse aula para o encontro. O garoto só dizia que ia pensar para não gerar confusão e ainda não tinha coragem de dizer não, porque era isso que iria acontecer uma hora.

Castro, o diretor da escola agiu em silêncio. Foi conversar com o prefeito e relatou o fato, logo depois que orientou o menino a dizer que contaria tudo ao diretor se Tezinho não parasse com o assédio. Assim que o secretário deixou de comparecer à escola de Jurema, Castro resolveu agir. Em menos de 15 dias, o prefeito mandava publicar a exoneração do secretário. Interrogado para revelar o motivo, o prefeito disse que era para oxigenar a administração, que o secretário já tinha feito um bom trabalho, mas pediu para sair. Tezinho continuou ostentando nas redes sociais e dizia que saiu porque  o diretor da escola de Jurema era um invejoso.

– Ele vai ter que crescer muito para chegar aos meus pés. Ele só foi nomeado no meu lugar por ser puxa-saco de prefeito. Dizia em alto e bom som o professor Tezinho.

E a coisa ganhou dimensão de fofoca global. Era o assunto predominante onde quer que houvesse alguém falando sobre a vida em Silopoilé. Castro tinha que acabar com aquilo. Estava atrapalhando seu trabalho e interferindo na aprendizagem em todo o município. Não poderia desmascarar a farsa porque prejudicaria o adolescente envolvido.  Vendo a coisa aumentar, resolveu agir. Numa entrevista na Rádio Mundial, no município vizinho, resolveu dizer que o secretário anterior havia sido demitido por praticar assédio. E omitiu o resto. A notícia caiu como uma bomba e Tezinho virou uma fera. Imediatamente abriu um processo contra Castro, alegando difamação.

Meses depois, a caso é julgado em Cícero Dantas e o juiz manda arquivar o processo. Tezinho, inconformado, apela ao irmão, a um deputado, ao desembargador amigo do deputado da região e o processo é reaberto. O juiz de Cícero Dantas, mais uma vez, não vê crime e inocenta Castro. Tezinho recorre e leva o processo para Salvador. Lá, finalmente, uma juíza encontra crime de difamação e condena o professor Castro a 4 meses de prisão. Como tinha bons antecedentes, sua pena foi transformada em pagamento de 30 dias multa.

As redes sociais foram inundadas por nova onda de ostentação. Tezinho exibia sua condição de vítima da difamação de um invejoso. E arrotando justiça pelos poros, anunciava novo processo, desta vez para reparar o que sofreu, exigindo uma indenização altíssima. E assim, em Silopoilé, descobriu-se que não era preciso ter ética para vencer — bastava ter brilho.

Imagem-destaque: Vecteezy

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