Precisaremos de mais 41 anos?
São raros no mundo os casos que demoraram exatamente 41 anos para se consolidar. Lembrei-me, após cavocar na terra da história, da criação da Justiça do Trabalho, ocorrida em 1941, em plena Era Vargas. Como muitas coisas que acontecem no Brasil, a consolidação plena só foi possível numa outra ditadura, em 1982. Desta época em diante, a Justiça do Trabalho passou a integrar definitivamente o Poder Judiciário. Heliópolis completa hoje 41 anos de existência como município, mas ainda não se consolidou como uma república municipalista.
Um município republicano pleno, no sentido mais amplo, é aquele em que o poder político realmente pertence ao povo, exercido de forma transparente, participativa e justa, sem privilégios hereditários, financeiros ou autoritários. Ele não se limita apenas à forma de governo, mas envolve valores éticos, instituições sólidas e cidadania ativa.
Heliópolis será plenamente republicano quando seus administradores forem punidos, principalmente quando inventarem empresas fantasmas para sugarem os parcos recursos da municipalidade. Será republicano quando, ao escolherem seus representantes, olharem para o futuro, para a escola capenga dos filhos, para o hospital que não existe, para a maternidade prometida, para a rua sem esgoto, para o bairro sem saneamento, para o lixo não reciclado, a estrada esburacada, a água que sempre falta, a justiça que não veio. A República virá quando repudiarem o dinheiro que compra consciências e votos.
Sim, é verdade, a maioria esmagadora dos municípios diz praticar o republicanismo. Tudo não passa de uma falácia. E há até aqueles que chegam a dizer que “temos de seguir o que todos fazem”. Outra falácia! Um município plenamente republicano está voltado para uma cultura política centrada no bem comum e não nos interesses dos financiadores de campanhas. Votar em alguém sabendo que ele é produto de um empresário ou de uma família poderosa, recebendo em troca míseras cédulas de Real, é decretar o atraso de uma comunidade inteira.
Heliópolis tem 41 anos e evolui nas tramas de tomada do poder. Começou com a distribuição de peças de roupas, passou ao cimento, blocos, contrato de emprego, aparelhos de televisão, celulares… Hoje, em plena luz do dia, um canalha, travestido de candidato, diz abertamente: “Qual é o seu preço?” ou “Quanto você quer?”. E quando a população se cansa disso, milhares são misteriosamente transferidos de outras plagas, regados a dinheiro, para mudar resultados eleitorais.
Os defensores do uso do dinheiro na política podem até dizer que estamos num processo de evolução. Seria pior se o poder fosse conquistado nas armas, como faziam os coronéis de antigamente. É mais ou menos como pregar a não necessidade de existir carros porque antigamente as pessoas andavam a pé, a cavalo ou de carroça. A evolução é uma necessidade humana universal. É preciso evoluir. Até foguete está a dar ré.
Pronto! 41 anos! Parabéns, Heliópolis etc. e tal, mas vamos continuar como estamos? Serão precisos mais quantos anos para começarmos a separar o joio do trigo? Vamos esperar uma revolução vindo de cima, se nós mesmos podemos corrigir nossos vícios e cultuar virtudes? Precisamos buscar a nossa municipalidade plena e sermos uma república plena, com maior participação cidadã, redução das desigualdades e fortalecimento das instituições.
Nada disso é simples, eu sei. Só espero que não leve mais 41 anos para acontecer, até porque eu, muito provavelmente, não estarei aqui para testemunhar tal realização. De qualquer forma, exaltando o pouco do bem que realizamos, parabéns, povo de Heliópolis! Continuemos na caminhada!
