Uma armadilha institucionalizada
Viralizou o discurso de uma juíza aposentada do Trabalho ao defender os chamados penduricalhos durante uma sessão no Supremo Tribunal Federal (STF). O nome de pobrezinha é Cláudia Márcia de Carvalho. Ela disse que magistrados de primeiro grau “precisam pagar pelo próprio café e pelo próprio carro”, sugerindo que as verbas indenizatórias seriam necessárias para compensar essas despesas. A fala gerou reação imediata e irônica entre ministros do STF e repercutiu fortemente nas redes sociais, tornando-se motivo de piada e indignação pública.
E o que há de interessante nisso? Reportagens revelaram que, em dezembro de 2025, a juíza recebeu cerca de R$ 113,8 mil líquidos, incluindo benefícios e adicionais, o que intensificou a polêmica sobre supersalários no Judiciário. Fazendo uma análise mais profunda, chegamos a um paradoxo revelador com duas coisas importantes:
1 – Desigualdade institucionalizada: os privilégios de quem ocupa cargos nos três poderes contrastam com a dificuldade de avançar em pautas que beneficiariam milhões de trabalhadores.
2 – Distância entre governantes e governados: quando a classe política parece blindada em seus próprios interesses, a sensação de injustiça e descrédito nas instituições aumenta.
O caso mais emblemático é a dificuldade que o congresso está enfrentando para acabar com a escala de trabalho 6×1 e implantar a 5×2. Estamos falando de pessoas que decidem nossa vida e ganham salários consideráveis, ao mesmo tempo que não conseguimos aprovar um benefício para os que ganham, em sua maioria, o salário mínimo. Chega a ser constrangedor.
Mais constrangedor não é apenas a discrepância salarial, mas o fato de que o sistema político e jurídico parece ter mais agilidade para garantir vantagens a si mesmo do que para aprovar medidas que impactariam positivamente a vida da maioria. Isso gera a percepção de que o país funciona em duas velocidades: uma para os que estão “encastelados” e outra para quem sustenta a máquina pública com seu trabalho.
Se juntarmos a desigualdade institucionalizada com a polarização política, o paradoxo fica ainda mais evidente: enquanto grande parte da população se divide em brigas ideológicas, muitas vezes defendendo “seus” políticos como se fossem times de futebol, os verdadeiros beneficiados continuam sendo os que já estão nos castelos — blindados, com privilégios e salários muito acima da realidade nacional.
Essa dinâmica cria um círculo vicioso:
- Polarização como distração: o povo se ocupa em disputar narrativas, enquanto os encastelados seguem acumulando vantagens. E esta polarização não é natural, é arquitetada pelos poderosos.
- Legitimação dos privilégios: ao defender “seu lado” com fervor, parte da população acaba sustentando o sistema que perpetua desigualdades.
- Dificuldade de união: em vez de se mobilizar por pautas comuns (como melhores condições de trabalho), a sociedade se fragmenta em disputas que pouco afetam os privilégios da elite política.
Ou seja, o paradoxo não é apenas estrutural e cultural, mas também emocional e simbólico. O povo briga entre si para manter os castelos intactos, sem perceber que a luta deveria ser contra os muros que separam os governados dos governantes. O voto seria a forma mais lógica de sair deste imbróglio, mas o próprio sistema não permite saídas simplórias. Será preciso uma ruptura drástica para romper com esta armadilha institucionalizada.
Imagem destacada: O Globo
