O Rio está na UTI, morrendo de corrupção!

O ex-juiz e ex-esperança no combate à corrupção no Rio de Janeiro (foto: Jovem Pan)

Foi assim que o juiz Sérgio Moro encerrou seu artigo “Bons exemplos”, na revista Crusoé: “… não podemos desistir de fazer a coisa certa sempre.”. O ex-ministro, do ex-governo Bolsonaro comprometido com o fim da corrupção, foi buscar na luta contra a máfia italiana os personagens que agiram, no discurso e na prática, contra a Cosa Nostra. Só que aqui, os nossos políticos, apesar de muitos bradarem contra a malversação do dinheiro público, uma vez eleitos, não só não agem para tentar sanar o problema como acabam realimentando a prática de assalto ao estado. O afastamento de Wilson Witzel do governo do Rio e a prisão do Pastor Everaldo são exemplos disso.

O governador do Rio de Janeiro, afastado nesta manhã, tenta emplacar o velho discurso da perseguição política. Também aponta o dedo colocando senões nos investigadores e no juiz do caso, mesmo jogo feito pelo Partido dos Trabalhadores. Entretanto, as operações Favorito e Placebo, iniciadas em maio, foram robustecidas pela delação de Edmar Santos, ex-secretário de Saúde do Rio. As provas são cabais, vastas e convincentes. Witzel foi mais uma farsa, mais um carrapato a sugar as combalidas finanças de um estado que já não se escandaliza mais com as corriqueiras notícias de milhões desviados para o esgoto da corrupção.

E tudo teve a ajuda substancial do novo coronavírus. A descoberta do esquema criminoso começou com a apuração de irregularidades na contratação de hospitais de campanha para o enfrentamento da pandemia. Os procuradores do Ministério Público Federal afirmaram que o governo do Rio criou um esquema de propina para a contratação emergencial e para a liberação de pagamentos a organizações sociais que prestam serviços ao governo. Havia uma relação perigosamente suspeita entre Helena Witzel, esposa do governador, e as empresas do já famoso enrolado Mário Peixoto. Este empresário é conhecido fornecedor de serviços a vários governos do Rio, inclusive no de Sérgio Cabral.

Não há nada de novo no esquema. É o mesmo modus operandi: direcionamento de licitações de organizações sociais em troca de propina. Foi assim com os governadores anteriores e está sendo com Wilson Witzel. Os contratos não se limitavam aos hospitais de campanha, mas se espalhavam pelas secretarias de Saúde e Educação do estado. Mário Peixoto era o verdadeiro dono de várias empresas e organizações sociais com contratos milionários com o governo do estado. Witzel tinha participação ativa nos esquemas. Vários e-mails trocados entre o governador e outros investigados comprovam as suspeitas.

A propina que Witzel recebeu de Peixoto, entre março e maio, foi de 554 mil reais, e foram repassadas por meio de pagamentos ao escritório de advocacia da primeira-dama, Helena Witzel. Já o Pastor Everaldo era o real comandante da Secretaria de Saúde do Rio, sempre em diálogo constante com o Palácio Guanabara.  As declarações de Edmar indicam que, no dia anterior ao início de uma das operações, o governador repassou 15 mil reais em espécie ao Pastor Everaldo.  

O Rio de Janeiro vive um caos e está na UTI doente de corrupção. Como se não bastasse, milicianos, pastores evangélicos, ladrões de toda a espécie se aproveitam para se locupletarem do sangue que ainda circula em suas veias. Aos políticos caberiam diagnosticar o remédio da prosperidade, mas praticam as rachadinhas, alimentam o propinoduto e semeiam o vitimismo. A Cidade Maravilhosa e seu Cristo Redentor choram envergonhados e sonham ainda aparecer um grupo de cariocas decididos a estagnar a sangria. O problema é voltar a acreditar numa nova proposta, se até mesmo um juiz federal, acima de quaisquer suspeitas, eleito com o discurso de acabar com a violência e corrupção, não conseguiu resistir ao dinheiro fácil dos velhos esquemas e falcatruas. Witzel não conseguiu fazer a coisa certa.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

Deixe uma resposta