120 dias com muita coisa para esquecer

As intrigas, bravatas, erratas, divisões e trapalhadas que revelaram o governo Bolsonaro como tupiniquim e terceiro-mundista   

Bolsonaro tem muito pouco de bom para comemorar nos primeiros 120 dias do seu governo (foto: Exame.Abril)

Eleito o ano passado por ser a representação mais fiel do antipetismo, o presidente Jair Bolsonaro parecia representar tudo contra aquilo que comumente chamamos de velha política.  Para seus eleitores, o novo governo destravaria a economia, modernizaria o estado brasileiro e acabaria com a desmoralização em que se transformou o serviço público. Após 120 dias de governo, as marcas mais visíveis são as disputas de poder, fofocas palacianas e outros sérios equívocos. Há muito pouco de positivo nos primeiros passos dados pelo Capitão.

O pouco de positivo foi o cumprimento de algumas das promessas de campanha. Destacam-se a autorização da posse de armas e o lançamento de privatizações. Lógico, num país de sucessivas revelações de assalto aos cofres da república, as intrigas, as divisões e as trapalhadas tomaram quase todo o espaço na mídia e desanimou os crentes, incluindo aí a turma que tem fé no discurso da extrema direita. Até aqui, a coisa é tão problemática que fica difícil determinar que tipo de governo é o do eleito pelo PSL. A única marca que afirmam ser verdadeira é o fato de ter sido o governo que tirou o PT do poder, pondo fim a quatro mandatos consecutivos de uma administração de centro-esquerda.   

E parece que o mercado está perdendo a paciência com Jair Bolsonaro.  Em depoimento à revista Exame, da Abril, Thomaz Favaro, da consultoria de riscos políticos Control Risks, afirma que  “houve uma percepção equivocada de que Bolsonaro vinha com uma base de apoio muito forte e acho que agora começamos a ver que talvez não seja tanto. Não seria subestimá-lo dizer que o desempenho do presidente até agora foi decepcionante”, afirma. O Capitão venceu as eleições graças a mensagens simples de que acabaria com a criminalidade, a violência e a corrupção endêmicas.

Apesar de trabalhos relevantes dos ministros Paulo Guedes e Sérgio Moro, Bolsonaro não consegue largar a vestimenta de candidato conhecido pelos insultos e declarações racistas, misóginas e homofóbicas. Não larga o osso da defesa da ditadura militar de 21 anos. Também não consegue se distanciar do Twitter. Ainda guarda o ranço dos quase trinta anos como deputado e parece se negar a colocar a capa de estadista, de administrador de um todo plural e diverso com o nome de Brasil.

Com a aprovação da reforma da Previdência na CCJ da Câmara dos Deputados, uma luz se acende no fim do túnel. Ninguém sabe qual o preço de tudo isso, mas os analistas sabem que, para acabar com muitos vícios da velha política, Bolsonaro precisa estar bem na fita da popularidade. Sem apoio do povo, o horizonte são verbas públicas, emendas parlamentares. O Centrão será o único norte e a velha política triunfará. Ainda citando a Exame, disse William Jackson, economista da Capital Economics, com sede em Londres, que “nas últimas semanas, realmente vimos o lado de Bolsonaro que as pessoas mais temiam. Sua falta de experiência de governo, ilustrada pela deterioração de suas relações com o Congresso, e suas lutas por manter unida sua coalizão, parecem ter levado a uma paralisia na formulação de políticas”, afirmou.

O tom conciliador adotado pelo presidente nos últimos dias de abril pode ter dado a impressão de ele ter cedido à condenada política de trocas, marca registrada da política nacional. Todos os que possuem bom senso esperam que isso não aconteça, mas todos temem também um governo de trapalhadas e pieguices, pavimentando o discurso daqueles que, mesmo com senões, aceitarão o fato de que foi ruim com o PT e está pior sem ele.

O que não se pode é esconder a realidade, inclusive enxergando as poucas vitórias desde que assumiu a Presidência, em 1º de janeiro. Pode-se até questionar a  flexibilização da legislação sobre a posse de armas de fogo, mas foi promessa cumprida. Também houve a entrega da concessão de doze aeroportos em licitações bem sucedidas, consideradas uma prova da confiança dos investidores estrangeiros. Mas está escrito que Bolsonaro terá mais dificuldades em impulsionar políticas mais polêmicas na pulverizada Câmara dos deputados.  Precisará fazer alianças, e que não sejam espúrias, com deputados de vários partidos que compõem as bases dos evangélicos, dos lobistas das armas e do pessoal do agronegócio.

Terá que escolher continuar com um governo produtor de fatos constrangedores todos os dias, ceder à política velha ou imprimir um ritmo pautado, sobretudo, na agenda de desenvolvimento do país, acenando aqui e ali aos diversos grupos que compõem esta colcha de retalhos denominada Brasil. O caminho do centro parece ser o mais oportuno. Com o carisma de volta, pode ser até que a alcunha de “Mito” se imponha e muita coisa realmente se transforme. O que não ocorrerá é uma mudança geral, ampla e irrestrita. Isso só uma revolução faria.

O que não pode ser feito é a idiotice de comemorar o golpe militar de 1964, afirmar que os nazistas eram de esquerda, prometer transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, e provocar represálias comerciais dos Estados árabes, alguns dos quais são importantes importadores de carne brasileira. E nem mais se coloca aqui as denúncias de transações financeiras consideradas atípicas envolvendo um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro. Esse fato fez cair por terra a ideia do combate à corrupção como bandeira prioritária.

Fato é que foram os 120 dias mais turbulentos vividos por um governo no início de mandato neste rincão da América. Todos torcem para que a lista enorme de erros horríveis tenha chegado ao fim e que os outros 1340 dias vindouros deste governo sejam marcados pela revelação de um novo estadista, de uma nova era, em um país com uma nova mentalidade. O Brasil não suporta mais populistas aventureiros ou farsantes instalados no governo.

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