Reportagem especial: As causas do racismo estrutural

George Floyd

No capítulo O vergalho, do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o protagonista encontra seu ex-escravo Prudêncio castigando outro negro impiedosamente. Brás Cubas pede para que o perdoe e Prudêncio atende imediatamente seu “Sinhozinho”, depois de não atender sucessivos pedidos de clemência do castigado por dezenas de vergalhadas. Ao se afastar da cena, Brás pensa consigo sobre a condição de Prudêncio: “Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!”. O romance é do século 19, lançado em 1881, em plena era escravocrata no Brasil. Longe de estarmos hoje naquela condição, parece que muitas coisas continuam a nos desafiar.

Martin Trayvon

Muitos negros, mesmo depois de quase um século e meio após o fim da escravidão, não conseguiram se libertar da condição de subalternos. São inúmeros os exemplos daqueles que venceram e, do alto, veem sua raça como inferior e passam a adotar um comportamento pautado no status quo de supremacistas brancos. Há casos até de negros que promoveram o embranquecimento da pele para melhor se enturmar entre os arianos. Recentemente tivemos o caso que envolve a Fundação Palmares. O negro Sérgio Camargo, nomeado presidente da entidade, chamou o movimento negro de “escória maldita” e também disse que Zumbi era “filho da puta que escravizava pretos”. Camargo ainda criticou o Dia da Consciência Negra e chamou de “macumbeira” ao se referir a uma mãe de santo.

Oscar Grant III

Poderíamos aqui tentar buscar as variadas causas de tais fenômenos, mas uma é, definitivamente, a mais visível: o racismo estrutural, alimentado pelo fracasso da educação pública e pela secular desigualdade social. Tal tipo de racismo é a reestruturação moderna de um mundo tribal, de um período em que se odiava o outro por ser de uma tribo diferente, de cultos diversos, mesmo que próximos. Não se trata apenas de racismo contra negros. Se estes são escória, os índios são vagabundos, asiáticos são vermes, europeus são “branquelos” ou sujos e os judeus são miseráveis. Isto está longe de ser brincadeira de amigos ou sarro da rapaziada. É a prática selvagem da raça humana em seu estado mais primitivo, embora polida pelo combate feito hoje por uma parte destas mesmas raças.

A reação dos americanos, gritando pelas ruas “Vidas negras importam”, é um basta a um estado que historicamente segrega, mesmo que disfarçadamente, a minoria negra e latina. É só rememorar os fatos ocorridos em tempos não muito bem distantes. O oficial de trânsito Johannes Mehserle assassinou Oscar Grant III, de 22 anos, em 1º de janeiro de 2009. Mehrserle afirmou que na hora do crime pegou sua arma acidentalmente em vez de seu Taser. A agência de transporte rápido de Bay Area, ex-empregadora de Mehrserle, acordou uma idenização num processo envolvendo a mãe e a filha de Grant por US $ 2,8 milhões em 2011. O caso de Oscar Grant III inspirou a criação do filme Fruitvale Station, premiado em 2013 e estrelado por Michael B. Jordan e Octavia Spencer.

Michael Brown

Johannes Mehserle, de 28 anos, oficial da polícia da Agência de Transportes da Baía de San Francisco, foi considerado culpado e podia pegar uma pena de até 14 anos. Sua condenação foi estabelecida a dois anos de prisão. Um policial branco matou um jovem negro desarmado em San Francisco e pegou apenas 2 anos de prisão. Centenas de pessoas protestaram no centro da cidade de Oakland. Começou pacífica e descambou para a violência. Um policial foi atropelado e 150 pessoas foram presas. Seria até uma redundância dizer que a corda sempre arrebenta no lado mais fraco.

Freddie Gray

Em fevereiro de 2012, o vigia comunitário Zimmerman, de 33 anos, filho de mãe peruana e de pai americano atirou e matou o jovem negro desarmado Trayvon Martin, de apenas 17 anos, em Sanford, na Flórida. O caso ganhou atenção internacional. Zimmerman foi absolvido por um júri, com base em uma polêmica lei da Flórida sobre legítima defesa. A decisão da Justiça deflagrou protestos em todo o país, sob acusações de racismo. Trayvon foi assassinado numa cidade com antecedentes racistas. Zimmerman era vigia comunitário em um bairro residencial e chamava com frequência a polícia por causa da presença de negros. Em Sanford, o Ku Klux Klan fez com que o herói negro do beisebol Jackie Robinson fosse expulso de campo em 1946.

