Poucas & Boas 2020.07: E agora? Como curar o Brasil do vírus Bolsonaro?

A epidemia

Mesmo tendo um país para administrar, Jair Bolsonaro contamina a militância contra a ciência (foto: Marcelo Camargo/Abr)

Não se trata de militância pura e simples. Em qualquer lugar sano do mundo, há seguidores de políticos, de direita ou de esquerda, de centro ou das extremas. Isso não é novidade. Só que aqui há duas epidemias: o lulopetismo e o bolsonarismo. O primeiro está controlado, desmoralizado, recolhido, mas vivo. O segundo está ouriçado, ensandecido e perturbador. Dispõem-se a matar ou morrer, principalmente matar! Vão agora para as ruas pregar a volta ao trabalho, mas nos seus carros. Detonam a imprensa e transformam o Brasil numa antes terra arrasada para ser hoje uma pátria libertadora das garras do comunismo. É uma epidemia de insensatez. Há pouco tempo, imaginávamos que outra epidemia, que tomou conta daqueles defensores da roubalheira feita por Lula e aliados, jamais seria repetida novamente na história deste país. Se repetiu e em dimensões perigosas, isto porque há um insano na presidência da república.

Como o vírus se alastrou?

A causa é uma única. Falta de educação. A insensatez vive alojada no cérebro da raça humana, esperando uma hora para embotar toda a nossa inteligência. Freud revelou muito bem os porões do Id, do Ego e do Superego. A insensatez está no Id e a inteligência está no Superego. O desequilíbrio entre ambos faz o Ego sofrer da perda de um e do domínio do outro. Saber usar a inteligência e dominar a insensatez é tarefa para os educados, isto no sentido amplo da palavra. É na ausência da educação que aparecem os aproveitadores e oportunistas, desde falsos profetas a salvadores da pátria. O alastramento da insensatez ocorre quando os contaminados, já em estado de torpor, fecham os olhos para o perigo e veem a morte, a falta de liberdade, as doenças, o sofrimento, por exemplo, como coisas naturais, sem se importar em lutar para que elas sejam combatidas.

Sintomas de um contaminado

Tome muito cuidado ao se deparar com um contaminado. Seus sintomas são fáceis de serem identificados. Todos os que já sofreram ou sofrem da insensatez apresentam fascínio por pessoas insanas, corruptas, violentas, insensíveis e bélicas. Têm seus times do coração, mas vão para o estádios para praticar violência; adoram bater em mulher ou considerá-las seres inferiores; veneram armas de fogo, detestam atos corruptos dos adversários; são patriotas, desde que o estado faça o que eles desejam; adoram religião, desde que os pregadores os apoiem; detestam a imprensa descompromissada com a causa deles; e mentem muito a ponto de acreditarem na própria mentira. Seus mitos e ídolos: Hitler, Mussolini, Stalin, Braunau Am Inn, Napoleão Bonaparte, Átila, Herodes, Basílio II, Ambatomarina, Kim Il Sung, Muammar Al-Gaddafi, Francisco Franco, Augusto Pinochet, Maria I da Inglaterra, Nero, Slobodan Milosevic, Talat Pasha, Mao Tsé Tung….. A lista é grande, infelizmente.

Como devemos curar?

Esse é o problema da insensatez: a cura é muito difícil. Um dos problemas é o nível de teimosia do paciente, que normalmente é um ególatra. Hoje, por exemplo, é o dia do aniversário de um dos momentos mais sombrios vividos pelos brasileiros em 1964. Há insensatos que comemoram de forma saudosista, desejando a volta dos militares ao poder, estampando a bandeira do Brasil ao lado de uma mão em forma de arma. Há outros que lembram a data como prática do ódio às ditaduras, mas exibem no corpo uma camiseta com a foto de Fidel Castro ao lado de uma bandeira vermelha, com foice e martelo, e um gesto de mão estampando o “L” da campanha de liberdade de um condenado por corrupção. Para se curar, principalmente depois de certa idade, é preciso boa vontade porque ainda não há nem mesmo grupo de IA – Insensatos Anônimos.

Mutação nominal do vírus

A depender da época, o vírus que provoca a insensatez muda de nome. Normalmente adota a nomenclatura de seus praticantes mais famosos. Outras vezes, o vírus acaba também dando nome à doença provocada, acrescida do sufixo ismo. Ao não se mostrar seguidor das recomendações internacionais das autoridades de saúde pública, o presidente Jair Messias Bolsonaro, violou todos os rituais determinadores de uma ação humana consciente. Por duas vezes colocou em risco pessoas ao romper com a quarentena determinada pelo seu próprio ministro da saúde. Reascendeu pelo país uma onda de insensatez tal qual acontecida na Revolta da Vacina, no início do século 20, colocando em dúvida estudos científicos e protocolos de atendimento em época de pandemia. O vírus letal e perigoso é Bolsonaro, que alimenta o bolsonarismo, retroalimentado pelos aparentemente controlados olavismo e  lulopetismo. É uma espécie de tríplice viral.  

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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