Pedro Arian é 1º lugar novamente em Medicina e a tragédia de uma meia hora

Pedro Arian fez mais de 880 pontos no Enem e estudará Medicina em Lagarto-Se. (foto: Landisvalth Lima)

Em maio do ano passado, entrevistamos Pedro Arian Alves Neves Viena, nascido em 25 de maio de 2000, filho de Alessandra Alves Neves e Sérgio Paulo Atta Viena. Ele tinha concluído o 3º ano do ensino médio no Colégio Estadual José Dantas de Souza e feito 840 pontos no Enem daquele ano. Bem diferente do ano anterior, ainda estudante do 2º ano, quando fez a prova nacional e foi desclassificado porque derramaram água sobre seu gabarito, na hora de entregar o documento aos fiscais. Mesmo fazendo 840 pontos no ano seguinte, por problemas de documentação com o Certificado de Alistamento Militar, embora tenha ficado em primeiro lugar, não estudou Medicina em Lagarto, onde desejava ser matriculado. Até que conseguiu boa colocação em outras faculdades, mas não queria ficar longe da família. Na época, foi um feito histórico: primeiro estudante de escola pública, em Heliópolis, a conseguir o 1º lugar num curso de Medicina.

Longe de ficar frustrado, Pedro Arian continuou fazendo as coisas que sempre fez. É fácil vê-lo todos os dias indo com o tio Betão para academia. Como sempre, tranquilo. Encontrei com sua avó e ela me disse que ele não estudou tanto assim para o último Enem. Quem assistiu ao vídeo, sabe da técnica de Pedro Arian: só estudar o que ainda não domina. E foi isso que ele fez. Este ano, também ficou em 1º lugar em Medicina, novamente em Lagarto, só que bem mais folgado. Foram 880 pontos e uns quebrados. Em redação cravou 980 pontos. Desta vez não tem mais problemas e sua vaga na Universidade Federal de Sergipe, em Lagarto, está reservada. Poderá estar em Heliópolis todo o fim de semana. Só esperamos que fique por aqui, depois de formado, e nos ajude a curar as dores espalhadas neste sertão.

Aproveito a oportunidade desta dádiva para chamar atenção dos que reclamaram quando o CEJDS passou a ser escola em tempo integral, com sete aulas diárias. Muitas mães, pais e até motoristas soltaram o verbo pressionando o Secretário de Educação de Heliópolis porque ele estava fazendo algumas modificações no transporte de estudantes. Reclamam que o filho terá que acordar meia hora antes, que chegará em casa meia hora mais tarde, que vai transferir o filho para Cícero Dantas, que tudo isto está acontecendo por capricho do professor Landisvalth Lima etc. Não tenho nenhum poder para modificar nada. Se o tivesse, já teria implantado ensino médio integral em todo o município. Gostaria de ver crianças chegando à escola 7 e meia da manhã e saindo às 17 horas, com 3 refeições, educada e asseada. É pena que, por enquanto, nem mesmo no CEJDS isso é possível. Chegaremos lá um dia, porque é uma necessidade.

Neste tempo, conseguimos, após a visita do governador Rui Costa, uma rua de acesso com calçamento parcial, pintura, reforma da escola, inclusive mudança de piso, implantação de salas quase todas refrigeradas, reforma e cobertura da quadra de esportes, campo de futebol, poço artesiano, construção de auditório, cozinha e refeitório. Estas obras algumas já foram feitas e outras serão iniciadas este ano. Portanto, não se trata de um capricho. É uma necessidade. No mínimo, serão gerados mais 20 empregos diretos e indiretos só para atender a escola. Em 2023 teremos uma escola de excelência. O sacrifício da criança acordar mais cedo, ou do motorista esperar mais meia hora, vai valer a pena. Precisamos sair da zona de conforto para progredirmos. Nada acontece sem sacrifício!

Por fim, nosso objetivo é ter outros Pedros Arians. Muitos, muitos, mesmo! Necessitamos de pessoas inteligentes que triunfem sobre as banalidades. Desejamos que pais, alunos, motoristas e funcionários públicos gostem mais dos professores, artistas, jogadores, trabalhadores que de bandidos corruptos e milicianos. Queremos nossos filhos frequentando faculdades e buscando soluções para os inúmeros problemas que temos. O sacrifício desta meia hora é certamente menos doloroso que a eternidade de uma lápide no cemitério, regada pelo sangue gotejante da violência de múltiplas faces, que antecipa em muitos anos o nosso fim programado.

Para assistir a entrevista com Pedro Arian dê um clique A Q U I.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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