Réquiem para o Barão

Luiz Carlos dos Santos*

Prédio do Clube Barão do Rio Branco é mais um patrimônio do povo de Poço Verde que desaparece da história (foto: Lula)

Manhã enevoada numa quinta-feira atípica de abril de 2020, num Poço Verde em que impera a solidão nas suas ruas e travessas esquálidas, à espera da pandemia apocalíptica oriental. Nesse cenário de ficção, ninguém percebe o trágico fim do Barão, posto abaixo e carregado em 7 vezes por caçambas barulhentas, que levaram, não só restos de construção, mas também as lembranças festivas e sociais de um povo pobre em memórias.

Não é de hoje que nossas parcas heranças culturais vêm sendo solapadas, destruídas pelo afã de um dito progresso que modifica não só nosso legado material mas também nosso espólio imaterial. Como esquecer da “Casa das Irmãs de Santa Maria”, como ficou conhecida umas das casas mais antigas da nossa urbe, que recentemente foi posta abaixo, levando junto nossas memorias materiais e imateriais, transformando-se também em entulhos, restos de um tempo que não volta mais.

Será que estamos fadados a “Cem anos de Solidão”? Será que seremos a “Macondo” de Gabriel Garcia Marques? Um povo sem memória é um povo fadado ao esquecimento e, nesse ritmo, restarão apenas as lápides dos cenotáfios para contar a história de épocas imemoriais.

Agora tombou o Barão, levando consigo as lembranças de várias gerações, os bailes, as matinês, o cinema, a jogatina e toda sorte de eventos culturais, pois toda manifestação de um povo tem essa qualificação. Como esquecer inúmeros bailes, os de janeiro, os de maio e tantos outros? E as bandas que animavam essas festas: Made in Bahia, Controle Remoto, Alcanos, Nômades etc… Essas memorias precisavam ser escritas a mil mãos. O cinema, Nunes e Juca Silva, o alto falante e os filmes de bang bang – matinê também apelidada de “inferninho”, primeiro roteiro, músicas lentas e quem namorô namorô. Vô Isaura indo pegar os filhos depois das onze, e os netos também. Carnaval com “Seu Dudu”, Turiba na bateria, Vaca malhada, Mais um Bahia, Talco no salão, Lóló, Bomba no sanitário no São João, Pôquer, Buraco e 48 horas de bicicleta. Teve também Clenado como locutor no ” Está no ar o serviço de alto falante do Clube Barão do Rio Branco, com músicas variadas e gravações selecionadas”. Teve também futebol da Associação – o vestiário do clube era no Barão – de onde os jogadores saiam fardados até o antigo campo. Era uma festa nos domingos à tarde.

O Barão, um baú imensurável de memórias que não cabem nesse réquiem e nem em 7 caçambas de entulho. Deixo-os perdidos, divagando em suas memórias. Sei que não precisam mexer muito nas gavetas da consciência para fazer vir à tona o turbilhão de lembranças: “Sai do ar o serviço de som do clube Barão do Rio Branco, desejando… (Felizes lembranças para todos)…”

*Luiz Carlos dos Santos é professor.

Foi diretor do Colégio Estadual Professor João de Oliveira e Diretor do Curso Pré-Universitário da Secretaria de Estado da Educação, em Poço Verde-SE. É popularmente conhecido como Lula de Zé Emídio.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

Deixe uma resposta