O sinal está fechado para nós

Mesmo o povo indo para as ruas, no fim, são os poderosos temporários que decidem o nosso destino (foto: Guilherme Santos)

Nunca antes na história deste país tivemos um momento tão delicado, uma espécie de linha divisória entre o antes e o depois. O Brasil precisa decidir o que quer. Ou continua seu caminho cômodo do manda quem pode e obedece quem tem juízo ou segue a máxima constitucional de que todos são iguais perante a Lei.

Em palavras bem didáticas, o Brasil terá que escolher se nós devemos condenar o sujeito que matou sua esposa, após dois anos de dolorido processo, ou se temos que anular a condenação porque uma das testemunhas, que filmou toda a cena de assassinato, era amante do assassino e poderia estar agindo de forma vingativa. Em nome do legítimo direito de ampla defesa, mesmo com a cena de assassinato registrada em alto e bom som e com imagens nítidas e de qualidade, procura-se sempre uma artimanha, uma saída, um senão para não condenar o malfeitor.

O formalismo no direito é um câncer encravado na Justiça brasileira. É usado por aqueles que podem pagar bons advogados. No mínimo, funciona como processo protelatório a caminho da prescrição do crime. O emaranhado de leis no Brasil só beneficia os criminosos de colarinho branco. A Lava Jato está na berlinda porque ela caminha para colocar bandidos de alta patente na cadeia. Já temos ex-ministros, ex-governadores, ex-presidentes, ex-juízes e outros mofando nos porões das cadeias. Agora a operação bate à porta de togados do Supremo. O dedo toca o centro do ferimento.

Neste país abençoado, as coisas só funcionavam quando o mal feito é do alheio. Agora que a Lei está atirando em todas as direções, assistimos a um ineditismo: os que têm rabo de palha se unem para apagar o fogo. É verdade que ainda há resistências, mas não será mais surpresa para ninguém um grande acordo envolvendo Rodrigo Maia, Dias Toffoli, Davi Alcolumbre, Augusto Aras, Jair Bolsonaro. Ou seja, anulam-se sentenças, malfeitos são esquecidos em nome da harmonia entre os poderes e do progresso do país. As cúpulas do PT, PSDB, MDB, PP e outros serão os grandes beneficiados. Também contra os filhos do presidente e seus aliados nada mais haverá.

E o momento é oportuno para acordos espúrios como este. Há dois lados nitidamente sujos tão quanto pau de galinheiro. Por outro lado, há duas torcidas nas arquibancadas completamente cegas, carregadas de ódio e ideologia. De um lado afirmam que Lula é preso político e do outro veem Jair Bolsonaro como um mito, só para ficar nestes exemplos. Como ninguém quer não ter razão, estão a meio caminho de um acordo. Agora restará apenas apagar a parte da Constituição que os coloca como malfeitores.

Para enganar o povo, teremos uma nova Previdência, um novo Código Tributário, talvez até um Pacto Federativo e, quem sabe, um novo Código Eleitoral com regras mais duras e quiçá justas. Tudo isto reacenderá nossas esperanças, acreditando vencer o dragão do subdesenvolvimento. Esconderemos debaixo de novos lastros, cimentados pelo acordão sobre um mar de lama, onde chafurdavam falsos socialistas, falsos direitistas e célebres oportunistas, a memória da luta de um povo que, da arquibancada, sempre vê os poderosos temporários vencerem.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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