Conto

O professor condenado

Podiam falar o que quisessem sobre o professor Joãozinho, mas em uma coisa todos concordavam: não havia brasileiro que acreditasse mais no Brasil que ele. No Brasil, não! Na Bahia. Para ele, o país começou pela Bahia. Tudo o que tínhamos na pátria era fruto da existência baiana. Torcedor ferrenho do Esporte Clube Bahia, quando o seu tine do coração não disputava uma partida ou campeonato e havia um time baiano, lá estava ele gritando:

– Não é o Bahia, mas é da Bahia.

Poucos entenderam quando ele ficou triste quando o Vitória perdeu a final do campeonato brasileiro para o Palmeiras. Em sua casa havia livros sobre escritores baianos, muito além de Jorge Amado. Alguém lançava um livro sobre a história da formação do lago de Sobradinho, ele logo queria saber a origem do escritor. Se fosse baiano, era compra na certa. Sabia a história do estado de ponta a cabeça, seus heróis e seus vencidos. Tinha sempre uma justificativa pronta para um insucesso ou fracasso de um conterrâneo, desde a inveja até a injustiça.

Joãozinho era um homem simples, de vida simples. Seu único luxo era ser um Policarpo Quaresma do interior. Morava em Cícero Dantas numa casa encravada na Serra do Boqueirão, parte onde a cidade crescia. Chegou por ali porque seu pai, o velho Ernestinho, foi a uma procissão de São Sebastião na cidade de Poço Verde e lá se encantou com o sorriso meigo de sua mãe Dorinha. Morreram juntos, velhos, carcomidos pelo tempo e jazem unidos na morada eterna em Cícero Dantas. Para ele, que nunca quis se casar, apesar de um caso ou outro, restou aquela casa, o consolo de uma viúva amiga e moradora em um sítio na estrada da saída para Fátima e sua paixão pelas coisas da Bahia e do Brasil.

Joãozinho era professor. Funcionário da prefeitura de Cícero Dantas, ensinava Geografia. O salário dava para cobrir suas despesas e, vez ou outra, fazer uma viagem com sua viúva, no seu Corolla, ano 2008, cuidado como se fosse novinho em folha. A última viagem feita foi a Cachoeira e São Félix. Ficava deslumbrado contando a Carmelita, sua viúva, as histórias da formação das duas cidades. Visitou ainda Muritiba, Belém de Cachoeira e Carmelita ficava encantada de como aquele homem era apaixonado pelas coisas da Bahia. A viagem de sete dias foi um colosso para Carmelita.

Um dia, depois de contornar o cruzamento da BR 110, um carro trafegava em alta velocidade pela rodovia BA 220 com destino a Fátima. Cerca de um quilômetro depois, o carro desgovernado invadiu o sítio de Carmelita, arrebentava com o muro da frente e foi parar no rol da casa, fazendo desabar o alpendre. Carmelita lavava roupas no fundo da casa quando ouviu o estrondo. Correu para ver o que era e viu um home forçando a porta de uma camioneta branca. Estava ferido e ela ficou preocupada com o estado dele, além de pasmada com todo aquele estrago. Tentou ajudar o homem e logo percebeu que ele estava bêbedo.

– Moço, como é que o senhor tem a coragem de beber e dirigir nesta velocidade, colocando as pessoas e sua própria vida em perigo?

A resposta foi demasiadamente cruel:

– Vá dar esporro na puta que a pariu, sua cabrunca!

Meteu a mão num revólver que trazia na cintura e atirou na cabeça. Carmelita não teve tempo de lamentar. O homem saiu cambaleando, pegou uma carona na estrada, enquanto pessoas se aproximavam do local da tragédia. Não demorou muito para que a cidade soubesse do ocorrido. Rádios locais difundiam a notícias e procuravam respostas. Logo descobriram que o motorista da camioneta Hilux do acidente era Camilo Dantas, filho mais velho do prefeito da cidade, que estava foragido. E uma pergunta tomou conta das redes sociais? Qual o motivo de ter Camilo atirado em Carmelita?

A tragédia pegou Joãozinho em cheio. Deixou-o sem chão. O que sua namorada tinha feito de mal com Camilo? Tentou entender de todas as maneiras. Era apenas uma viúva que morava sozinha. As duas filhas viviam em São Paulo, casadas e com as vidas feitas. Não seria motivo político porque Carmelita era eleitora do prefeito. Não demorou muito para que Joãozinho soubesse que não havia motivo que justificasse aquilo tudo. Foi apenas um ato de irresponsabilidade de um jovem bêbado ao volante, que tentou testar os limites do veículo e se deu mal. Irritado com a situação e desacostumado com repreendas, sacou a arma e matou a mulher. Motivo fútil.

