Os extremistas e a disseminação do ódio

Logo após a 2ª Grande Guerra Mundial houve uma grande união para a reconstrução do mundo. Comportamentos foram revistos, teorias foram revistas e o mundo respirou paz por algum tempo. Acho que será difícil uma 3ª Grande Guerra Mundial por motivos semelhantes ou próximos daqueles que motivaram as anteriores. Mas, se houver, a Internet contribuirá para jogar mais lenha na fogueira. Vivemos, pois, uma guerra de ideologias extremas, ou falsas ideologias que se impõem como verdades. E para desespero nosso, os extremos, juntos, formam uma maioria sólida no Brasil. Um perigo que requer ações imediatas.

O problema está na missão impossível de tentar convencer pessoas. Ninguém faz isso e não é aconselhável. As pessoas são produto de sua cultura e o conjunto de tudo que fazemos é que determina a sociedade que teremos. Ninguém convence ninguém porque todos têm suas convicções. Lula não tem seguidores porque ele os manipulou, mas porque é produto de uma cultura e conseguiu captar o momento. Bolsonaro é apenas o instrumento de uma facção social que está lá para fazer o que aquele grupo acredita que é certo. É apenas luta pelo poder.  

Precisamos parar de nos apaixonar por pessoas, facções ou partidos. Precisamos ser adeptos de princípios. Não deixar roubar, não governar em causa própria, seguir sempre o que manda a Constituição. Simples. É inútil ficar nesta discussão interminável de esquerda ou direita. Vamos lutar pelos princípios. Só sairemos deste caos assim. Só perceberemos estes equívocos quando o processo cultural permitir. Os transformadores ou iniciadores das ações de um novo tempo precisam encontrar uma brecha no tempo para iniciar o processo de transformação. Estará logo ali, no fim da pandemia. E precisamos começar pelos que têm educação, porque não vamos a lugar algum com a ignorância. Se com os educados já é tarefa hercúlea, imaginem com os que lutam apenas para adquirir o pão nosso de cada dia, sem tempo para educar e educar-se.

Enquanto isso o ódio continua a disseminar seu veneno pelo terreno fértil das redes sociais. Dia deste, o Contraprosa publicou um vídeo sobre a quarentena em Cícero Dantas. Mostrava que uma quantidade considerada de pessoas não seguia as normas. Para colocar chamada nas redes sociais, usamos uma foto de 2019 da Igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho, símbolo maior do município. Antes mesmo de assistir ao vídeo, vários internautas criticavam dizendo que a fato era antiga. Um chegou a dizer que ela tinha 40 anos. Poucos assistiram e fizeram críticas aceitáveis. A internauta Loide Matos ficou irritadíssima quando percebeu que as pessoas não tinham acessado o conteúdo e não se conformava ante aquilo tudo. Esta é a diferença dos seres transformadores: não se conformar nunca diante de uma realidade injusta.

Mas são poucos os transformadores quando as ações injustas lhes beneficiam ou são produto do seu campo ideológico. É preciso ter a capacidade de entender o todo para não ser engolido pela parte. Aqui convoco Machado de Assis e o seu conto “Ideias de Canário”. O canário estava preso numa sala de belchior. Seu dono descobriu que o canário falava e perguntou a ele o que era o mundo. Uma loja de belchior, respondeu o canário. Um dia o dono levou o passarinho para o quintal e lá ele passou o dia inteiro. Ao final do dia, foi-lhe perguntado mais uma vez o que era o mundo. O canário disse que era um quintal ao fundo de uma loja de belchior. Semanas depois, acidentalmente, foi deixada a porta da gaiola aberta e o canário voou para bem distante. O homem ficou triste por perder seu pássaro amigo. Tempos depois, andando por lugares a ermo, o homem viu um canário parecido com o seu. Era mesmo ele no alto de uma imensa árvore. Ele então perguntou o que era o mundo e o canário disse que era uma imensidão de montanhas, vales, mares, rios, cidades para que os livres pudessem usufruir.

