Os terrivelmente crentes!

João de Deus, Flordelis e padre Robson num país de fervorosos crentes (foto: Revista Fórum)

Eram 3 horas e 3 minutos da manhã de um domingo, 16 de agosto de 2019, no Rio de Janeiro, quando a deputada federal Flordelis usou o código “oito e quinze me chama”, senha para iniciar o plano de assassinato do pastor Anderson do Carmo. As várias tentativas de matá-lo envenenado não deram em nada. Agora teria que ser na bala. Sua filha adotiva Marzy Teixeira da Silva iniciou o processo e acionou o filho biológico de Flodelis. Meia hora depois, 30 tiros ceifaram a vida do ex-filho adotivo, ex-genro e, agora, ex-marido da deputada Flordelis. Todos os que participaram da trama de assassinato estão presos, menos a deputada porque ela tem foro privilegiado.

João Teixeira de Farias, o goiano de Cachoeira de Goiás, conhecido no mundo inteiro por João de Deus, ou John of God, é médium curandeiro, empresário e escritor. Reverenciado por políticos como Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Bill Clinton e Hugo Chávez, pelo psicoterapeuta Wayne Dyer, pelo humorista Chico Anysio, até apresentadora Xuxa e os atores Marcos Frota, Shirley MacLaine e tantas outras figuras famosas. Era tido por todos como um quase santo. No ano de 2018, João de Deus foi acusado de abusar sexualmente de mais de 300 mulheres. A Justiça de Goiás ordenou prisão preventiva em 14 dezembro de 2018. Dois dias depois de ser considerado foragido, entregou-se à polícia. Até aqui se sabe que 330 mulheres foram molestadas. João de Deus foi condenado por crimes sexuais, falsidade ideológica, corrupção de testemunha, coação e posse ilegal de armas de fogo e munição. Pegou 19 anos de prisão. Em 30 de março de 2020, a justiça concedeu prisão domiciliar, em razão da pandemia da Covid-19.

O padre Robson de Oliveira Pereira, nascido em Trindade-GO, ingressou no seminário aos 14 anos e foi ordenado aos 24 anos. Exerceu dois anos de trabalho na Pastoral de Vocações e na formação de jovens para a vida religiosa no seminário. Esteve na Europa – Irlanda e depois seguiu para Roma. Na capital italiana fez seu mestrado em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano. Ao voltar ao Brasil, virou reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno. Este ano, ao completar 46 anos, o padre é investigado sobre movimentação financeira de recursos doados por fiéis. Está em curso no Ministério Público de Goiás (MP) uma apuração acerca de compras de imóveis não ligados à atividade religiosa com dinheiro de devotos. O padre é suspeito de apropriação indébita, falsificação de documentos, sonegação fiscal, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Bens de luxo como uma fazenda de R$ 6,3 milhões, em Abadiânia; casa na praia de Guarajuba (BA), avaliada em R$ 3 milhões. Ao longo de 10 anos, foram movimentados R$ 2 bilhões, principalmente envolvendo a construção da nova Basílica de Trindade. Robson teve até que dar propina a hackers que encontraram uma foto dele com uma mulher, sua amante. O padre pediu afastamento de suas funções do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e da Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe).

Os três relatos aqui servem para entendermos como é fácil aceitar a mentira, o falso, o impalpável. De tanto vivermos no sofrimento e na dor, a mentira, a fantasia, um mundo melhor, o paraíso nos são colocados como alternativas para a fuga da realidade. Isto porque o real é doloroso, inaceitável, cruel. É mais fácil acreditarmos que Lula é uma alma tão pura quanto Jesus Cristo; que Bolsonaro é o mito que destruirá a corrupção no Brasil; que João de Deus foi seduzido pelas 330 mulheres; que O padre Robson foi coagido por Satanás para agir daquela maneira; que Flordelis é uma mãe perfeita e que a culpa é da Rede Globo; que Rodrigo Maia vai colocar em votação o fim do Foro Privilegiado porque é um nacionalista; que Gilmar Mendes mandou soltar os acusados do PSDB porque cumpriu a Constituição; que a Lava Jato é prejudicial ao Brasil e, por isso, Bolsonaro, alguns ministros do STF, o presidente do Senado, o presidente da Câmara, o PT e outros partidos de esquerda, vários ministros do STJ, deputados do Centrão estão todos unidos contra a força-tarefa e contra o juiz Sérgio Moro.

É possível até que acreditemos no feijão milagroso do pastor Valdomiro ou na Cloroquina de Bolsonaro para curar a Covid-19. Certo é que, enquanto não acreditarmos que a vida aqui é um caminhar árduo, cheio de trilhas tortuosas e íngremes, e que pessoas são animais a busca da estrada mais curta para a sua felicidade, que nada cai do céu e que nossa morte é tão certa como o nascer do sol amanhã etc, etc, etc, jamais aceitaremos a verdade. Principalmente, não aceitamos a verdade quando ela vai contra os nossos sonhos, crenças e ideologias. Em todos os lugares do mundo há canalhas golpistas, mas por aqui parece que há um terreno fértil para falcatruas. Há uma mistura perfeita para que o cenário seja um campo bom para os falsos honestos: somos um povo generoso, trabalhador e terrivelmente crente.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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