Quantos Adelmos precisarão morrer?

Adelmo Cardoso dos Santos foi assassinado e tinha 27 anos. (foto: arquivo pessoal)

Pouco depois da meia noite, início desta quinta-feira (19), três homens arrombam a porta de uma casa localizada numa rua do centro histórico de Heliópolis, a poucos metros da Praça José Dantas de Souza, ao lado do Bar de Mandinho, e matam com dois tiros certeiros Adelmo Cardoso dos Santos, 27 anos, que há muito vivia em outro estado e retornou a Heliópolis. Em torno da morte deste rapaz há um silêncio ensurdecedor. Foi preciso um dia inteiro para colher informações precisas sobre o fato. Provavelmente será mais uma morte sem ter a solução que responda a todos os seus porquês. O corpo foi recolhido hoje pela manhã ao IML de Euclides da Cunha.

Adelmo era um rapaz como outro qualquer. Vivo, inteligente, adorador de cavalos e vaquejada. Gostava de curtir a vida como todos da sua idade. Olhando para ele, ninguém poderia imaginar que, ao retornar a Heliópolis, o rapaz corria risco de vida. As causas estão lá há alguns anos. Ele e seu irmão Gidelson Cardoso tiveram uma rixa com um rapaz de uma cidade vizinha. A confusão terminou em tiroteio. O ferido não morreu, mas ficou com sequelas e prometeu matar Adelmo e Gidelson. Tempos depois, a vingança veio e, desta vez, Gidelson foi atingido em Heliópolis na frente da sua casa, mas saiu ileso. Os dois irmãos resolveram ir para outro estado e parecia que o problema tinha acabado, mas Adelmo resolveu voltar.

Esta história, que parece coisa de filme hollywoodiano dos velhos faroestes, acontece em pleno século XXI e está levando nossos jovens para o cemitério ou para a cadeia. O assassino está solto e armado e, dizem, prometeu que não descansa enquanto não matar Gidelson. Ou seja, mais uma tragédia poderá acontecer e nada parece estar sendo feito para impedir. Cadê o Estado? Onde está a Justiça? Onde está a nossa segurança prometida pela República? Qualquer um pode hoje invadir uma casa, matar pessoas e não acontece nada!

A história aqui relatada é do conhecimento de toda a população. O assassino mora numa cidade vizinha e o motivo pode ser o maldito dinheiro nosso de cada dia. O vil metal é a nossa desgraça. O dinheiro aqui não é para trazer a felicidade geral dos sertanejos. É motivo para matar, para trair, para mudar de partido. Decide o destino ao inferno de uns e aos cargos políticos de uns poucos. Ninguém mais usa a Justiça para resolver suas divergências ou dívidas. Tudo agora é na bala. Voltamos ao velho oeste ou ao tempo do Zé Baiano, o cangaceiro mais rico que se conheceu. Suas dívidas eram pagas a dinheiro ou a bala. Foi traído por Lídia e a matou a pauladas. Quantos Adelmos mais precisarão morrer para voltarmos à civilização?

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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