Tragédia em Juiz de Fora
As fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora (MG) desde a noite de ontem provocaram uma tragédia significativa que poderia ser evitada.
Chuvas provocaram, até aqui, 14 pessoas mortas em decorrência de deslizamentos e desabamentos na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Os números podem ser ampliados porque há dezenas de pessoas ainda não localizadas. Em alguns bairros, como Parque Burnier, os bombeiros relatam famílias soterradas. Até o momento, cerca de 440 pessoas estão sem casa e os bairros mais atingidos foram JK, Santa Rita, Vila Ideal, Lourdes, Vila Alpina, São Benedito e Vila Olavo Costa.
A prefeitura de Juiz de Fora decretou estado de calamidade pública, suspendeu aulas na rede municipal e mobilizou equipes de resgate. Autoridades climáticas afirmam que ainda há risco de novas chuvas, o que preocupa autoridades e moradores.
A tragédia em Juiz de Fora parece notícia repetitiva e é vista como uma situação muito delicada, com impactos humanos e estruturais graves. É comum ouvir expressões na imprensa como “fúria da natureza” ou “vingança do clima”, formas comuns de expressar o impacto devastador das chuvas, mas isso simplifica demais o fenômeno.
Embora as chuvas intensas e os deslizamentos pareçam imprevisíveis e violentos, transmitindo a ideia de que a natureza “se revolta”, transformando o sofrimento humano diante de perdas tão rápidas e massivas até mesmo como algo corriqueiro e comum, há muito mais nesse imbróglio a ser revelado.
Especialistas preferem falar em eventos extremos ou desastres socioambientais, porque os impactos não vêm só da chuva em si, mas também da forma como ocupamos o solo. Encostas são desmatadas e as construções em áreas de risco e falta de infraestrutura de drenagem tornam as cidades mais vulneráveis. Não é apenas “fúria da natureza”: há também responsabilidade humana na forma como planejamos e ocupamos os espaços urbanos.
É preciso olhar para os números e entender que não há um projeto real de enfrentamento do problema. Expressões assim transmitem bem a intensidade do fenômeno, mas podem ocultar o fato de que parte da tragédia é resultado da interação entre clima e sociedade.
Não há dados disponíveis sobre mortes provocadas pelas chuvas no Brasil nos últimos dez anos e não temos como consolidar um número representativo desta tragédia. O que existe são levantamentos sobre eventos extremos (enchentes, enxurradas, deslizamentos) e seus impactos.
É sabido que, entre 2020 e 2023, foram registrados 7.539 desastres climáticos causados por chuvas intensas no Brasil, incluindo enxurradas, inundações e deslizamentos. Esses eventos cresceram 222% em relação à década de 1990, mostrando uma intensificação clara.
Outro dado que já conhecemos indica que, no período de 1991 a 2023, mais de 91 milhões de pessoas foram afetadas por desastres relacionados às chuvas, mas os números de mortos não aparecem de forma consolidada em relatórios nacionais.
Apesar de não haver uma estatística oficial que some apenas o número de mortos por chuvas nos últimos dez anos, os registros fragmentados, geralmente feitos por Defesa Civil estadual ou municipal, e depois compilados em relatórios sobre desastres naturais, indicam seriamente um negligenciamento governamental com ausência de planejamento para enfrentar esta tragédia anunciada e em curso. Estamos por nossa conta e risco.
Imagem destaque: Folha JF