Vítimas da violência no Rio de Janeiro

Mesmo numa cidade majoritariamente negra, os rastros do racismo imperam. Em 9 de agosto de 2014, a cidade de Ferguson foi abalada com a morte de Michael Brown e isto gerou uma onda violenta de manifestações. A cidade tem quase 70% da população composta por negros, mas as autoridades políticas e policiais são majoritariamente brancas. Informações davam conta de que Brown teria participado de um assalto a uma loja de bebidas pouco antes de ser baleado. Um vídeo do crime, que mostrava apenas um jovem negro em ação, chegou a ser divulgado.

Foram semanas de violência nas ruas, de quebra-quebra a saque em lojas. A Guarda Nacional foi enviada a Ferguson para controlar os distúrbios. O policial Darren Wilson, autor do assassinato, foi a julgamento e o júri acabou livrando-o da acusação. A onda de protestos voltou a tomar conta da cidade e provocou manifestações em outras partes dos Estados Unidos, principalmente Califórnia e Nova York. Foi notícia no mundo inteiro e também gerou protestos em Londres e Paris. Não ficou provado que o negro do vídeo era Michael Brown. Ele foi morto por algo que não fez. A única punição de Wilson foi ter que pedir demissão.

Outro assassinato de negro que causou acentuada revolta foi o de Freddie Gray, em 2015. Gray tinha 25 anos quando foi preso sob custódia policial em Baltimore, no dia 12 de abril daquele ano. Foi colocado na cela metálica do veículo policial e submetido à prática conhecida como o “passeio do cowboy”. Os detidos são transferidos sem cinto de segurança na cela do carro e, entre freadas fortes e viradas bruscas, se machucam. Freddie Freddie sofreu uma lesão na coluna vertebral durante o passeio. Foi socorrido tempos depois e entrou em coma. Morreu uma semana após sua apreensão, no dia 19 de abril de 2015.

A polícia nunca disse por que o levou sob custódia, observando apenas que ele fugia de policiais e eles não explicaram publicamente como Gray recebeu a lesão na coluna vertebral. Os oficiais Caesar Goodson Jr., William Porter, Edward Nero, Garrett Miller, tenente Brian Rice e a sargento Alicia White foram presos e acusados pela morte de Gray. Nenhum dos seis policiais foram condenados e acabou por gerar uma onda de protestos violentos em Baltimore, Maryland, perto de Washington, em abril de 2015. O caso tomou dimensões nacionais nos Estados Unidos e se converteu para muitos no símbolo da violência policial contra a comunidade negra.

Estes não foram os únicos casos, mas os mais cobertos pela imprensa e que geraram comoção nacional. Quando os americanos insistem em ficar nas ruas por semanas, não se trata só de George Floyd. Evidentemente, a cena do joelho daquele policial branco sobre o pescoço do negro americano, por quase nove minutos, não matou apenas Floyd. Foi o ato suficiente para despertar a revolta adormecida, já alimentada de outros casos. George Floyd morreu em plena rua, no dia 25 de maio de 2020, em Minneapolis, no estado de Minnesota, asfixiado por Derek Chauvin, sob a acusação de ter comprado cigarro com uma nota de 20 dólares falsa. Não importa aqui se Floyd realmente sabia que a nota era falsa. Era uma pessoa, um ser humano, que foi morto com o joelho no pescoço, já algemado e imobilizado. Só pode dizer que não conseguia respirar. Os outros policiais que estavam por perto poderiam chamar atenção do companheiro, mas só agiram como cúmplices. Por sorte, alguém gravou a cena que correu o mundo. Como disseram outros colegas de Chauvin, o policial falhou como humano e tirou de George Floyd sua vida e dignidade. Isto não é, claro, o que são todos os policias americanos.  

Vítimas pisoteadas em Paraisópolis – São Paulo.

Inevitável é também trazer o tema para o Brasil. Aqui, e miscigenação racial é bem mais ampla que a americana. Somos tidos como menos racistas que os americanos do norte, fora o Canadá. Nós sabemos disfarçar melhor, talvez por causa do carnaval. Em muitos casos, por aqui são negros matando negros, ou brancos matando brancos quase negros. E não são só favelados que morrem nas mãos do tráfico ou de uma bala quase perdida de um policial. É que os maiores e melhores meios de comunicação estão ao derredor destas povoações, mas o jovem negro está morrendo vítima de inúmeras desgraças em todos os rincões deste país. São negros, quase negros, brancos ou quase brancos que povoam as páginas policiais com seus corpos crivados de balas vindas das armas do tráfico, das milícias, dos capangas das terras de coronéis, do contrabando ou das baionetas oficiais. São bandidos, a maioria, uns poucos inocentes, mas mortos sem o direito sagrado de apelar por inocência num país onde não há Pena de Morte.

Dyogo Costa Xavier de Brito, foi enterrado na terça-feira, 14 de agosto de 2019, aos 16 anos. Ele foi morto com um tiro nas costas durante operação policial na Favela da Grota, em Niterói, no Rio de Janeiro. No final de semana anterior ao fato, também foram mortos a tiros Gabriel Pereira Alves, de 18 anos, Lucas Monteiro dos Santos Costa, de 21, Tiago Freitas, de 21, Henrico de Jesus Viegas de Menezes Júnior, 19 anos e Margareth Teixeira, 17 anos. A história é sempre a mesma: ação policial, bala perdida ou execução de determinado grupo.

Mas não há palavras para revelar indignação do que houve na favela de Paraisópolis, em São Paulo, no dia 3 de dezembro de 2019. Nove jovens foram mortos pisoteados, depois de uma ação desastrada da polícia. Os jovens mortos durante a ação foram Gustavo Cruz Xavier (14); Dennys Guilherme dos Santos Franco (16); Marcos Paulo Oliveira dos Santos (16); Denys Henrique Quirino da Silva (16); Luara Victoria Oliveira (18); Gabriel Rogério de Moraes (20); Eduardo da Silva (21); Bruno Gabriel dos Santos (22); Mateus dos Santos Costa (23). Nenhum deles morava em Paraisópolis. Foram se divertir em baile funk e, sem conhecer o local, acabaram sem saber para onde ir na hora do corre-corre. 

Para não dizer que entramos em 2020 melhor, o adolescente João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, foi atingido por um tiro de fuzil na barriga na tarde da segunda-feira, 18 de maio de 2020. O garoto estava dentro de casa, na ilha de Itaoca, jogando sinuca com primos e colegas, perto da piscina. Policiais invadiram a casa atirando. Depois do acontecido, com o menino ainda vivo, o tio pediu aos policias para darem socorro. João Pedro não resistiu. Seu crime foi estar no lugar errado, na hora errada, numa operação policial também desastrada.

João Pedro foi morto em ação policial

A diferença das nossas vítimas negras, indígenas, pobres e vítimas do estado, é que poucos vão para as ruas protestar. George Floyd morreu nos Estados Unidos diante das câmeras de celulares e não precisou nenhuma reportagem dizer aquele absurdo. Aqui há a difusão equivocada do discurso de que bandido bom é bandido morto. Embora muitos discordem, não há multidões nas ruas lutando contra as vítimas do racismo. É verdade que há uma luta contra o racismo de forma generalizada, mas quando envolvem negros favelados, índios assassinados na Amazônia, agricultores mortos no Pará, os gritos são quase mudos. A morte da vereadora Marielle, caso não ocorresse no Rio de janeiro, não fosse ela de um partido queridinho da elite artística do Rio, jamais teria sido a causa abraçada. Até na hora do protesto, há discriminação de causas. Reclamam de que o crime ainda não foi solucionado dois anos depois, mas há assassinatos de agricultores no Pará que já beira os vinte anos sem solução.

Verdade seja dita: a solução passa pela política, pelo aprimoramento da democracia, pela modernização do estado, pela evolução das políticas públicas para diminuir sobremaneira as desigualdades sociais e, principalmente, pela consolidação da educação pública como escola de excelência. São os agentes do poder público que devem fazer esta transformação. Não devemos esperar que negros, índios, asiáticos e mestiços pobres desta nação acabem com o racismo. Isto é tarefa para os que detém o poder, o conhecimento e a ação pública nas mãos. Não precisamos esperar que eles reajam contra este estado de coisas, porque, se isto acontecer e atingir certos níveis, já não será mais protesto. Será revolução e, assim, não teremos mais Estado.

  

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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