Quem matou Claudiana?

Claudiana foi mais uma vítima da nossa forma de encarar a vida. (Foto: Acervo da família)

O nome dela é Claudiana Rosário Rodrigues. Uma senhora, dona-de-casa. Tinha dois filhos. Há cerca de 3 anos perdeu o primeiro marido, pai da sua filha. Casou-se novamente e veio ao mundo um filho. Domingo, dia 3 de janeiro, por volta das 2 horas da madrugada, morre em sua casa, na localidade de Jurubeba, município de Fátima, próximo ao povoado Pindorama, onde nasceu, na fronteira de Heliópolis, Cícero Dantas e Fátima. Tinha pouco mais de 30 anos. Esta história de vida, que cabe em um parágrafo, esconde uma saga de sofrimento representativo da vida dos milhões de habitantes espalhados por esse Brasil, sem despertar mais angústia ou indignação na maioria do nosso povo. Dois dias após o seu corpo repousado sob terras do cemitério do Gruê, o fato já foi legado ao esquecimento e, por mais absurdo que alguns possam achar, Claudiana foi vítima de um assassinato.

Antes de revelarmos quem matou Claudiana, precisamos entender que ela foi socorrida no sábado, dia 2 de janeiro de 2021, levada para a Unidade Básica de Saúde de Heliópolis, onde é eleitora. Sua casa fica a menos de 2 quilômetros da cidade de Heliópolis. Quem a socorreu foi Charles Pereira, filho do ex-vereador Clovis de Augusto. Claudiana vomitava sangue e o posto estava fechado. Charles a levou para Cícero Dantas onde passou toda a manhã sendo medicada. Pela tarde se sentiu melhor e pediu para ir embora. Foi liberada. Na madrugada posterior teve nova crise de vômitos, com sangue jorrado por uma úlcera mortal. Então, quem matou Claudiana?

Antes que o impaciente leitor queira a solução do enigma, cabe dizer que não foi a primeira vez que Claudiana se dirigiu a um posto médico para cuidar da saúde. Aqui em Heliópolis, e em quase toda a Bahia, saúde pública é paliativo, quase sempre. Estado e municípios não dão conta da demanda. Pessoas como Claudiana, sem recursos, vivem a mendigar saúde nos postos. Recebem paliativos e vão para casa. Uma enfermeira me dizia que é mais fácil morrer de uma doença simples do que, por exemplo, de câncer. Nossa saúde é curativa para muitas doenças, mas se morre de algo simples quando não se tem grana para pagar um exame diagnóstico. Se Claudiana tivesse ido a uma clínica particular e tivesse feito uma endoscopia, a história poderia ter tido um final feliz. De paliativo em paliativo ela foi sobrevivendo. Ao encontrar o posto fechado, foi para um hospital e recebeu outro paliativo, o último.

Mas, afinal, quem matou Claudiana? Foram os paliativos? O posto médico de Heliópolis fechado? A falta de condições da família para pagar um exame particular? A ignorância? Os políticos que não melhoraram a saúde pública? A corrupção? As nossas escolhas eleitorais? A nossa falta de amor ao próximo? Não. Não foi nada disso. Foi, na verdade, tudo isso junto e misturado! E acrescento mais: o nosso conformismo. Quando nós dissemos que “Deus quis assim!” é uma forma de jogarmos o problema para debaixo do tapete. Num artigo que fiz sobre compra de votos, uma ex-aluna, hoje enfermeira em Campinas – SP, disse em alto e bom som que o problema era eu porque em Heliópolis sempre foi assim. Ou seja, se é assim, tem que continuar sendo. Claudiana morreu de uma simples úlcera! Não tem que continuar assim e Deus não quer isso!

Precisamos parar de encontrar janelas que nos livrem das nossas responsabilidades. Se o bandido assaltou e matou, foi preso e condenado, a culpa não é do juiz que decretou a sentença, nem do fabricante da arma. Se existe um posto médico e está fechado em pleno dia de feira numa cidade, a culpa não é de quem fica doente. Se o Brasil, mesmo com a estrutura pública que tem, ainda não conseguiu comprar vacina para imunizar a população contra a Covid-19, a culpa não é da Rede Globo. Se pessoas vendem o seu voto para eleger incompetentes, a culpa não é do dinheiro. Se o aluno tem a escola estruturada, o professor dedicado e uma família comprometida com a educação, o seu resultado negativo não é culpa da baixa temperatura daquele dia.

Urge que paremos de encontrar paliativos para amainar nossas culpas. Se paliativos resolvessem, Claudiana estaria viva, cuidando dos seus filhos e amando o seu marido. A morte de Claudiana não foi a única e não será a última porque nós teimamos em achar que tudo é natural. O nosso infeliz presidente é difusor dessa ideia. “É a vida!”, diz ele sempre para justificar sua falta de sensibilidade com a morte de milhares de pessoas. Entretanto, fica comovido com a morte de um único policial ou soldado. Será que o problema é da farda? Não! Nossa individualidade, nosso egocentrismo, nosso mundinho cercado de desejos imediatos, nossa sensação de pertinência a grupelhos – como se tudo resumisse a um mundo tribal, nossa mania terrível de querer a nossa razão como suprema, tudo isso e mais outras doenças humanas ajudam a criar vítimas como Claudiana.

Solução? Sim, sempre há. Não tenho a equação definitiva em minhas mãos. Sou humano. Mas sei que estaremos mais perto dela se dialogarmos com a verdade. Precisamos deixar de nos ver no centro. Vamos pensar um pouco no outro. O mundo será bem melhor se pensarmos em cuidar das pessoas, independente do seu grau de parentesco, cor, raça ou opção ideológica. No início deste ano de 2021, várias Claudianas foram assassinadas, vítimas de nossas atitudes sociais. Esse massacre não pode continuar! E não me venha dizer que você não tem nada a ver com isso. Faça alguma coisa! Pelo menos, grite!

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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