O quinto paciente

O comportamento correto de quem está contaminado pela Covid-19 ajuda no controle da pandemia (foto: Ascom.MS)

Foi só surgir o 1º caso em Heliópolis para que a metralhadora giratória da Covid-19 fizesse seu estrago. Foi assim em Poço Verde, Fátima, Cícero Dantas, Ribeira do Amparo, Ribeira do Pombal e em quaisquer municípios ou lugarejos espalhados neste mundo de meu Deus! A gripezinha já contaminou 10 milhões de pessoas no planeta. Chegaremos hoje a ultrapassar a barreira de 500 mil mortes. É um número gigantesco. Poucas foram as doenças, na história da humanidade, a matar tanto em tão pouco tempo. Sobre os contaminados, é como se ficassem doentes 3 cidades do tamanho de Salvador, 70% por cento da população da Bahia ou metade da grande São Paulo. Destes contaminados, cinco estão em Heliópolis. Em particular, o quinto paciente chama atenção.

Não tenho aqui autorização para revelar seu nome, mas posso dizer que é um profissional da área de saúde. Há cerca de vinte dias dormiu ao lado de um colega de trabalho, num ambiente pequeno, com ar condicionado ligado, por cerca de 8 horas. No dia seguinte, o colega de sono testou positivo para Covid-19. Preocupado, o nosso quinto paciente procurou logo as autoridades médicas e relatou o acontecido. Fez teste rápido e deu negativo. Sabendo que não era normal o que já começava a sentir, procurou novamente os médicos e disse o que estava acontecendo fora do normal. Fez o teste tipo PCR, foi afastado e ficou aguardando em casa. Dez dias depois chegou a confirmação. Estava com a doença. Sua consciência e expertise evitou que contaminasse muitos, inclusive membros de sua família, que foram testados e todos tiveram os resultados negativos.

Provavelmente o nosso quinto paciente já está curado. É provável que ele não sofra mais nada e não precisará usar a rede pública hospitalar. Deve ficar mais uma semana em casa até voltar a trabalhar, mesmo porque tudo é novo quando se trata da Covid-19. O comportamento dele contrasta com outros pacientes que, muitas vezes, por não sentirem nada além do que os efeitos de uma gripezinha, não pensam que há pessoas ao seu derredor. É o mesmo comportamento do nosso presidente que, até esta data, a única manifestação de solidariedade pelos já quase 60 mil mortos foi o lamento de uma sanfona numa live. Sair por aí sem uso de máscara e não se prevenir não são comportamentos apenas de cuidado individual, mas de também preocupação com o outro.  

O comportamento do nosso quinto paciente chama atenção porque vivemos na época do culto ao ódio. Não há mais o culto do respeito ao outro. Se você critica, recebe de volta ofensas das mais absurdas; se você aconselha, recebe de volta um não se meta em minha vida; se se ajuda; recebe de volta o escárnio. A convivência está cada vez mais difícil, mesmo que o convívio seja numa sociedade cada vez mais aberta e plural. Religiosos enaltecem o nome de Cristo, mas ferem com a espada o deus do outro; em nome da família e da honra, mata-se aquele que discorda do que foi pregado; o esquerdista quer a morte do direitista, e a reciprocidade é verdadeira, mesmo vociferando contra a corrupção, contra o arbítrio e a favor de uma sociedade com ordem e liberdade.

O nosso quinto paciente provou que não há necessidade de cair em desespero ou de sair por aí com a ideia de que já está com o mal mesmo, os outros que se lasquem! Ninguém necessita do ódio para viver. Não é demais desejar bem ao outro. É um ato de inteligência. Ninguém vive bem numa sociedade que dissemina o ódio ao outro. Ao insistir em fazer outro exame para ter certeza de que estava bem, o quinto paciente pensou na família, nos amigos, nos vizinhos e em si. Tanto foi que se isolou, sem causar pavor nenhum. Protegeu a si e aos outros. Há pessoas que, a pretexto de justificar sua irresponsabilidade, entrega tudo nas mãos de Deus, esquecendo que o Superior só nos dá uma mãozinha quando fazemos a nossa parte.

Embora o prefeito Ildinho tenha pregado otimismo, apesar da luta árdua e dedicada dos profissionais de saúde de Heliópolis nestes 100 dias, a gente sabe que será difícil parar por aí. Poderemos sim ter mais casos. Talvez tenhamos casos que jamais serão descobertos. Entretanto, caso venham a existir, precisamos de um comportamento igual ao do nosso quinto paciente. É preciso entender que vivemos em sociedade. Pessoas cuidam de pessoas. Isto aqui é uma coletividade. Neste momento, o distanciamento social é a melhor maneira de ajudar a si e ao outro. Cuidar de sua saúde também é um gesto de amor a si e ao próximo.   

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

Deixe uma resposta