Relatos do nosso mundo

Precisamos ser o Capitão Kidd para salvar Johanna (foto: divulgação)

É difícil olhar para o Brasil, com a visão da racionalidade, e não sentir dissabores. Não vou desistir de acreditar neste país, mas há uma infinidade de pessoas que nos puxam para a mesmice. Esta semana tive a oportunidade de assistir ao filme Relatos do Mundo, do diretor Paul Greengrass, na plataforma Netflix. Na extraordinária obra, o Capitão Jefferson Kyle Kidd, um veterano confederado da Secessão, interpretado por Tom Hanks, no pós-guerra sobrevive lendo notícias para o povo. A certa altura, encontra uma garota duplamente órfã, interpretada pela atriz alemã Helena Zengel. Ele pretende levá-la para sua antiga família. Como a garota foi criada pela tribo Kiowa, há uma cena em que os dois tentam se entender. Johanna e o capitão se entendem com as coisas mais simples e esbarram em conceitos. A menina selvagem vê o mundo em círculos e o capitão vê o mundo como uma linha reta.

O Capitão Kidd é o protagonista. A solução está em suas mãos. A menina não é um problema seu e não precisava arranjar mais um. Bastava montar em seu cavalo e ir embora, afinal, quem pariu Mateus que o balance. É exatamente por aceitar o desafio do novo e para dar um sentido ao seu ato de viver que o capitão continua a ver a vida em linha reta. O desfecho do filme é belíssimo e não vou contar aqui, mas usarei tal metáfora para entendermos a nossa capacidade de não conseguir sair do lugar. Toda nossa energia de anos de luta é desperdiçada quando uma luz se acende no túnel do desenvolvimento. Isso porque sempre ficamos vendo tudo em círculos, puxados pelos fígados nossos de cada dia.

Não preciso ir muito longe. Saímos da República Velha e caímos na ditadura de Vargas. Deixamos de andar em círculos pela direita e passamos a percorrer o outro lado, mas ainda em círculos. Evoluímos no trabalhismo e pecamos nas liberdades individuais. Mais tarde, estagnado no centro, não saíamos do lugar para não desagradar a esquerda ou a direita. Após algumas tragédias, resolvemos recomeçar. Buscamos algo diferente, fora das duas opções e distante do imobilismo do centro. Veio Jânio da Silva Quadros. Quebramos a cara e começamos a andar à esquerda até a ditadura nos interromper.

Com a volta dos militares aos quarteis, com medo da linha reta, ficamos no centro com o melhor o pior. O melhor morreu. Crise, crise e crise! Procuramos novamente algo diferente. Collor destruiria todas as injustiças, acabaria com os privilégios e um novo país nasceria. Caminhou bem vestido, e com pose de atleta, pela direita, sempre em círculos. Cassado, assumiu Itamar Franco e fincou sua bandeira no centro. Depois veio o sociólogo Fernando Henrique Cardoso e caminhou em ritmo diferente, mas continuou fazendo círculos pela direita, mais ainda após a aprovação da reeleição. Cansado, o povo resolveu mudar a caminhada e Lula chegou ao poder, depois da 4ª candidatura.

Imaginávamos que o operário de nove dedos caminhasse em linha reta. Era o novo, a revolução, a chegada finalmente do progresso. Combatemos a fome, o desemprego, a pobreza. Viramos celebridades mundiais. A economia deu um salto gigantesco. Da dívida, passamos a ter reservas internacionais. Era a glória! Mas aí tinha um posto de lavar carros no caminho e um esquema extraordinário de desvios de dinheiro. Não demorou muito e as grandes empreiteiras, bancos, políticos, estatais, como carrapatos, sugavam nossa fortuna com a bênção dos eleitos. Eles caminhavam em círculos pela direita, pela esquerda, pelo centro ou em qualquer lugar possível para continuar alimentando o mecanismo.

Foi um grande choque no eleitorado. Atordoado, renegou tudo e foi buscar algo fora da curva. Embora não existisse essa proposta, havia um capitão que bradava contra a corrupção e contra todos. Aí está ele. Não está nem ao centro, nem à direita e, muito menos, à esquerda. Simplesmente está. Quer armar a população para que o povo tenha liberdade, com ideias do Velho Oeste americano ou da época do nosso cangaço. Quer economia forte, mas deseja que o povo enfrente a pandemia sem distanciamento social, sem máscara e sem vacina. É a insanidade de achar que economia existe sem povo. E é o presidente ovacionado quando o sistema de saúde está em colapso e ele vai passar o feriado de Carnaval nas praias de Santa Catarina.

E é só o Bolsonaro? Não. Temos magistrados que vendem sentenças, ministros que burlam leis para censurar a imprensa; deputados que pregam a volta do AI-5, mas gritam por liberdade quando agridem as Instituições e é preso; jornais que berram o respeito ao estado de direito, mas defendem corruptos; funcionários públicos que fazem greve por direitos, mas arranjam sempre um atestado médio para faltar ao serviço; professores que bradam em sala a liberdade, a igualdade e a fraternidade, mas vivem em suas camisetas estampadas com heróis sanguinários e assassinos, ministros que condenam diálogos entre procuradores e juízes, mas vivem a dar habeas corpus a bandidos. Enfim, vivemos constantemente em círculos, à direita ou à esquerda. Pregamos tal coisa, mas….

Pode demorar anos, décadas, mas não vamos continuar correndo em círculos. Precisamos olhar para a frente, ver tudo em linha reta. Não há mais condições do uso de mecanismos artificiais para disfarce do egoísmo. Ou teremos uma guerra civil ou seguiremos o caminho que a Alemanha adotou. Para isso, o eleitor, senhor protagonista de toda a história, precisa ser o Capitão Kidd. É preciso salvar Johanna do modo como foi criada. Ela tem direito a ser feliz como uma criança comum, sem ser vítima de disputas selvagens e egoístas. Vamos agir como Jefferson Kyle Kidd. Sem ódio, mas olhando sempre com a razão, e de cabeça erguida. Olhando para o passado, mas não para repeti-lo, apenas para servir de correção dos rumos e combustível para continuar seguindo em linha reta.      

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