O tempo passou e o caso dormia calmamente na fase de apuração. As filhas de Carmelita vieram para Cícero Dantas umas três vezes para tentar acelerar o caso na delegacia e as respostas que receberam foram as mesmas.

– Estamos apurando o caso. O processo está em fase de investigação.

Cinco anos depois, Joãozinho percebeu que nada seria apurado se não fosse feito algo. Foi conversar com um advogado, que não se interessou pela peleja.

– Joãozinho, você está na Bahia. O pai de Camilo foi o prefeito da cidade e acabou de se eleger deputado estadual. Você acha que este caso vai andar?

– Mas e a Justiça? As leis? A Constituição? Tudo isso é ficção? Os poderosos podem fazer seus crimes e não pagarem por isso? É isso que o senhor está me dizendo?

– A questão, Joãozinho, é a política. A justiça baiana está nas mãos dos políticos.

Mesmo ouvindo tudo aquilo, Joãozinho não se deu por vencido e foi ao Ministério Público. Várias vezes bateu na porta até finalmente ser atendido pelo promotor.

– Mas não há nenhuma testemunha que viu Camilo atirar em Carmelita. É preciso ter provas!

– Alguém fez o exame balístico? A bala na cabeça de Carmelita foi recolhida para análise?

O promotor ficou sem respostas. Joãozinho então voltou ao advogado.

– Vou entrar com o pedido de exumação do cadáver, mas isso vai ter um custo – disse o advogado.

Joãozinho tinha algumas economias e tirou uma parte para que o advogado começasse a trabalhar. Seis anos depois do trágico acontecimento, o corpo de Carmelita foi exumado e a bala estava alojada no seu crânio. Quando tudo parecia caminhar para uma solução, o delegado de polícia se disse suspeito de seguir no caso e o processo foi transferido para delegacia regional de Ribeira do Pombal. Essa transferência durou três anos. Um ano depois, o inquérito estava concluído. Finalmente haveria justiça e o processo foi para a Vara Crime de Cícero Dantas. Marcado o julgamento, as filhas de Carmelita vieram de São Paulo para finalmente assistirem ao fim da novela e ver Camilo Dantas condenado. Seguiram para o fórum ao lado de Joãozinho, orgulhosos de sua luta. No átrio do prédio da justiça, encontraram o advogado, com cara de poucos amigos.

– Não haverá julgamento, Joãozinho. A defesa de Camilo entrou com uma anulação do processo por prescrição. Quando ele matou Carmelita, estava com 20 anos e, no Brasil, crimes cometidos por pessoas até 20 anos prescrevem com 10 anos. Há um mês atrás o crime prescreveu.

Naquele mesmo ano, Camilo se candidatou a prefeito de Cícero Dantas e venceu as eleições. Joãozinho fez de tudo para que aquilo não acontecesse, inclusive apoiando o candidato adversário. Nos comícios, chamava Camilo de assassino.

– A Justiça não o alcançou, mas você, Camilo, é um assassino!

Foi processado pelo candidato. Logo depois de eleito, o prefeito anunciou que havia vencido os processos contra Joãozinho por ter tido sua honra ofendida e venceu na Vara Cível e na Vara Crime, esta, inclusive, com o parecer favorável do Ministério Público de Cícero Dantas. Teve que pagar uma indenização de 20 mil ao ofendido e passaria seis meses na cadeia, mas a pena foi convertida na distribuição de cestas básicas à Maternidade Bom Conselho.

Hoje, Joãozinho conseguiu se aposentar e vive bêbado pelas ruas de Cícero Dantas a gritar:

– Cambada de cabruncos! Tudo bandido! Brasil, Bahia! Tudo bandido! Cambada de descarados! Tudo bandido!

Se alguém para a interrogá-lo:

– Quem são estes bandidos, Joãozinho?

– Não digo! Eles querem me prender! Eles me processam! Não digo!

(Landisvalth Lima – do livro Contos levemente amaros – Inédito)

2 comentários sobre “O professor condenado

  • Uma ótima leitura, uma forte crítica ao sistema! Parabéns ao escritor Landisvalth por nos presentear com essa ótima obra prima local!

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *