Reprovação: nem o professor é culpado, nem aluno é coitadinho!

Os governos não querem enfrentar as verdadeiras causas da reprovação na escola pública (foto: Rafael Bandeira)

Dizer a verdade é uma tarefa árdua, sempre. É mais fácil trabalhar com o digerível, com o conhecimento comum. Certa feita chupei uma manga e, alguns minutos depois, bebi leite. Minha mãe, que há muito se foi, ralhou comigo: Manga com leite mata! Fiquei debaixo da mesa chorando e não morri, pelo menos até aqui. Saí perguntando a todos e todos me diziam o mesmo, que era veneno. Mas como escapei? Foi Deus! Ao ler a entrevista do Secretário de Educação da Bahia, professor Jerônimo Rodrigues, percebi que, mais uma vez, não sairemos do lugar. Ele repete o mesmo discurso de anos: a reprovação é culpa do professor. O aluno é sempre a vítima.

Segundo entrevista dada pelo secretário no portal Bahia Notícias, publicada em 29 de julho passado, “temos que ter a coragem de enfrentar a reprovação.”. Nesse ponto estou afinado com ele, mas, logo na sequência afirma: “Em momento algum, a gente está pedindo aqui para que professores aprovem estudantes que não tenham a capacidade. Mas também não dá para a gente não questionar que estudantes são reprovados sem um critério mais apreciado de fatores. Fica uma frase no ar dizendo:  reprova que ano que vem a gente conserta”. Nesta última afirmação reside todo o equívoco.

Duvido que o secretário não saiba que o problema é justamente a aprovação. Na Bahia a média é 5,0. Nota irrisória e incapaz de medir aprendizagem. Há ainda Conselhos de Classe que simplesmente empurram alunos para o ano seguinte, com esperanças de “consertar” alguma coisa depois. Mesmo com todas estas facilidades, o maldito do professor ainda é considerado o responsável pela quantidade de reprovados. Se analisarmos a situação do ensino médio na Bahia, chegaremos à conclusão de que aqui se aprova muito aluno sem condições alguma de ser promovido para a série seguinte.

A Bahia tem um sistema avaliativo que diagnostica alunos do 3º ano do ensino médio. Num universo de 100 alunos, por exemplo, aparecem 4 ou 5 bons alunos, com medias acima de 70% de aprovação. A maior parte, mais de 60 alunos, não conseguiu nem mesmo o pouco 50% de aprovação. São números vergonhosos para todos os atores desta educação, mas só recai sobre o professor a logomarca de “reprovador”.

Vou aqui pegar uma frase dita pelo secretário na entrevista para mostrar a ponta do iceberg do nosso fracasso. Disse, respondendo a uma pergunta de Rodrigo Daniel Silva: “Minhas falas são muito ponderadas para não criar desequilíbrio com os prefeitos.”. Ou seja, o secretário Jerônimo Rodrigues não quer se indispor com os prefeitos, mas, já que professor é saco de pancada mesmo, vamos culpá-lo mais uma vez. É fácil, prático e corriqueiro. Difícil é dizer que o grande número de reprovações e abandonos nas escolas de ensino médio da Bahia é altíssimo nas 1as séries porque o ensino fundamental, na maioria esmagadora dos municípios do estado, é deficitário e precisa de um olhar mais técnico e menos político. O secretário não quer corrigir o problema porque ele colocaria em risco centenas de milhares de votos que garantem a permanência no poder!

E não me venham com a conversa de que estamos aqui dizendo que o aluno não é vítima do processo. É claro que é! Mas está longe de ser um coitadinho, vítima do sistema, oprimido pela falta de verba na educação ou produto vítima de uma elite direitista. Temos estudantes que são capazes de aprender em condições adversas porque eles buscam o conhecimento. Estes são poucos, talvez aqueles 4 ou 5 em 100. Estes tiram de letra os problemas que enfrentamos. São os desmotivados, os sem objetivos, os que deixam a vida levá-los, os que não querem que a mãe perca o Bolsa Família e os que vêm para escola para não estudar, dentre outros, que emperram o ensino.

Muitos destes últimos citados chegaram a este ponto porque não acreditam que conhecimento leve ninguém a lugar algum. Dizem isso por comodismo ou como desculpa para o seu não engajamento educacional. Não acham que vale a pena tanto sacrifício. Para que a construção de um futuro se o que se tem é o presente? Então, buscam o imediato, aquilo que vem sem mais delongas. Prova disso é o que está acontecendo na cidade de Fátima. O Colégio Estadual Nossa Senhora de Fátima iniciou o Ensino Médio Integral para turmas de 1º ano. Como é o dia inteiro de atividades, muitos abandonaram ou pediram transferência para o Colégio Luís Eduardo Magalhães, na mesma cidade.

Em suma, o aluno de hoje, com raras exceções, neste nosso sertão, perdeu o gosto pela busca do conhecimento, pela escola. Os governos precisam entender isso e começar a resolver o problema lá na alfabetização, no início do fundamental. O trabalho precisa ser feito em conjunto com as prefeituras, colocando de lado a preocupação com a manutenção do poder. Aluno não é coitadinho. É um descrente no processo educacional e precisamos urgentemente despertar nele a crença da educação como caminho, quase único, para sua formação plena.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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