Paradoxalmente, hoje temos o mundo dentro de casa para praticarmos a liberdade, mas adotamos as amarras das mesquinharias ideológicas. Mesmo com o avanço tecnológico, temos dificuldade de nos comunicar como membros de uma civilização. Procuramos bandeiras para nos proteger e verdadeiros canalhas se escondem atrás da bandeira do nacionalismo, do socialismo, do banditismo ou do simples uso de uma arma, ou da ostentação de um carro importado. Costumo dizer a meus alunos que o nacionalismo daqueles que vão ao estádio de futebol, com a bandeira do Brasil sobre seus ombros, é mais puro, que o de grupos, quando usam o símbolo nacional para vender uma ideia genocida ou para defender interesses políticos. Um dia fiquei atônito num debate. Estavam lá homens e mulheres que queriam transformar o Brasil, mas não cantaram o Hino Nacional Brasileiro, mas o hino da 4ª Internacional. Fico ainda atônito quando vejo jovens universitários desfilarem com orgulho a camiseta com Che Guevara, Fidel Castro, mas nunca sabem sobre Irmã Dulce ou Bárbara de Alencar. Hoje, assisto em quarentena a imagem do presidente da república que ainda não se comoveu com tantos mortos. Não ouvi um lamento sequer sobre mais de 50 mil infectados, mas até hoje e irrita porque não sabe quem foi o mandante da facada que o elegeu.

Enquanto isso, os extremos se impõem. Com a saída do cargo do ex-ministro Sérgio Moro, a Internet virou praça de guerra. Como o ex-juiz da Lava Jato foi implacável com os dois extremos, virou saco de pancada de Lulistas e Bolsonaristas. Sérgio Moro chegou a publicar no seu twiter: “Verdade acima de tudo. Fazer a coisa certa acima de todos”. Nem o ex-presidente Lula facilitou, mesmo sabendo que o juiz será fundamental para o impeachment de Bolsonaro. Como sempre, criou uma teoria absurda ao afirmar que Bolsonaro é uma cria de Moro. Portanto, “Mensalão” e “Petrolão” foram coisas da cabeça de Moro, em associação criminosa e bandida com a Rede Globo. Deixou bem claro que os dois são bandidos. Foi só Lula espalhar suas ideias, logo elas já estavam em todo o país. E o que não se entende é que os difusores, ou multiplicadores, não são inocentes inúteis. Muitos tem diploma, talento e conhecimento de sobra. Exemplo é este texto publicado por um professor da cidade de Fátima. O cara é poeta de mão cheia, um dos melhores que já li. Pai exemplar, marido idem, professor extraordinário. No texto, chama Bolsonaro e Sérgio Moro de ladrões. A afirmação está no título da obra. Ao longo do texto, imaginava que provaria o que dizia. As explicações sobre Bolsonaro ainda não são suficientes para chamá-lo de ladrão, mesmo com as suspeitas de envolvimento com milicianos. Patético foi ler os mesmos argumentos de Lula na acusação contra Moro. Vazamento de informações dos processos da Lava Jato como argumento para chamá-lo de ladrão. Dá para imaginar como ele deve chamar Lula, chefe-mor de todos o esquema de corrupção. Comentei várias vezes sobre o texto e não houve mudança de opinião. Alegou, entre outras coisas, que o objetivo era mostrar que Moro não era herói. Nisso concordamos, mas não estava isso no texto como ideia principal.

Para não cansarmos muito o leitor, vamos para um outro texto. A deputada Joice Hasselman publicou nas suas redes sociais um texto da advogada Rosângela Moro, esposa do ex-ministro Sérgio Moro. Um texto bem elaborado e voltado para a continuidade da luta do marido, mesmo com os ataques nas redes sociais. Disse que o pedido de demissão era a única saída. Joice mostrou-se aliada da causa. Foram mais de 30 mil likes e mais de 10 mil comentários. O que faziam os bolsonaristas? Como o texto não ofende ninguém e está bem concatenado, resolveram falar sobre frutas, verduras, exercícios físicos, remédios etc. Um ou outro, ao criticar, soltavam palavrões impublicáveis contra Joice, Moro e Rosângela. Há também comentários elogiosos, mas deu para medir o nível. E não há muitos ali sem educação, não. Há diplomas de nível superior, com pós graduação, mestrado, doutorado, muita altas patentes, pessoas que circulam por Rio, Brasília e São Paulo em seus Mercedes, Range Rovers, BMWs e afins.

O extremismo não escolhe classe social. Está mais próximo de um vírus que entorpece o nosso raciocínio e não nos permite ver. Passamos a enxergar o que queremos ver, não importa se fora de ética ou de padrões morais aceitáveis. Isto não é novo. É fácil lembrar de uma frase, hoje copiada pelos extremistas: “Torne a mentira grande, simplifique-a, continue afirmando-a, e eventualmente todos acreditarão nela.” Seu autor é o filósofo secreto dos extremistas: Adolf Hitler.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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