O sonho de um Brasil próspero está mais distante

             Eles venceram/ E o sinal está fechado para nós/ Que somos jovens!(Belchior)

“Mas se depois de cantar/ Você ainda quiser me atirar/ Mate-me logo, à tarde, às três/ Qua à noite eu tenho um compromisso/ E não posso faltar/ Por causa de vocês! (Belchior)

Operação Lava Jato está sendo destruída (foto: IstoÉ)

As duas figuras mais representativas no combate à corrupção endêmica no Brasil foram abatidas. Estão vivas, mas feridas de quase morte. Sérgio Moro foi ludibriado pelo presidente Jair Bolsonaro e não tem mais o cargo que poderia garantir vida longa à Operação Lava Jato. O Ministério da Justiça e Segurança Pública foi um cometa que passou, sem perspectiva de iluminar a noite em que vivemos por anos. Agora, abatido pelos petardos do baiano da PGR, Augusto Aras, o coordenador da Lava Jato jogou a toalha. Deltan Dallagnol justificou questões de tratamento de saúde na família, mas até nossos antepassados mortos sabem o motivo real: os corruptos estão dominando tudo. Recuar agora é a melhor estratégia, porque a batalha está perdida.

As ações que colocam a Lava Jato num beco quase sem saída são de personagens poderosos. No STF temos Gilmar Mendes, Dias Toffolli e Ricardo Lewandowski. No Congresso, além de parte substancial da esquerda, há o centrão e todos aqueles que, de alguma maneira, caíram na rede de arrastro da operação. No Senado, embora em minoria, controlam a mesa diretora e os principais partidos temerosos do avanço do civilismo pelo fim de privilégios, como o Foro da elite política. A PGR recebeu o reforço de Augusto Aras, o implacável perseguidor dos caçadores de corruptos, motivado por sua nomeação fora da lista tríplice e a possibilidade de uma cadeira no STF. Além de desembargadores e juízes de notório saber, a Lava Jato tem contra si o mais indignado dos homens contra o politicamente correto, que foi eleito no rastro do combate ao câncer que devora nossas parcas receitas, que é a corrupção: Jair Messias Bolsonaro. Um homem de família. Prova disso é que, para salvar a si e aos filhos, salvará mesmo até Lula e se unirá àquilo que tanto condenou.

Enquanto fechava este artigo, o portal O Antagonista informou que sete integrantes da força-tarefa da Lava Jato em São Paulo pediram a Augusto Aras demissão coletiva. Guilherme Rocha Göpfert, Thiago Lacerda Nobre, Paloma Alves Ramos, Janice Agostinho Barreto Ascari, Marília Soares Ferreira Iftim, Paulo Sérgio Ferreira Filho e Yuri Corrêa da Luz apontaram sérias divergências com a procuradora Viviane de Oliveira Martinez, que é a responsável pelas investigações no estado. Ela, certamente, não quer a prisão de notáveis. A Operação Lava Jato de São Paulo será esvaziada agora em setembro. Em breve teremos mais notícias de renúncias.

Do lado de cá, desnorteados com a pandemia, estamos nós, meros números entre os 211 milhões de seres que sonham com uma pátria educadora, amada, de todos, generosa e mãe. Muitos nem percebem que estamos pior que antes da era Lula, tanto na economia como na incansável busca de um patamar aceitável de moral, honra e dignidade. Somos uma nação encantadora e dócil com a corrupção, rica e predadora das possibilidades, generosa e serviçal com os poderosos, mestiça e preconceituosa com minorias, mística e permissiva com os exploradores da fé. A inteligência, a ciência e o conhecimento acumulados só têm serventia quando pavimentam o solo por onde passam os poderosos de sempre, mesmo que mudem as cores partidárias ou os instrumentos da orquestra de poder.

E sei que este artigo será lido até aqui por meros, talvez, 22 leitores. Estão saturados com notícias de tanta corrupção. Já nem dão mais manchete. E é exatamente isso que os corruptos querem: A exaustão do povo e o silêncio dos bons. Entretanto, quando perceberem que sua rua está na lama, o esgoto entupido, a escola sem qualidade, o posto médico sem remédio, seu salário uma desgraça, sua cidade com a podridão nas ruas, o asfalto desaparecido ou esburacado, a água nada potável, a energia caríssima, os impostos cada vez mais famintos, os votos negociados na esquina da rua, políticos desfilando em carros importados ou pousando na internet tomando aquele uísque envelhecido por breves 24 anos… Reflitam. Não saiam por aí a dizer que todos os políticos são ladrões e que política é assim mesmo. Lembrem aqueles que ousaram desafiar corruptos de todas as classes sociais e partidos, que sucumbiram não apenas pela ação orquestrada de todos eles, mas, principalmente, pelo nosso silêncio e inação.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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